M sica por Natureza

Por Evanize Sydow

    Ele nasceu Sergio Varela. Foi batizado de Natureza nem bem sabe como. Conta que foi em uma poca de sua vida, quando voltava de um ex lio volunt rio na Europa o per odo era o dos terr veis anos de chumbo , em que resolveu recolher-se no interior do Brasil e todos achavam que o rapaz mag rrimo e de longa cabeleira n o sairia mais da ro a. "O grande neg cio mesmo est na natureza", dizia ele aos amigos. N o demorou muito para trocarem seu nome para Sergio Natureza. Nesta entrevista para a P gina da M sica, o compositor fala de sua hist ria, da parceria com Tunai, com quem comp s dezenas de m sicas, Paulinho da Viola, S rgio Sampaio, a quem dedicou o tributo "Balaio do Sampaio", e dos recentes trabalhos com nomes como Zeca Baleiro e Lenine. Gravado por uma longa lista de grandes int rpretes brasileiros, S rgio tem entre seus maiores sucessos a can o As apar ncias enganam, composta com Tunai e eternizada por Elis Regina no disco "Essa Mulher". De l para c , mulheres maravilhosas t m cantado suas m sicas. Entre estas est o Simone Guimar es, Rosa Passos, Simone, Nana Caymmi, Zizi Possi, Leila Pinheiro, Faf de Bel m, Jane Duboc, V nia Bastos e Gal Costa. Acompanhe este passeio pela hist ria de um dos principais letristas da m sica brasileira. 

 

P gina da M sica - Como est o projeto de seu songbook?

S rgio Natureza - Este um projeto t o antigo que, s vezes, tenho at vergonha de falar. Porque tem quase dez anos. Fui me empenhando em outras coisas e fui deixando. S o releituras de m sicas minhas com Tunai, Paulinho da Viola, Lenine, tem Simone Guimar es... O Zeca Baleiro gravou uma m sica minha in dita com S rgio Sampaio. O Luiz Melodia regravou Vela no Breu, minha e do Paulinho da Viola. E tem outras pessoas conhecidas querendo fazer, mas eu n o queria fazer uma coisa s   assim... leituras de figur es... Acho que a fun o mostrar que a minha m sica pode ser relida por pessoas mais novas, nova est tica, novas tend ncias viva a renova o! Por exemplo, a minha m sica Frisson com o Tunai, que muito tocada: tem uma mo a, Luanda Cozetti, de quem eu fui ver o show ela participou do projeto Novo Canto, que eu dirigi nos ltimos dois anos e foi b rbaro. Essa mo a me chamou para ver o show dela e disse: "Talvez voc n o reconhe a a m sica, mas a minha leitura." Eu achei b rbaro porque, depois do pr prio Tunai gravar, Ivete Sangalo, Elba Ramalho e at grupo de pagode ("BBC") que mais tocou em r dio , pelo Roupa Nova, 17 anos depois, ela (Luanda Cozetti) vem com uma releitura totalmente diferente. Isso me interessa muito. Fiz uma coisa que pode ser relida de uma maneira totalmente diferente. Ent o, o sentido que eu penso de fazer songbook de trazer n o como paternalista, mas mostrar que essas pessoas podem atualizar e reler. Na verdade, eu n o me sinto nada ultrapassado, muito pelo contr rio. Felizmente. No disco "Bebadosamba", do Paulinho da Viola, de 1997, tem uma m sica minha com ele, de nome Mar grande, e, ao mesmo tempo, estava sendo lan ado o disco de O Rappa ("Rappa Mundi") e tinha uma m sica minha com Lenine que fechava o disco, chamada ia o rapa. Isso n o feito oportunisticamente. um fato. Dentro de mim tenho v rias leituras, gosto muito das coisas que ou o em casa, s o tend ncias novas, sem deixar de lado o melhor da tradi o genu na da MPB, do jazz, dos musicais, da m sica cl ssica, da m sica tnica e por que n o? do pop, do rock, tudo o que me emocione, me acrescente, me informe, sem uma postura elitista, purista, aberto a todos os estilos, se bem feitos. "Rap", que quer dizer "rythm and poetry" (ritmo e poesia), n o poderia deixar de me interessar. J quanto aos subprodutos que nos s o sistematicamente empurrados ouvido adentro... a , muda a conversa e eu tamb m mudo de esta o. Em qualquer estilo existe o bom e o lixo e a coleta seletiva... o que o que, depende de cada um. Claro que eu tenho o meu sotaque, que caracter stico de coisas l ricas mesmo. Mas n o sou uma pessoa fechada. Ent o, no meu songbook quero as pessoas que eu curto dentre elas Pedro Lu s e A Parede, Fred Martins, Ar cia Mess, Suely Mesquita, "Bangalafumenga", Antonio Saraiva, Mathilda Kovak, Luis Capucho, Rodrigo Campello, Marcos Sacramento, Carlos Fuchs e Rita Peixoto... curto muito o lance deles... Jos Miguel Wisnik, Lu s Tatit, Dante Ozzetti, Suzana Salles, Vange Milliet/Paulo Lepetit, Itamar Assump o, Eduardo Gudin, Fil e Z Luiz Mazziotti... nova sonoridade, novos signos... can es de artistas que se renovam. Tem um samba meu e do Paulinho da Viola que o Moska adorou e quer cantar. A Leny Andrade j gravou uma can o para o meu disco. Acho super legal que tenha pessoas reconhecidas no meu CD, mas quero tamb m a renova o t o necess ria na nossa m sica; isto natural; os tempos passam, as coisas mudam, vamos abrir espa o para o novo, sem esquecer o eterno, as obras-primas que nos foram legadas, acabar de vez com a monocultura musical que nos imposta h anos, como se n o tiv ssemos uma m sica t o rica e v ria, como se n o houvesse espa o para todos na m dia, sem estarmos subjugados ao dom nio cruel do mercado e sua insaci vel fome de lucro. Me sinto integrado com diferentes tribos e vontade para transitar na rea do samba, muito embora eu n o seja especificamente um sambista. Mas eu componho com Paulinho da Viola. Fui criado em Vila Isabel, num lugar de samba. E, ao mesmo tempo, posso transitar numa rea mais pop. No pr ximo disco do Lenine eu tenho duas parcerias com ele. E no ltimo disco dele, "Na Press o", a faixa-t tulo minha com Lenine e Br ulio Tavares. Enfim, eu quero que as pessoas ou am as coisas que foram feitas n o como s uma releitura, mas realmente que tenham uma outra angula o, relida de uma maneira diferente. O que norteia esse trabalho uma rela o de amizade e identidade. uma coisa de afeto, de pessoas com quem me afino, que realmente gostem do meu trabalho, que tenham uma sintonia de vida, cabe a e sensibilidade comigo. Pra mim s vale se for assim.

PM - Como voc come ou o seu trabalho de compositor?

SN - Estudei economia, mas n o me formei. Prestei vestibular para psicologia e n o cursei. Eu tinha uns 20 e poucos anos quando comecei. Na escola, sempre fui aquele menino que escrevia poeminhas. O que aconteceu com rela o m sica foi o seguinte: eu sempre acompanhei os festivais, vibrei com tantas revela es  e confirma es de talento, com Sinal fechado, de Paulinho da Viola, com Disparada, com TravessiaSaveiros, Boa palavra, Sabi ... tanta coisa boa, mas foi a est tica transgressora da "Tropic lia" que veio p r em cheque o momento pol tico dif cil, a castra o cens ria da ditadura, coincidindo com o fato de eu estar t o descontente com a faculdade - somando-se a isto um movimento libert rio em mbito mundial que aqui se achava estagnado, amorda ado, junto com a morte de minha m e, tudo me impeliu para trancar a matr cula e sair do Brasil, ainda que eu n o fosse um desses cones do ex lio. Mas estive militando no movimento estudantil etc. Inclusive, sa do Brasil como um ex lio volunt rio para n o ser preso como outras pessoas. Fui para a Fran a. Voltei ao Brasil, mas a situa o ainda estava um pouco nublada e, ent o, voltei, morando em Londres e depois passei um tempo em Nova York. Foi muito importante no sentido do rompimento interior. Eu n o me via mais no ambiente acad mico. Eu era um garoto criado em Vila Isabel e ia aos ensaios das Escolas de Samba Unidos de Vila Isabel e do Salgueiro (que tamb m ensaiava, na poca, num clube em Vila Isabel) e, s vezes, tamb m Mangueira que era relativamente perto e eu gostava. Vela no breu, parceria minha com Paulinho da Viola, fruto desta viv ncia, das subidas ao morro de Santo Ant nio, da sinuca ao lado da esta o de bondes no Boulevard 28 de setembro... Quando saio do Brasil e come o a ver e ouvir Rolling Stones (aqui s ouvia Beatles), Jimi Hendrix (que assisti bem de perto no Festival da Ilha de Wight, na Inglaterra), Janis Joplin, Frank Zappa, mudou muito a minha cabe a. Nessa poca, na segunda vez que eu fui, estava na Fran a, encontrei o Torquato Neto por acaso, n o o conhecia, e dali come ou a amizade. Voltando ao Brasil, ele me dizia que eu tinha que fazer m sica com Paulinho da Viola. Dizia "Voc tem o jeito do Paulinho da Viola". Eu comecei a achar que dava para a coisa. Depois, mais tarde, fui apresentado pelo Jo o Bosco ao Tunai e foi o meu parceiro mais constante, com quem eu fiz umas 300 m sicas, das quais mais de 100 foram gravadas.

PM - Com o Tunai voc continua fazendo muita coisa?

 SN - Muito pouco. Mas natural. N o houve nenhuma briga, nem rompimento. Podemos at voltar a compor juntos incidentalmente, por encomenda. Eu o considero um excelente compositor. Acontece que num certo momento passamos a n o ter os mesmos par metros, os mesmos padr es est ticos, a mesma vis o, o mesmo sotaque. A , como acontece muito em rela es duradouras (no caso art stica), resolvemos dar um tempo. A rela o pessoal continua, a musical deu t o certo... quem sabe a gente se reencontra mais adiante?

PM - Voc est compondo com o Guinga?

SN - Fiz uma can o. Realmente, um "namoro" antigo, mas valeu pela nossa nica (por enquanto) parceria, Nem mais um pio, que eu gosto muito e que est no mais recente CD dele, o "Cine Baronesa". 

PM - Quais as cantoras brasileiras que voc destaca?

SN - Elis, claro, para sempre Elis! Da nova safra de cantoras com CDs solo lan ados no mercado e ainda n o devidamente projetadas pela m dia poderia citar uns 50 nomes de boas cantoras/int rpretes, mas minha "comiss o de frente" formada por N Ozzetti, Monica Salmaso, Rosa Passos, Leila Maria, Jussara Silveira, Virginia Rosa, Ceumar e Simone Guimar es, n o necessariamente nesta ordem.  Outras cantoras n o t o enfocadas pela m dia s o a Amelia Rabello, que est lan ando um disco s de can es do irm o Raphael Rabello com parceiros, a Bete Calligaris, que lan ou h pouco o CD "Um tom do Z ", com releituras de composi es rom nticas de Tom Z , Andr a Pinheiro, paraense, que fez um disco s com m sicas de Waldemar Henriques, seu  conterr neo, Luanda Cozetti, Paula Santoro, Patr cia Mello, Andr a Dutra, Elisa Queir s, Taryn Szpilman, Isadora, vocalista do Liquidificalouca, Katia Rocha, M rcia Coradine, Regina Sposito, Muriel Tabb, Dayse Cordeiro, Miriam Maria, Luiza Miranda, Telma Tavares, Clarisse Grova, Nina Miranda, Nair de C ndia, Clara Becker, Renata Gebara, Ilka Lisieux, Di Mostacatto, achei b rbaro o CD de Flavia Virginia, diferente, umas letras super instigantes, Ithamara Koorax, com sua voz potente, vem arrebatando cada vez mais ades es de m sicos internacionais de peso ao seu trabalho; fico arrepiado com o canto visceral de Elza Soares, nico no mundo; Rebeca da Matta me agu a os sentidos interpretando Xique-xique/Parabelum - de Tom Z e Z Miguel Wisnik; que falta faz o canto majestoso, a presen a luminosa de Clara Nunes, amiga/guerreira, a mineira Patricia Ahmaral t mida, mas tem personalidade; canta can es que n o lhe exigem muito, mas quando solta a voz...!, me impressiona o carisma, a for a interpretativa, a pot ncia da voz de Ana Carolina, Ivete Sangalo tem uma voz privilegiada... pena que o repert rio n o lhe favore a mostr -la, Margareth Menezes poderosa cantando, gosto de seu timbre, sua energia, sua garra, outro dia ouvi Rita Ribeiro cantando uma can o "a capella", numa participa o em show de Alcione no Tom Brasil e fiquei chapado! O p blico tamb m delirou com a interpreta o dela. F tima Guedes me emociona muito sempre que canta (e tamb m comp e lindo!). uma de minhas favoritas. A do ura da voz de Ala de Costa um afago para os meus ouvidos. Cassia Eller, com seu timbre rascante/rasgado, um cantar nico, s dela, que bela int rprete! E tanta gente boa que eu posso ter esquecido, mas que est no meu cora o.   uma miss o imposs vel listar todos os talentos vocais femininos que temos, mas quem eventualmente n o tenha citado, me perdoe, por certo irei citar com destaque numa pr xima vez. E tamb m adoro Leny Andrade e Zez Gonzaga cantando.

PM - Quais os seus poetas preferidos?

SN - H in meros grandes poetas mundo afora, mas fico com os meus conterr neos, escalando assim a minha sele o brasileira de poesia: Manoel de Barros, M rio Quintana, Dante Milano, Augusto dos Anjos, Jo o Cabral de Mello Neto, Cec lia Meireles, Torquato Neto, Paulo Leminsky, Hilda Hilst, Ferreira Gullar e Salgado Maranh o (ali s, o Maranh o vem, h tempos, revelando poetas de alto n vel; da nov ssima gera o, Celso Borges e L cia Santos s o bons exemplos). Claro que n o me esqueci (como esquecer?) de Drummond, Bandeira, Vin cius, M rio de Andrade, Raul Bopp, Ad lia Prado, Cassiano Ricardo, Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida, Jorge de Lima, Joaquim Cardozo, do not vel poeta popular Patativa do Assar e tantos outros g nios, isto sem falar da gera o revelada dos anos 70 at hoje, que tem revelado novas tend ncias/belos poetas; com tudo isso, prefiro manter meu time titular escalado acima do qual, ali s, fazem parte dois poetas revelados nos anos 70 por coer ncia com minhas leituras mais constantes, que mais me sensibilizam, evitando tamb m algum lapso e injusti a com poetas meus contempor neos. Ademais, por quest o de tica, prefiro n o emitir qualquer julgamento comparativo quanto ao trabalho de meus pares (poetas/letristas), os admirando em suas diferen as e guardando, para mim, minhas prefer ncias. Os saudosos Cacaso e Paulo Em lio eram poeta os, grandes letristas. A Elisa Lucinda b rbara falando poemas e, al m de viver de poesia, grande difusora dela. O texto de Geraldinho Carneiro inteligente, ir nico, me agrada l -lo. O Chacal faz um trabalho bastante interessente, resiste no "CEP 20000", um agitador cultural, assim como Waly Salom o, bardo de afiada ret rica. O Br ulio Tavares tem muitas qualidades juntas, dentre elas a sagacidade, a inventividade, a perspic cia e a sagacidade. Olga Savary e Moacyr F liz s o dois poetas dos bons e incans veis batalhadores pela renova o, pelos novos poetas. Antonio C cero faz uma poesia de qualidade e sensibilidade indiscut veis... e mais uma vez estarei aqui cometendo alguns lapsos e injusti as, mas me penitencio e me absolvo. Tem o pessoal do sub rbio/Zona Oeste do Rio. O que me mais conhe o o grupo "Panela de press o", que agrega alguns reais talentos da poesia chamada "marginal" nos anos 70 o Euclides Amaral, al m de publicar seus bons textos, talvez o mais empolgante orador da cidade, ao lado do Mano Melo (do atuante grupo "Ver o verso"), e tem o Ivan Wrigg, cujo texto denso e l cido nos brinda com belos momentos po ticos... tem alguns bons poetas da escola mais intelectualizada, acad mica, que eu n o leio muito, mas respeito, sei deles por jornais, entrevistas, declara es. Ainda pouco, o Alexei Bueno deu uma declara o bem interessante sobre este meio de poetas "cabe a", abriu uma discuss o oportuna. O debate aberto pelo Alexei (poeta dos bons), al m de informar, mexe com um certo clubismo po tico, de um c rculo fechado de "iluminados", "donos da poesia". Isto saud vel! Eu, que n o tenho a menor pretens o de vestir "fard o" da Academia, fico bem vontade. N o quero ser "bestseller" e "nem literato de pr mio", como bem o diz o Capinam, grande poeta. Sou um mero mortal que gosta de brincar com as palavras, fazer bom uso delas, sensibilizar as pessoas. Uma das vertentes "atacadas" a dos concretistas, mas eu gosto do trabalho dos irm os Campos, tanto da oficina dos versos quanto nos estudos e tradu es/"transcria es". Mesmo sem "rezar" o "catecismo" da chamada vanguarda, acho que t m nos trazido uma ineg vel colabora o. Tamb m o trabalho de resgate que fez Augusto de Campos com os "proven ais" ("Verso reverso controverso") e Haroldo de Campos com Homero ("Il ada"), dentre tantos outros. Curto o trabalho de Arnaldo Antunes, disc pulo dileto dos irm os Campos, mas com personalidade. Gosto tamb m da poesia do jovem Francisco Bosco.

PM - Voc tamb m tem livros publicados, n o?

SN - Tenho um s . Um livro que eu fiz s para desafogar mesmo tanto texto que eu tinha e as pessoas cobrando muito. Eu fiz uma coisa com algumas letras de m sicas, algumas id ias. Foi bem recebido porque uma coisa leve, despretensiosa, mas tem alguns momentos muito fracos. Hoje teria que reler. Chama-se " O Surfista no Dil vio". Saiu pela editora Sette Letras. Agora, de surfista eu n o tenho nada. uma met fora sobre o processo criativo. uma id ia da solid o criativa. Embora eu s tenha um livro editado, fui publicado tamb m nas antologias "Ebuli o da Escrivatura" (Editora "Civiliza o Brasileira", assinando Sergio Varela), "Nova Antologia da Poesia Brasileira" (uma edi o da RioArte em conv nio com a Editora "Hipocampo"), em algumas antologias fora do Brasil e fui premiado, na categoria poesia, no Concurso "Stanislaw" (RioArte/1994).

PM - Queria que voc contasse um pouco sobre como foi a sua liga o com o S rgio Sampaio e a realiza o do tributo "Balaio do Sampaio".

SN - Fui amigo muito pr ximo do S rgio Sampaio. Eu compus e fui o nico parceiro que ele pr prio gravou. Ele teve outros parceiros, n o muitos. Eu acho que foi uma pessoa muito dif cil do ponto de vista pessoal, muito embora tenha sido muito meu amigo. Ele era uma pessoa que eu achava genial do ponto de vista da intelig ncia, mas que, de uma certa maneira, se boicotou muito, tinha bastante receio de encarar o mercado e, por isso mesmo, muitas vezes bateu de frente com as pessoas e gravadoras. Mas uma obra preciosa. um poeta popular, de peito aberto. Falava as coisas de uma maneira bem pessoal. uma pessoa atemporal. Conhe o v rias pessoas, muitos jovens, que cultuam aqui no Rio o S rgio Sampaio. A gente tem um plano, talvez para esse ano ou ano que vem, de fazer um disco que ele queria fazer e tinha composto. Ele ficou num grande ostracismo, em parte por responsabilidade pr pria, em parte por todas as circunst ncias do mercado, que sempre cobrou dele... Em fun o disso, um m s antes dele falecer, ele voltou da Bahia para o Rio e me mostrou algumas can es. Eu fiquei pasmo pela beleza po tica. Ele estava muito entusiasmado e ia fazer um disco que se chamaria "Cruel". Eu disse: "Mas 'Cruel', S rgio?" Ele falava, imitando o filho Jo o, na poca com 10/11 anos: "Fulano cruel". Tinha um duplo sentido. Depois da morte dele, eu levei essa m sica, chamada Cruel, para o Luiz Melodia, que acabou gravando. Mas eu fui pego de surpresa, s consegui v -lo no hospital, em estado terminal n o havia sabido antes de sua interna o, li no jornal, levei um susto e fui l ... lamentavelmente j n o dava para fazer mais nada. Foi uma coisa muito dura. E eu fiquei com aquela imagem de que era um momento em que ele poderia voltar... Num dia, passando pelo cemit rio S o Jo o Batista, onde ele foi enterrado, me lembrei do neg cio do Ba do Raul e imediatamente veio o trocadilho do balaio porque ele usava sempre um pequeno balaio de palha tiracolo, onde guardava letras e outros pertences. Fiquei com essa id ia na cabe a. Me encasquetei com esse neg cio, falei com a m e do filho dele e, para simplificar, isso me custou quatro anos de trabalho. Porque, no caso dele, eu acho que tinha que ter uma fidelidade s pessoas que ele gostava o Zeca (Baleiro) o conheceu num show, se corrresponderam, o Zeca publicou um depoimento do Sampaio num jornal/revista do Maranh o; o Chico (Cesar) nem chegou a conhec -lo, mas o cita como uma de suas refer ncias. Jo o Nogueira era amigo dele, Jo o Bosco era amigo, Luiz Melodia amic ssimo. Demandou um tempo enorme e eu tamb m n o tinha dinheiro para fazer. O pouco que havia sido cedido como apoio para come ar as grava es viera da Secretaria de Cultura da Prefeitura de Cachoeiro de Itapemirim, cidade natal do Sampaio, e da CESAN (Companhia Espiritosantensase de Saneamento) e, a bem da verdade, sem eles n o haveria nenhuma chance de realizar minha id ia. Fomos tocando o Projeto e, quando est vamos na s tima m sica, o dinheiro acabou; foi ent o que consegui fazer contato com o Marco Mazzola, da MZA Music, que se interessou, vestiu a camisa do Projeto, tomou a frente da produ o e, a partir da , conseguimos concluir o disco... Na verdade, n o era bem esse o disco que eu queria realizar. Eu teria outras can es. O pr prio Moska tem uma interpreta o maravilhosa de uma m sica in dita do Sampaio, que n o entrou no disco por circunst ncias alheias minha vontade. Muita gente que tinha gravado n o ficou por uma quest o de tempo da m sica, muito longa... Foi um trabalho bastante desgastante e, ao mesmo tempo, me deixou de alma lavada porque eu acho, realmente, que ele merece muito mais. Agora, com o lan amento do "Balaio do Sampaio", reeditaram os outros discos dele, s falta um chamado  "Sinceramente" (produ o independente) e espero que haja a possibilidade de se fazer (eu e o Zeca Baleiro queremos muito), com a voz do pr prio Sampaio, o disco de can es in ditas que ele estava se preparando para gravar e que havia registrado (fita "demo") em est dio. Eu n o gosto do termo injusti ado. Acho que ele fez muito por onde as pessoas rejeitarem. Mas o Brasil, todo mundo sabe, n o exatamente o Pa s onde se faz justi a s pessoas de talento. O que eu  fiz foi tentar recuperar em parte. E acho que foi pouco. Se eu puder, fa o mais. Fiquei muito feliz com o resultado, mesmo n o sendo exatamente... Mas isso sempre assim. Agora, as pessoas que fizeram, fizeram com o maior carinho.

PM - E como est a distribui o desse material?

SN - Pouco dispon vel. Como todas as coisas que hoje em dia n o s o vendedoras de milh es no Brasil. A distribui o n o muito boa, n o. J esteve um pouco melhor. N o vendeu muito. De qualquer maneira, ensejou que as pessoas se mobilizassem para relan ar os outros. Espero que a gente consiga fazer esse disco de in ditas. uma personalidade da MPB e deve ser levado com o respeito que ele merece.

PM - Quais s o os projetos que voc est desenvolvendo atualmente?

SN - O que eu mais fa o desenvolver projetos (risos). Primeiro, o pr prio "Novo Canto",  que vem se realizando no Rio desde 1997, foi feito ano passado em Salvador, j foi feito em S o Paulo algumas edi es, Belo Horizonte tamb m acenou com a possibilidade. A gente est querendo expandir para v rios lugares. Aqui no Rio, estamos querendo desdobrar e fazer um mix das pessoas que mais se destacaram e levar s Lonas. Hoje em dia, basicamente, quem segura o projeto o Sesc, o principal parceiro. Antigamente, havia patrocinadores, mas nesse ano passado foi feito s em quatro semanas e em uma unidade do Sesc por absoluta falta de patroc nio. Foi um ano terr vel. Agora eu tenho esse projeto do meu disco, de um novo livro e "n" outros projetos. Tem um projeto que a Fortuna faz em S o Paulo de m sica tnica e que tenho muita vontade de fazer aqui no Rio, a gente est montando tamb m. Projeto lindo. Gosto muito de ouvir esse pessoal de m sica tnica. Uma das m sicas que eu fiz para o disco do Lenine chama-se Encantamento. para um grupo russo que o Lenine me apresentou. Tem um nome americano: Farlanders. A letra foi a impress o que eu tive do grupo, das conversas com o Lenine, da coisa da m sica brasileira que tem muito no trabalho deles. O novo disco dele avassalador. Um neg cio. Exclua as minhas duas m sicas para n o julgar por elas (risos). Mas o disco do Lenine espetacular. Ele b rbaro. Outro disco que eu acho maravilhoso s um coment rio, n o tem parcerias nossas, mas de um xar e amigo (estamos h tempo para inaugurar esta parceria) o " frico", do S rgio Santos, com parcerias dele e do Paulo Cesar Pinheiro, grande letrista, poeta, amigo. Um disco lindo, uma beleza. Felizmente, a gente est com o cora o e o ouvido abertos para cantar as melhores coisas e fazer alguma coisa de bom. De vez em quando, a gente acerta. 

PM - E de onde vem o "Natureza" do seu nome?

SN - Teve uma poca em que eu era mag rrimo, macrobi tico ortodoxo. Eu era mais magro que o Gil. A gente sa a junto, s vezes ia se pesar e ele pesava 63 quilos e eu, 62 e meio. Hoje em dia, estou muito mais gordo. Quando eu voltei ao Brasil, estava meio de saco cheio das coisas, estava a fim de me isolar. Fui para o interior, no in cio dos anos 70. N o me recordo bem se foi isso, mas muita gente me perguntava: Voc n o vai voltar? vai ficar naquela ro a? E eu falava: N o, o grande neg cio mesmo est na natureza, a natureza... Deve ter sido isso. Come ou: "E a , Natureza?" Ficou. Hoje legal. Meu sobrenome Varela. Outra coisa engra ada foi na poca em que eu conheci a Elis, apresentada pelo Jo o Bosco num teatro aqui do Rio. O Jo o Bosco me apresentou e, quando ele falou "esse aqui o Sergio Natureza", a Elis deu uma gargalhada que eu fiquei com a cara no ch o. Eu era muito magro, cabelo comprido, fiquei vermelho, verde... Todo mundo olhando pra mim. Depois que ela parou de rir, segurou minha m o e falou "N o fica zangado comigo, mas eu conhe o voc de m sicas com Paulinho da Viola e imaginava voc completamente diferente, um neg o sambista do morro..."  J eu, o pr prio, acho que o nome remete mais a um personagem mais primaveril, tipo que tamb m n o fa o (risos).