Quando o Brasil resolveu cantar

Por Evanize Sydow

   "Áfrico" é o nome de um dos mais primorosos CDs lançados nos últimos tempos. Quem responde pelo trabalho é Sérgio Santos, cantor e compositor mineiro da melhor qualidade, que vem sendo gravado por muita gente boa, como Milton Nascimento, Leila Pinheiro, Fátima Guedes, Joyce e Olivia Hime. As letras são de Paulo Cesar Pinheiro, o que já torna o disco especial. Utilizando apenas as referências africanas que todo brasileiro tem, Sérgio Santos extrapolou seu talento como artista e desbravou a África em música. Ele mesmo diz que não sabe onde estava guardado tal tesouro. Para a felicidade geral de quem aprecia um trabalho de bom gosto, no entanto, essas pérolas vieram à tona. "Áfrico", produzido por Rodolfo Stroeter, chega às boas prateleiras pelo selo Biscoito Fino. A seguir você lê entrevista com Sérgio Santos e conhece mais sobre a carreira do compositor, além da história do CD.

 

Página da Música - Queria saber um pouco sobre a idéia deste CD que você está lançando. Como surgiu esse disco e o tema da influência do negro na música brasileira?

Sérgio Santos -  Isso não foi alguma coisa que eu tivesse pensado: "vou formatar esse trabalho assim, com essa coisa voltada para África e para o negro". Foi uma consequência do fato de eu achar que precisava elaborar mais a questão rítmica dentro das minhas composições. A minha idéia era essa. Acho que a gente que é daqui de Minas já tem essa questão harmônica muito bem estruturada porque é uma das coisas que distinguem a música de Minas, a maneira como a gente harmoniza. Além disso, me preocupo muito com a melodia. Meu maior barato com a composição é esse, ficar procurando um caminho para a melodia. Só que a música são três elementos: harmonia, melodia e ritmo. E eu, conscientemente, vi que precisava trabalhar um pouco mais esse elemento rítmico nas minhas composições. Não pensava em fazer um trabalho voltado para isso. Precisava compor com essa preocupação. Fiz uma determinada música que está no CD chamada Nossa cor, a primeira de toda essa série do disco. Aliás, fiz música e letra. É a única música mesmo do disco que tem letra e música minhas. Compus essa música e vi que tinha a preocupação do elemento rítmico. Vi que ali tinha um caminho a ser seguido. O arpejo no violão me ditava esse caminho rítmico. Era uma maneira de tocar violão que me induzia o ritmo. Então, eu descobri que isso poderia ser um caminho. E fui fazendo outras músicas com essa característica do violão arpejado. Quando eu já tinha alguma coisa do trabalho pronto, mostrei para algumas pessoas umas 5 ou 6 músicas, sem letra ainda, e várias delas me disseram: essas músicas têm uma característica africana, um negócio bastante negro. Eu fui ver que realmente era. Mas não por eu ter procurado que fosse. Na verdade, a minha procura era pelo ritmo. O problema é que a gente que é brasileiro, se começamos buscar profundamente essa questão rítmica, querer colocar isso com mais profundidade, a correr atrás disso, fatalmente chegaremos nos negros e na África.

   Eu ainda não tinha essas idéias na cabeça. Peguei essas músicas que eu tinha composto, mandei para o Paulo Cesar (Pinheiro) com essa observação, que eram todas músicas muito rítmicas e eram coisas que tinham esse elemento negro de cabo a rabo.

   Quando ele letrou e me mandou as letras prontas, eu fui ver que isso poderia ser uma série como, por exemplo, são os afro-sambas, que são músicas que você não pode nem tirar nem pôr. É uma série contando uma determinada história. Foi aí que eu percebi que isso poderia se tornar um trabalho fechado. De certa forma, foi esse tema que veio até mim e não eu que fui até ele. Fui atrás do ritmo e fui sair onde...

PM - Num disco que é primoroso. E o trabalho do Paulo Cesar Pinheiro com as letras também é fantástico.

SS - Fantástico. Eu acho até que a maior contribuição para se chegar nesse objetivo, com essa idéia que o disco ficou, isso é muito mais pela interferência do Paulinho do que por mim. Foi da maneira como ele começou a escrever as letras que eu tive o estalo: "isso pode se transformar num trabalho temático, único". De maneira que eu não tiraria uma música desse disco para gravar em algum outro porque eu acho que elas fazem sentido nesse conjunto em que estão.

PM - Em relação aos outros dois discos anteriores seus, esse tem alguma ligação? Como você vê esse CD em relação aos outros?

SS - É engraçado porque já me entrevistaram diversas vezes sobre esse disco e esta é a primeira vez que alguém me faz essa pergunta. E é interessante porque eu estava vendo outro dia os dois discos e eles já tinham um namoro com esse tema. Até mesmo a própria coisa que originou o "Áfrico", que é isso do arpejo do violão. Isso já estava presente tanto no "Aboio" quando no "Mulato". No "Mulato" tem uma música, que é a última do disco, chamada Dança de São Gonçalo. É a última música do "Mulato" e já era um prenúncio desse próximo. E também no "Aboio" a última música, chamada Coroação do Rei Nagô, também tem essa característica, inclusive pela temática da letra. De uma certa maneira, nos meus dois outros discos eu já namorava bem essa temática e ela foi se cristalizar agora. O motivo disso acho que é porque a música brasileira é completamente indissociável dessa influência africana e negra. As duas coisas hoje são absolutamente associadas. Não há como separar a cultura brasileira da africana.

PM - O disco tem quatro vinhetas?

SS - São quatro vinhetas, que são como se eu estivesse desmembrado a música em quatro pedacinhos. Isso é como se fosse a interferência de uma espécie de narrador que chamasse as pessoas a olharem o que vem pela frente. Elas, mais ou menos, separam, até de uma forma cronológica, as partes do disco. Eu canto uma vinheta e chamo as pessoas para olharem o início. Essa primeira parte é um pouco da chegada dos negros. A primeira música fala do Chico Rei, que já são os escravos vindo da África e chegando ao Brasil. A própria cultura deles ainda escravos aqui, a coisa do sincretismo, os orixás, tem uma música que se chama Oluô, que ainda é o feiticeiro da tribo deles na África. É o início dessa história. Depois dessa parte, tem uma vinheta que chama para ouvir a parte seguinte. Aí já é um pouco da escravidão mesmo. A parte seguinte já é o negro se libertando um pouco disso, já entra o quilombo. A última parte é a cultura do negro com a brasileira, já com uma coisa indissociável. É o negro brasileiro, não é mais o negro africano.

PM - No texto do encarte do CD, o Francis Hime comenta que ele sempre te pergunta: "de onde vêm essas idéias?" De onde elas vêm?

SS - (Risos). É tão difícil dizer isso porque todo mundo tem essa curiosidade de saber de onde vêm. Se alguém um dia descobrir, eu também gostaria de saber, mas eu não tenho a menor idéia de como isso surge. Eu tomei um susto muito grande na hora em que eu tive esse disco na mão. Porque aquilo ali já não são só as músicas soltas por aí afora que estou tocando e ouvindo. Aquilo é a materialização de um trabalho. E eu comecei a pensar: essas composições são tão recentes e, de uma hora para outra, isso vira uma coisa palpável que não existia há seis meses.

PM - Quer dizer, onde estava guardado tudo isso...

SS - Exatamente. De onde sai essa história? Eu não sei dizer. A única coisa que eu sei é que isso, pra mim, é um grande mistério e o meu vínculo com esse mistério é o violão. Essas coisas saem do violão. Sem estar com ele na mão, eu sou incapaz de criar alguma coisa que possa chamar de música. É como se isso fosse um elo de ligação entre alguma coisa que eu não sei exatamente o que é e a minha vontade de estar criando.

PM - Queria saber como você chegou aos músicos participantes no CD, como o André Mehmari, que é tão jovem e tem feito coisas tão interessantes.

SS - Para mim já foi difícil fazer esse trabalho. Até propus para a gravadora um outro e eles aceitaram. Depois que eles já tinham aceito, eu fui ver que não estava feliz e era porque não era aquele trabalho que eu queria fazer. Queria fazer o "Áfrico". Aí conversei de novo e a gente resolveu fazer o "Áfrico". A primeira preocupação depois disso – aliás, acho que foi muito por causa disso que eu relutei em fazer esse trabalho – é que essa história já foi muito contada. Eu não poderia correr o risco de contar mais uma vez uma história que já foi contada. Tinha que tentar dizer isso de uma forma que fosse o máximo possível minha e tentar buscar uma sonoridade para isso que ainda não tivesse sido usada. Não existe uma forma de tocar essas músicas. Por exemplo, se fosse um disco de samba, seria mais fácil: "é um samba; toquem". Essas músicas, não. Elas não existiam. Era uma sonoridade que não estava construída. Eu precisava construir essas músicas. Eu e o Rodolfo Stroeter fomos discutindo muito isso até a gente chegar numa espécie de esboço da sonoridade que esse trabalho deveria ter. Através disso, a gente foi chegando aos músicos que a gente queria que tocassem no trabalho. Fizemos uma pré-produção. Fomos para São Paulo, eu, o Tutty Moreno, o André, o Teco e o Rodolfo. A gente ficou fechado no estúdio por uma semana. Fomos descobrindo como tocar essas músicas. Por exemplo, o André, já que você tocou no caso dele, pra mim é um dos pianistas que têm mais esse elemento técnico desenvolvido. O André não tem limitação. Ele toca aquilo que ele pensa. Não tem limitação técnica. Como o meu violão é muito arpejado, a escolha do André para esse trabalho foi muito acertada porque ele conseguiu fazer esse mesmo tipo de arpejo que eu faço com o violão. Ele passou aquilo para o piano e ficou um diálogo entre o piano e o violão o tempo todo. Para mim, esse é um dos pontos mais importantes do disco. Tem a participação do Uakti, que é um grupo praticamente futurista. Os instrumentos que tocam são eles próprios que fabricam. Então, é mais um reflexo dessa busca por uma sonoridade que não fosse comum, apesar de o disco ter a sonoridade comum, as percussões do (Marcos) Suzano e do Robetinho (Silva), que são maravilhosos. Tem a bateria do Tutty Moreno. Mas as músicas foram compostas de uma forma mais moderna e vai até a coisa do Uakti, que é futurista.

PM - Como começou a sua parceria com o Paulo Cesar Pinheiro, que já rendeu 180 músicas?

SS - Quem me apresentou ao Paulinho foi o Moacyr Luz. Eu tinha mostrado ao Moacyr um monte de músicas minhas sem letra e ele achou que elas tinham um pouco da cara do Paulinho. Foi ele quem fez esse favor de me apresentar ao Paulo Cesar Pinheiro. A gente ficou meio como na paquera. Eu fui à casa dele, mostrei várias músicas, mas não tive muita coragem de pedir a ele para letrar nada. Ele também não tocou no assunto e eu fui embora, completamente frustrado para casa. Por coincidência, no dia seguinte, a gente se encontrou numa reunião de compositores e outra vez eu peguei o violão e toquei algumas coisas também. Cheguei para ele e falei: "vamos parar com essa frescura; você topa fazer leras para músicas minhas?" Ele falou: "claro". Eu mandei para ele uma fita com umas seis músicas pedindo desculpa por serem tantas, mas que ele podia escolher uma para fazer. Ele me mandou essas letras logo depois e, a partir daí, a gente não parou mais. O Paulo Cesar para mim sempre foi uma referência muito grande em termos de poética musical. Sempre ouvi as músicas dele com o Dori, Edu e a maneira como ele escreve sempre foi um referencial muito forte. A gente se identificou muito rapidamente. A parceria também cresceu muito rápido porque tanto ele me manda as letras e eu faço músicas para as letras quanto eu mando para ele as músicas e ele faz letra para as músicas. A gente trabalha em ritmo dobrado.

PM - Você participou do espetáculo "Missa dos Quilombos", do Milton Nascimento e Dom Pedro Casaldáliga. Você acha que esse trabalho tem a ver com o "Áfrico"?

SS - Acho. Acho que tem uma relação, como tem também com os afro-sambas do Baden (Powell) e do Vinicius (de Moraes), embora as coisas tenham características distintas. No caso dos afro-sambas, por exemplo, que muita gente faz essa relação, é um dos trabalhos mais bonitos que existem na música brasileira. Jamais vou querer comparar isso que a gente fez a esse trabalho do Baden e do Vinicius porque, pra mim, isso é antológico, uma coisa que já ficou definitivamente na história da música no Brasil. Mas eu acho que tem uma diferença muito marcante entre as duas coisas, que é a maneira como o Baden funciona em relação ao Vinicius e a maneira como eu funcionei  em relação ao Paulinho. Porque o Baden pesquisou muito para fazer essas músicas. Ele foi para Salvador, estava nas rodas de capoeira, vivenciou isso. E algumas letras do Vinicius não aprofundam essa questão da coisa negra mesmo. Existem músicas de amor. São coisas que não têm a referência completamente voltada para essa temática negra. No nosso caso, as letras são profundamente arraigadas nessa coisa negra. O Paulinho foi até o máximo da raiz. Por outro lado, eu não pesquisei nada. Nunca pus o pé num candomblé... Não tenho vínculo com essa cultura e nem procurei um vínculo maior com ela. O que eu fiz foi uma leitura dessa realidade com as referências que eu tenho, como qualquer brasileiro tem. Passei a minha infância no interior de Minas e sempre ouvi congado, folia de reis, essas influências nordestinas. Meu pai é nordestino, então, maracatu, essas coisas, sempre fizeram parte da minha infância. É o que eu tenho dentro e que reli. Não aprofundei uma pesquisa sobre isso. E a "Missa dos Quilombos" já é uma visão completamente religiosa. Conta essa história sob o prisma da religião. As letras todas foram escritas por Dom Pedro Casaldáliga.

PM - Bonito demais aquilo, não é?

SS - Nossa! É lindo. E eles (Dom Pedro Casaldáliga e Milton Nascimento) têm um outro trabalho que, parece, se eu não me engano, não foi apresentado. É um negócio sobre os índios. É uma missa também e que, ao invés de contar a história dos negros, conta a dos índios. Deve ser uma coisa maravilhosa.

 

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