A estrada ensolarada de Rita Ribeiro

Por Sérgio Fogaça

    O Brasil é mesmo uma festa musical. Num incessante jogo de aparições criativas, centenas de músicos, compositores, instrumentistas e intérpretes vêm de todos os cantos. Do Maranhão, estado que já havia nos revelado João do Vale e Alcione, entre outros, apareceu, nos últimos anos, Rita Ribeiro. Recentemente, Rita lançou "Comigo", terceiro trabalho de sua ensolarada estrada. Mais segura que nunca, inclusive para exercer sua intuição – "ela é meu anjo da guarda", segundo ela própria diz –, continua inovando ao mesmo tempo em que resgata compositores importantes. Renovar em sentido amplo. Isso acontece porque tem um jeito muito próprio de ser e interpretar. O resgate fica por conta da extrema consciência e sensibilidade com suas raízes. Ela garimpa tanto novos como mais antigos valores da música brasileira. Depois do Maranhão, Rita seguiu para São Paulo, onde morou durante dez anos. Lançou dois CDs. O primeiro, "Rita Ribeiro", em 1997, pela gravadora Velas. Depois veio "Pérolas aos Povos", pela MZA, em 1999. Esse também foi lançado nos Estados Unidos e, no mesmo ano, ela se apresentou em Montreux, na Suíça, fatos que ajudaram na consolidação de sua carreira também no exterior. Ela merece. Tem paixão pelo que faz. Diz que está tranqüila com sua arte. Cá entre nós, só aos bons isso é possível. Desde fevereiro de 2001 morando no Rio de Janeiro, Rita diz que gosta de mudar de ares: "Isso me renova", explica. Recentemente, lançou "Comigo", pela Abril Music. O CD já vem mostrando que também vai ser sucesso, como os anteriores. A artista fazendo história. Como ela mesma afirma: ela tem história. E só quem tem pode transmitir verdade e paixão com sinceridade. Nas linhas abaixo, conheça um pouco mais sobre Rita Ribeiro.

Página da Música - Gostaria mesmo de começar perguntando sobre suas referências musicais.

Rita Ribeiro - Nasci no Maranhão, no interior, e fui criada na ilha de São Luís. Minha criação foi em periferia. E como uma boa habitante de periferia, ouvia de tudo um pouco. Principalmente o que o vizinho determinava (risos). Colocava-se o que queria nas radiolas e em qualquer altura. Mas também tive influência da minha família. Somos em 11 irmãos, sendo que eu sou a décima. O que meus irmãos escutavam influenciou bastante na minha formação musical. Os vizinhos ouviam muita música, hoje conhecida como brega romântica. Ouvi muito Lindomar Castilho, Waldick Soriano etc. Mas também muito reggae, uma característica típica do Maranhão.

PM - Essa é uma característica de muito tempo na região. Você sabe como começou?

RR - Pelo menos, antes de eu nascer. Desde muito tempo, a ilha recebia sons do Caribe através das ondas do rádio, ou seja, das rádios de lá. O reggae vinha por aí e acabou sendo adotado pela periferia, pela classe mais pobre do Maranhão. E virou o que é hoje, um verdadeiro culto. O reggae é uma verdadeira religião no Maranhão. Na minha infância e adolescência eu ouvia muito o som do baixo do reggae.

PM - Seus irmãos escutavam coisas diferentes, já que eram tantos?

RR - Escutavam. Eles escutavam muita música brasileira. Meu pai quase foi um músico profissional. Ele ouvia muito a velha guarda, nomes como Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues e Cartola. Meus irmãos escutavam várias outras coisas. São todos da geração das décadas de 60 e 70, tiveram muita influência da música de protesto, do tropicalismo e da jovem guarda. Eu tinha uma irmã que trabalhava em loja de disco, ela trazia de tudo para a gente escutar, inclusive música americana, que teve uma penetração muito grande nos anos 70, embora ainda tenha bastante. Eu absorvi tudo isso, sem me prender a nada, até porque eu não tinha idéia ainda do que seria minha vida, de que eu seguiria a carreira de cantora e tudo o mais.

PM - E quando você despertou para isso?

RR - Com 15 anos de idade eu resolvi me dar de presente uma matrícula na escola de música. Também comecei a ter contato com a música erudita porque iniciei estudo de canto em corais. Em São Luís não tínhamos universidade de música. Existia o canto coral nas escolas de segundo grau e universidades. No início, isso foi a minha maior escola de canto. Foi bom também porque me proporcionou a possibilidade de cantar de tudo. Desde a música renascentista e barroca até a mais contemporânea e popular. Também, nos anos 80, pipocaram os grupos vocais como o "Garganta Profunda" e o "Envoquei o Vocal", que trabalhavam as vozes de coral para a música popular brasileira. Eu e uma turma do Maranhão também formamos um grupo chamado "Vira Canto", que trabalhava a música popular a quatro, cinco ou seis vozes. Por isso eu ouvia de tudo. Quase fui uma cantora lírica. Todos os professores que passavam pelo Maranhão e me ouviam achavam que eu tinha um potencial enorme para ser cantora lírica, e lírica-dramática.

PM - Isso chegou a acontecer?

RR - Até me empolguei durante um tempo. Fui morar no Chile em 1996 e estudei canto erudito durante um ano por lá. Ingressei no coral da universidade e viajei o país inteiro cantando com o coro sinfônico. Mas eu sentia mesmo que a minha história era com a música e cultura populares. Também tive algumas frustrações com a formação acadêmica em São Luís, por conta das condições. Daí entrei de cabeça na pesquisa e cultura de rua. Eu diria que sou cria cultural da rua. Aprendi com os puxadores de bumba-meu-boi, com as ladainhas dos cânticos das cachoeiras do Divino Espírito Santo, em Alcântara e com todas as manifestações folclóricas do Maranhão. Comecei a descobrir que a minha história era o pé no chão. Aprendi muita coisa nos terreiros de umbanda do Maranhão. Adorava, tinha muita curiosidade de ouvir os cânticos, ver as danças. Entrei nessa viagem. Também participei de festivais de música e ganhava como intérprete. Nessa altura já estava me envolvendo no circuito cultural da cidade e tudo foi tomando uma forma mais definida para mim. Até então, eu era uma estudante de enfermagem e veterinária.

PM - Você concluiu algum deles?

RR - Não, porque eu já queria ser artista, mas minha família achava isso um sonho, achava que eu estava delirando. Aquela velha história. A família era muito grande, minha mãe queria que eu fosse médica e eu com aquela vontade dentro de mim. Até que uma hora cresci o suficiente para definir o que queria para a minha vida. Aí foi tranqüilo. Abandonei os cursos com consciência e montei um show. Isso em 1989. Esse foi o ano em que realmente defini a minha história.

PM - Foi nessa época que você veio para São Paulo?

RR - Eu vim em 1990. Em 1989 eu fiz um show no Maranhão. Montei uma banda, um repertório, e me lancei com a proposta de ser uma cantora solo. Foi nesse show, quando subi ao palco, que eu não tive mais dúvida de que minha vida era aquilo mesmo. No ano seguinte me mudei para São Paulo. Depois mais alguns anos se passaram na luta pela sobrevivência e de conhecer, de aprender, de estudar muito. Estudei canto com a Ná Ozzetti e também com a Madalena Bernardes. Fiz vários cursos que me interessavam dentro da música. Também conheci muitos músicos. Em 1994 montei uma banda que me acompanhou no circuito alternativo de São Paulo. Até que em 1996, depois de ter passado dois anos tentando fazer um disco independente, eu pré-mixei umas músicas que tinha e levei para a gravadora Velas. Eles acabaram comprando o projeto e em 1997 lancei o meu primeiro disco, o "Rita Ribeiro". Foi uma porta aberta, um cartão de visitas, uma explosão em minha vida, um fechar e abrir de ciclos. Eu fechei todo um processo pelo qual eu vinha e abri um outro muito maior, para que as pessoas me conhecessem mais. Ampliei as possibilidades de divulgação e de conhecimento em relação ao meu trabalho. Foi muito bem aceito pela crítica e público, apesar de eu não ser uma cantora que se coloque entre as que vende milhões de discos. Mas isso também nunca foi motivo de angústia para mim. Eu sempre tive consciência da arte que faço. Sei que minha obra tem um pouco mais de critério, precisa de um tempo maior para ter resultado. Eu vivo muito bem e tranqüila com isso. Embora eu não limite meu pensamento a número de público ou de vendas, acho também que quanto mais eu vender e quanto mais eu atingir o público, melhor.

PM - Você é considerada uma cantora de identidade bem própria, no sentido de escolha de repertório, por exemplo. Essa é uma busca consciente, intuitiva, ou um pouco das duas coisas?

RR - Acho que tem um pouco dos dois. Mas cada vez mais prevalece o lado consciente. Embora a intuição seja um recurso do qual eu me valha profundamente. Ela é meu anjo da guarda. É quem realmente me sopra o caminho e a escolha certa. Mas acho que hoje estou mais consciente e tenho mais experiência para saber qual é o meu papel dentro do mercado musical brasileiro. Percebo melhor o caminho pelo qual optei, afinal, eu poderia ter me valido de um gancho qualquer, de uma moda qualquer e ter me lançado aí para ter um retorno imediato. Eu não quis isso. Eu me sinto bem assim, eu me sinto verdadeira, me sinto inteira no que faço.

PM - Como você escolhe seu repertório?

RR - Sempre me perguntaram o que caracterizava uma cantora, ou o que poderia ser uma grande cantora. É só ter uma grande voz, um grande instrumento vocal? Não, de maneira alguma. Acho que existem fatores fundamentais para chegar e dizer que aquela pessoa tem um potencial muito grande. Um deles é o instrumento (voz), obviamente, porque é ele que faz com que você se emocione e emocione as pessoas. Toque, transforme o pensamento delas de alguma maneira ou mude de alguma forma. Acho que essa é a função do instrumento voz. Mas também existe a questão técnica que está a serviço da sua emoção. E você tem de saber realmente como utilizar esse mecanismo da melhor maneira que você possa explorar o seu delírio, sem problemas e sem conseqüências graves e, principalmente, a escolha de seu repertório. É perceber como você escolhe e mostra seu panorama. As pessoas pensam que é fácil, mas é a parte mais difícil.

PM - Ainda mais considerando a disponibilidade e diversidade do cancioneiro brasileiro.

RR - Exatamente. É a parte mais complicada e a mais delicada. É onde você diz assim: é aqui onde realmente vou passar toda a idéia e toda a concepção daquilo que penso. Porque você está completamente ligado ao conteúdo, que são as letras, as músicas, as mensagem que você quer passar. Seja uma mensagem de amor, seja uma mensagem positiva de vida, protesto, enfim, qualquer coisa que seja, mas aquilo tem de ter uma coerência com o que você é, com o que você faz, com o que você quer transmitir.

PM - Tenho a impressão de que toda essa coerência vai se consolidando de tal forma que até acontece de... Por exemplo: quando escutei a música Contra o tempo, do Vander Lee, no seu último CD, tive a impressão de que ela tinha sido feita para você cantar. Ou seja, mesmo sem se prender a nada especificamente, cria-se um estilo de tal maneira que identificamos certas músicas com certos intérpretes.

RR - É verdade. Você se apaixona. Porque há uma relação de paixão com certas canções. Eu me apaixonei pelo Vander Lee através da música dele. A música dele chegou para mim antes de eu conhecê-lo. Eu ouvi aquela música e já me vi cantando. Eu me apaixonei por ela. É quando você se apaixona pela canção, pela melodia, pela harmonia, pela letra, que você pode ver que fala de uma situação de amor. Mas eu costumo ir atrás de uma situação de amor mais profunda, até um pouco ácida. Não é aquela coisa que acho que hoje se estabeleceu, talvez por conseqüência da cultura das novelas, onde tudo se tornou muito diluído. Digo isso mesmo sobre o tratamento com o amor, com o afeto entre as pessoas. Há mil maneiras de tratar o amor. O amor entre duas pessoas de um casal, de irmão com irmão, de pessoas com pessoas, como percebo na música A riqueza, de Santacruz, também desse último trabalho. Essa música fala de uma mensagem positiva, de abrir as portas, aquela coisa de o que passou, passou, vamos seguir em frente, vamos tentar superar todos os conflitos sem ser babaca, sem ser fútil. E trazendo uma certa profundidade ao mesmo tempo em que tem leveza. Por outro lado, eu canto um repente mais urbano, como é o do João Linhares (a música é O conforto dos teus braços), dando uma tremenda cutucada na malandragem, na má politicagem, na confusão geral do País. Nessa coisa toda que a gente vive e que, no fundo, o que queremos é o conforto das coisas. Conforto da sua relação, do teu abrigo. Então eu fico viajando nessas coisas todas. A questão do repertório é muito importante. Mas, ao mesmo tempo, eu também posso me desprender dessa relação mais consciente, como eu já havia dito, e a música pode me pegar só pelo ritmo, mas do que pelas palavras, pegar pela melodia.

PM - A melodia, inclusive, é pelo menos um dos fatores que tornam a música universal.

RR - Eu ouvi muita coisa melódica durante toda a minha existência. Só para dar um exemplo, uma idéia de referência que não é brasileira: eu adoro o Elton John. Para mim, um dos maiores melodistas do mundo, além de Beatles e Stevie Wonder, que também são outros dois grandes exemplos. Às vezes não entendia a letra, mas a melodia era tão fulminante que vinha direto na veia. Então, a música às vezes me pega pela melodia, às vezes por esse conjunto que eu te falei de ritmo, harmonia e melodia. Às vezes me pega pela letra, que pode ser muito forte. O mais difícil para gente é tentar dar uma unidade para isso. Afinal, eu poderia jogar um monte de música aí e fazer uma colcha de retalhos sem organização. Claro que para escolher acabo tendo também a contribuição do diretor musical, às vezes do produtor, que me mostra alguma coisa. Não é só uma atividade individual e solitária. Existe uma comunhão de pessoas, de fatores e coisas que acabam influenciando na escolha. Mas é você que dá a cara, a emoção, a unidade. Acho que a unidade está na verdade do que faço. Quando canto uma canção, procuro passar essa emoção verdadeira, sentida. Procuro imaginar como se eu também fosse a pessoa a ouvir aquela canção. E ter uma identificação, como tenho com grandes cantoras. Quando percebo, por exemplo: "Olha como Maria Bethânia canta isso, só ela canta assim, só ela tem um jeito de interpretar aquela canção". Então também tenho essas referências que me dão mais segurança. Além do retorno do público, de pessoas que conhecem meu trabalho e dizem: "A Rita canta isso assim". Vai se criando um jeito próprio.

PM - De volta ao regionalismo, mas ainda no tema da universalidade, você acha que o regionalismo é um segredo de universalidade?

RR - Totalmente. O que eu não consigo entender são pessoas que ficam negando o fato de serem regionalistas, por exemplo. Eu sou muito mais do que regionalista, eu sou uma pessoa que tenho raiz, tenho formação, tenho história para contar.

PM - Isso faz a diferença, principalmente numa sociedade que vive de cópia, clone, de falta de personalidade.

RR - Para você ter uma idéia, a referência que se tem de São Paulo para quem mora no Maranhão, é: para o Maranhão, São Paulo é como se fosse Nova York. Ou mesmo quem está em São Paulo e acha que Nova York ou Paris é tudo. Eles até podem estar adiantados em tecnologia e várias outras coisas, sem dúvida nenhuma. Mas acho que nós temos cultura para trocar. Renegar o que nós somos é uma idiotice. Acho que esse tipo de pensamento ainda existe muito no Brasil. As pessoas ainda ficam muito presas ao colonialismo.

PM - Há quanto tempo você mudou para o Rio de Janeiro?

RR - Há oito meses. Foi em fevereiro.

PM - Teve algum motivo específico?

RR - Vários motivos. Penso que, uma vez que saí da minha terra, o Maranhão, posso viver em qualquer lugar. Em segundo lugar adoro descobrir coisas, desbravar caminhos, histórias, lugares. Por isso fui para São Paulo e vivi dez anos lá. Dez anos de muita batalha e de estar aberta, antes de mais nada. Cheguei quietinha e fui conquistando meu espaço, meus amigos e minha história. Pronto, chegou um ponto que São Paulo não dava mais por vários motivos. Acho que estava a fim de mudar mesmo. Gosto dessa possibilidade de mudar, acho que faz bem para a minha vida, que renova minhas células, meu pensamento. Aqui, eu já não tenho um círculo de amigos muito grande, não tenho muito conhecimento da cidade. Mas estou a fim disso. Isso para mim é muito bom, porque é um novo fôlego, uma nova história, um novo processo. Tudo bem que também tem essa história de qualidade de vida.

PM - Você mora em que bairro?

RR - Eu moro no Leme. De manhã cedo, antes de fazer o meu trabalho, minhas atividades, posso dar uma caminhada na praia. Tem a montanha ao lado. Posso ver a lua com mais facilidade do que eu via em São Paulo. É uma cidade que me aproxima muito mais da minha história no Maranhão, porque são Luís é uma ilha. Eu sempre tive a natureza muito mais próxima de mim. E a possibilidade de trocar, de conhecer outras pessoas, trocar outras sonoridades. Conhecer outros músicos, conhecer as referências todas que a cidade tem.

PM - Isso influencia também na sua musicalidade?

RR - Totalmente. Esse último disco eu gravei aqui no Rio e a maioria dos músicos é carioca.

PM - Você tinha os outros dois trabalhos gravados em São Paulo e agora esse foi feito no Rio, com músicos como o Carlos Malta...

RR - ...o Eduardo Souto Neto, Paulo Calazans, Marcelo Mariano e Carlos Bala, por exemplo. Uma galera toda aqui do Rio. Eu gravei aqui, com técnico daqui, estúdio daqui, que eu achei super legal. O mais interessante também é que estou morando no Rio, mas continuo eu mesma.

PM - Isso dá para perceber pela unidade dos três discos.

RR - Significa que amanhã posso estar em Nova York ou Paris, mas vou continuar tendo as minhas referências. Como eu disse, eu não nego nada do que vivi, do que sou, do que experimentei. Eu acho que se entrar numa viagem de negar isso vou me perder completamente. Só para satisfazer um mercado. Não, não. Eu prefiro comungar com coisas novas, que até então podem me parecer estranhas, desde que eu tenha consciência de que quero fazer isso, do que simplesmente ficar negando isso ou aquilo.

PM - Falando um pouco de suas parcerias constantes. Você, o Zeca Baleiro, o Chico César, mais até você e o Zeca, têm parcerias em seus três CDs. Vocês têm pontos em comum e também pontos convergentes.

RR - A gente tem história. E quando digo isso quero dizer história com h mesmo, não tem como negar, não tem como passar por cima. O Zeca Baleiro eu conheci em 1984, no Maranhão. E não era nem Zeca Baleiro. Era só Zeca. E ele estava esboçando a idéia dele de composição e eu esboçando minha idéia de ser cantora. A gente acabou se descobrindo com afinidades musicais que se estendem até hoje. Anteriormente até de uma forma mais presente, mais constante, hoje nem tanto, porque cada um está muito ocupado com suas coisas.

PM - Tem história mesmo.

RR - Isso. Como o Chico César. Quando fui para São Paulo, a gente se conheceu e se descobriu na mesma batalha, na mesma luta de viabilizar o trabalho e descobriu afinidades. Não só por ser nordestino, mas também porque a gente já tinha pensamentos universais em termos de música e sonoridade. A gente sempre gostou de experimentar e de arriscar. Tudo isso convergiu para que a gente ficasse próximo. A própria situação de vida, de sobrevivência e de batalha, a gente esteve ali muito cúmplice um do outro. Então, naturalmente a gente está sendo referenciado um pelo outro. As histórias se cruzaram mesmo. Trabalhando junto, comendo junto, criando junto e pensando junto. Quer dizer, escolher uma música do Zeca Baleiro para cantar é porque conheço muito do trabalho dele. Eu acompanhei o processo dele inteirinho. É natural para mim. Sem nenhuma arrogância, eu tenho conhecimento de causa do compositor. Eu me identifico com o trabalho dele e respondo a essas canções de uma maneira imediata, pela identidade que tenho. Muito mais com o Zeca do que com o próprio Chico César. Mas não limito minha história só ao Zeca. Até porque, paralelo a isso, eu conheci o Otto, por exemplo, que adoro. Outro que eu não conheço pessoalmente, mas também adoro, é o grupo Rappa. São grupos que me identifico para caramba e que acabam influenciando também na minha maneira de pensar. Conheci agora o João Linhares, o Vander Lee, o Santacruz. Tem a galera do Maranhão toda que, aos poucos, à medida que posso, vou trazendo à tona, como fiz com o Josias Sobrinho no primeiro disco e seu Antônio Vieira, um grande compositor. Depois que gravei, o Maranhão descobriu que tem o seu Antônio Vieira, um homem de 80 anos com 300 músicas no baú.

PM - Isso deve dar muito prazer.

RR - Lógico. Já estão fazendo projeto sobre a obra dele. Ótimo, que bom.

PM - Essa é a idéia da arte também. Reverberar bons talentos escondidos.

RR - É esse o objetivo. Não quero colher esses louros para botar no meu bolso. Quero mais é que ele, nessa vida dele, nesses 80 anos dele, consiga viver o artista que ele sempre foi e a quem só agora as pessoas estão dando oportunidade.

PM - Isso aconteceu com várias pessoas da música brasileira, como Clementina de Jesus.

RR - Exatamente. Então, minha alegria é trazer à tona uma dupla como Jair Amorim e Evaldo Gouveia. Amorim morreu, mas Evaldo Gouveia está vivo, tocando para caramba. Graças a Deus, em conseqüência dessa gravação que fiz agora, dessa canção dele, Moça bonita. O Mazzola, que é meu produtor, acabou de ter um ótimo insight de gravar um disco dele ao vivo de seresta, porque ele é o rei da seresta. Aí você vai ouvir canções como Sentimental demais, Alguém me disse e Brigas. Canções que você ouve aí e ninguém sabe de quem são. E também gravei uma música (a mesma Moça bonita) que traz à tona uma grande intérprete brasileira que não se ouve em rádio. Só tem referência pessoas muito mais curiosas, porque a juventude de hoje não tem curiosidade sobre uma cantora como Angela Maria. E está ai. Essa mulher é genial, essa mulher foi um sucesso e precisa estar sendo sempre reverenciada.

PM - Você pode destacar um momento importante da sua carreira?

RR - Acho que foi mesmo quando lancei meu primeiro disco. Foi uma coisa muito boa para a minha vida. Uma confirmação de que eu estava no caminho certo. De que eu vinha realmente plantando uma coisa legal, que foi finalmente confirmada pela resposta do público e de crítica. Esse primeiro disco foi para mim uma explosão, uma confirmação que tive de toda a intuição durante toda a minha vida sobre o fato de ser artista ou não, e ser artista no Brasil e ser artista dentro de um contexto mercadológico já pré estabelecido, totalmente dominado. Porque a gente se livrou da ditadura das armas, mas vivemos outras ditaduras camufladas, muito mais sérias, muito mais complicadas. As marcas estabelecidas no Brasil podam muito a criação, a cultura, podam muito o processo de desenvolvimento da gente. Sei das dificuldades de viabilização, de ter meu disco em maior quantidade de venda, porque eu sei que para isso hoje se estabeleceu mil procedimentos que não dependem só de mim. Mas o mais importante é frisar que esse momento de lançamento do meu primeiro disco foi muito marcante na minha vida. Foi como um nascer de sol para mim.

PM - E agora para 2002, quais são seus projetos e idéias?

RR - Especificamente sobre esse disco que lancei em setembro, optei por não entrar de cara fazendo lançamentos oficiais, principalmente nas principais capitais, que são Rio e São Paulo. Optei por fazer um trabalho promocional. Ainda estou nesse processo de divulgar, falar, comentar sobre ele. Fazer ele tocar na rádio. Eu sei que ele está muito bem aqui no Rio e também em São Paulo. Já entrou até numa novela do SBT, a "Pícara Sonhadora", que já saiu do ar. Estou montando uma banda nova. Agora estou no Rio, então, estou tentando concentrar a história aqui.

PM - Uma banda para apresentar o novo trabalho?

RR - É. Temos um projeto de fazer uma turnê grande para o próximo ano, que também está em processo de captação de recursos. Estou na Abril e estou gostando muito do trabalho deles, porque até então eu desconhecia o processo estratégico, normal de uma gravadora especificamente. Acho importante ter um estratégia para esse produto. O que fazer para melhorar esse produto etc. Eu nunca tive isso anteriormente como agora. E com a Abril estou conseguindo ver que eles estão tendo um cronograma, um cuidado nesse sentido.

PM - Você pode adiantar alguns nomes dessa banda que você está montando?

RR - São dois cariocas, o Marcelo Linhares, no baixo, o Edu Sjaibrum, bateria e percussão, e dois guitarristas, que são o César Botinha, paulista de São Carlos, faz violões e guitarras, e o meu diretor musical, também guitarrista, Pedro Mangabeira. A gente já tem shows marcados de 24 a 27 de janeiro, em Salvador. E dia 19 a gente faz um lançamento aqui na Fnac do Rio.

PM - Você está feliz com a sua música?

RR - Muito feliz, muito tranqüila, sem pressa, não tenho porque correr, tenho saúde, tenho tranqüilidade, faço o que gosto. Acho que isso é o mais importante. Minhas referências de mitos são de pessoas que batalharam muito na vida para terem o retorno que têm hoje. Eu me espelho muito nessas pessoas, meu compromisso é com a história.

PM - Quem, por exemplo?

RR - Artistas como Maria Bethânia, Gilberto Gil, Milton Nascimento, figuras que lutaram muito para chegar onde estão e terem o reconhecimento que têm. Não estão milionários mas vivem em paz, vivem felizes com a arte. E espero isso do meu trabalho.

PM - Muito prazer e muito obrigado pela entrevista.

RR - Obrigada a vocês também. Bom ano novo e sucesso!

 

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