A excelência da cavaquinista Luciana Rabello

Por Evanize Sydow

    "Selo de Artista" traz este mês Luciana Rabello. Nesta entrevista concedida à Página da Música, a virtuose do cavaquinho fala do início das atividades de sua gravadora, Acari Records, especializada em choro, dos próximos projetos, como o lançamento de uma série de 15 CDs que enfoca os compositores dos anos de 1830 a 1880 e da feliz parceria com o músico Maurício Carrilho. Entre seus artistas, a Acari Records tem Pedro Amorim, Índio do Cavaquinho, Arranca Toco, Raphael Rabello, Leonardo Miranda, Álvaro Carrilho, além de trabalhos da própria Luciana e de Maurício. A gravadora lança, até abril, 20 novos títulos. Acompanhe abaixo os detalhes dessa bem-sucedida empreitada.

Página da Música - Como e quando surgiu a Acari Records?

Luciana Rabello - Em 98 para 99 eu estava juntando dinheiro para montar o meu disco solo, primeiro independente e depois ia tentar comercializar com alguma gravadora. A mesma coisa estava acontecendo com outros amigos, sem que um soubesse do outro. Eu e Maurício Carrilho, conversando sobre isso, tivemos a idéia de, em vez de fazer um único disco com aquele dinheiro, montar um estúdio. Na verdade, a história começou com o estúdio. Depois, a gente juntou o dinheiro de cinco músicos e fizemos o estúdio. Obra é parecido com tudo e aí a gente não pôde mais fazer do jeito que estava fazendo. Acabamos construindo na mão mesmo. Toda a parte de acabamento foi feita por mim e pelo Maurício. A gente percebeu que nós dois éramos os mais apaixonados e envolvidos na história. Então, fizemos o projeto acústico baseado na história de mais de 20 anos que temos como músicos. Conhecemos os mais variados estúdios daqui e de fora. Apesar de não sermos engenheiros, fomos experimentando. Aliás, foi uma coisa que deu super certo, fazendo uma parte primeiro, experimentando o som com aquele revestimento. Porque o nosso estúdio é especializado em música acústica. Não temos bateria. Podemos ter, mas não é a nossa opção. Resumindo, as pessoas que estavam mais apaixonadas pela idéia, eu e o Maurício, dizíamos o seguinte: Agora que a gente já fez o estúdio, vamos fazer o selo também. Eu falei: "Selo, não. É muito pouco. Vamos fazer uma gravadora." E quero fazer uma editora também. A gente percebeu que cinco pessoas não ia dar. Não ia conciliar os horários nem para fazer as obras quanto mais o resto. Aí decidimos fazer só nós dois.

PM - Vocês são especializados em choro?

LR - Somos. Somos músicos profissionais. Eu tenho 25 anos de profissão e Maurício também, porque começamos no mesmo conjunto especializado em choro. Mas a gente acompanha samba...

PM - Vocês não têm, de repente, a idéia de incluir uma coisa que não seja nessa linha de choro?

LR - Aí, sim. Eu abri o selo, dentro da Acari, chamado Sambaqui. A gente fez o samba dentro da Acari só para músicas cantadas, não especificamente samba. O primeiro lançamento vai ser agora, um disco do Raphael Rabello, com as músicas inéditas dele. São músicas que ele fez em parceria com Paulo César Pinheiro e Aldir Blanc.

PM - Quantos discos vocês já lançaram?

LR - Estamos agora com nove. No princípio de 2002, até abril ou maio, serão 29 discos.

PM - Quais são esses outros?

LR - Álvaro Carrilho, obra de Joaquim Callado tocada pelo Leonardo Miranda, Maurício Carrilho, Pedro Amorim, Luciana Rabello, Arranca Toco, Índio do Cavaquinho e o disco que está saindo agora, que é o "Mulheres do Choro" e não tem um artista específico. São 14 músicas de 14 compositores, desde Chiquinha (Gonzaga) até Luciana (Rabello).

PM - E ano que vem são mais 20 até abril?

LR - A gente tem um projeto, no qual estão saindo 15 CDs. É uma coleção, mas os CDs serão vendidos individualmente, também chamada "Princípios do Choro". São compositores nascidos entre 1830 e 1880. Essa foi a época da primeira geração do choro. São compositores nascidos nos primeiros 50 anos de choro. A gente conhece Callado, que é o primeiro chorão, o pai dos chorões, Chiquinha Gonzaga, Nazaré, Henrique Alves Mesquita. São os compositores mais conhecidos. Os outros são desconhecidos. Mais de 80% do que a gente gravou são músicas inéditas e estavam assim, a ponto de serem perdidas porque muita coisa estava com pessoas que iam recebendo cadernos de música de geração em geração, muita coisa em arquivos públicos também. Uma coisa muito dispersa. Maurício fez uma pesquisa durante um ano e meio e chegou a um número de 6 mil obras aproximadamente. Cerca de 1.300 compositores dessa época especificamente. Foi uma bolsa que ele recebeu da Rio Arte para fazer a pesquisa. Quando a gente estava com o resultado dela na mão vimos que era uma coisa assombrosa, a qualidade que existia ali e o fato de ser tudo inédito. E tem uma época do choro no Brasil à qual não se tem acesso porque não existia rádio e nem disco. Tudo o que eles tinham ali como suporte para perpetuar a obra era a partitura. Então, foi com base nestas partituras que a gente fez este trabalho.. Como música urbana, o choro é a música mais antiga do Brasil.

PM - Qual é a maior dificuldade nessa empreitada de montar uma gravadora?

LR - Distribuição.

PM - E como vocês fazem?

LR - Nós mesmos estamos fazendo a distribuição porque isso não é uma coisa que funcione bem. Não adianta colocar este tipo de disco em grandes lojas. Não é esse nosso intuito. Agora a gente sabe que em cada capital existe pelo menos uma loja especializada em música de qualidade. Aquela loja em que as pessoas gostam daquele tipo de música. É nessa rede que a gente vem fazendo a distribuição e com muitas vantagens. Não trabalhamos com consignação. A inadimplência das lojas é muito grande porque o País vive em crise. Eles ficam com muito material, não dão conta de pagar as pessoas em dia. Isso não acontece com a gente.

PM - Vocês têm venda pela internet?

LR - Temos. Foi o nosso início.

PM - E divulgação? Vocês vão atrás de rádio, por exemplo?

LR - As rádios vêm atrás da gente porque não temos uma estrutura grande que permita ter uma pessoa de plantão. Temos muito prestígio dentro da mídia. Não posso me queixar de maneira nenhuma.

PM - Qual é a vantagem em ser artista na hora de montar um selo?

LR - É ter total domínio do assunto, da matéria-prima do assunto, que é a música, e de ser também a matéria-prima do seu produto. Talvez se nós não fôssemos os próprios músicos dos produtos, não teríamos como pagar as pessoas. E temos uma lista enorme de coisas que a gente planeja fazer e que, aos poucos, está começando. Eu tenho proposta para fazer disco solo desde os 18 anos. Fui fazer o meu primeiro disco aos 38 porque o mercado não se interessava no que eu queria fazer.

PM - E quais são seus próximos projetos como instrumentista e compositora?

LR - Eu quero fazer um disco mostrando as minhas músicas cantadas. Esse vem, provavelmente, em 2003. Tem um projeto interessante no Sesc voltado para o choro em abril e a gente também está fazendo. Além de um show no dia 25 de janeiro numa praia, aqui no Rio.

 

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