Altamiro Carrilho
"Esse ano que passou foi muito bom, um dos melhores de toda a minha trajetória artística, porque foi um ano de ressurgimento de um gênero que eu sempre toquei desde o início de minha carreira: o choro, que é, sem dúvida alguma, o gênero de música mais importante do Brasil. Nós temos quarenta e poucos ritmos diferentes, mas todos derivados do choro. Digamos assim que foi um ano da ressurreição do choro, que é o "vovô" de toda essa nossa música. Por eu ser um dos representantes mais antigos do gênero, e ter viajado por dezenas de países em várias épocas, tenho sido muito solicitado para fazer palestras, participar de workshops e shows em universidades. Tive a oportunidade de trabalhar com uma quantidade enorme de grupos diferentes, nas mais variadas formações. Toquei só com flauta e piano, toquei com orquestra de câmara, com orquestra de jazz, com sinfônica e com o regional, que é o meu forte. 2001 foi um ano fantástico, como 2000 também foi. Iniciou-se o movimento de uma juventude maravilhosa que estamos vendo aí, como o meu sobrinho, o Maurício Carrilho, que tem sido um verdadeiro guerreiro, faz uma pesquisa enorme e conseguiu montar seu selo, que só grava música instrumental e, de preferência, choro. Há outros jovens também que, como ele, estão seguindo por esse mesmo caminho, nos deixando mais felizes. Caso morramos amanhã, já temos seguidores. Devemos festejar bastante porque já existem grupos de choro no exterior, em vários países da Europa, Ásia, África, Oriente Médio, Estados Unidos, Rússia. Você vê que até do outro lado do mundo a coisa já está acontecendo. É claro que para isso já vem sendo feito um trabalho de base. Inclusive nesses anos todos em que eu viajei tenho levado partituras de choro, discos, vou às rádios e peço, mostro, como intérprete, sempre para facilitar. Sei que essa semente já foi plantada não só por mim, mas por muitos, desde Carmem Miranda. A coisa já vem de longe e devemos continuar fazendo isso. É interessante que quando um autor consegue fazer sucesso fora do Brasil, aqui ele acaba fazendo mais sucesso ainda, haja visto a situação de Tom Jobim. Hoje a bossa nova é conhecida no mundo inteiro, mas ela só explodiu depois que o Tom foi para os Estados Unidos. Para 2002 já estamos negociando com o patrocinador de São Paulo e as coisas têm se apresentado de uma forma clara, muito boa. Vou ter bastante trabalho. Nem sei se estarei vivo (risos), mas se estiver será um bom ano. Tenho um disco que saiu há poucos meses, mas eu já estou providenciando o próximo porque em 57 anos de carreira nunca fiquei um ano sem gravar. E isso não é por vaidade. É porque eu acho que o artista não deve nunca descuidar do seu trabalho, de seu disco."