Gilson Peranzzetta: O nunca assaz louvado

Por Evanize Sydow

    O título da matéria vem de uma frase de Tom Jobim. "Gilson Peranzzetta, grande músico, arranjador, maestro, compositor, pianista, improvisador", completou Tom. Ao seu comentário seguiram-se elogios de Quincy Jones, para quem Peranzzetta é um dos cinco melhores arranjadores do mundo, Roberto Menescal, Antonio Adolfo, Guinga, Maria Schneider e muitos outros mestres da música. Nascido em Brás de Pina, subúrbio do Rio, Gilson Peranzzetta tem 26 discos na bagagem e uma carreira brilhante no Brasil e exterior. Trabalhou durante muito tempo com Ivan Lins e suas músicas foram cantadas por nomes como Diane Reeves, Sara Vaughan, Nana Caymmi, Leila Pinheiro, Leny Andrade, Toots Thielemans e George Benson. Em abril, o músico segue para a Alemanha, onde rege a virtuosa Orquestra da Rádio de Colônia. Na entrevista que você lê abaixo, Gilson nos fala sobre sua gravadora Marari Discos, a carreira, a formação artística e os próximos projetos. Acompanhe.  

 

Página da Música - Qual é a história do selo Marari? Por que você resolveu montar a sua gravadora?

Gilson Peranzzetta - O tipo de música que eu toco não tem muito interesse comercial para as gravadoras. E o meu interesse era poder gravar as minhas composições e manter esse catálogo das minhas músicas todo gravado. Para conseguir isso numa gravadora multinacional era mais pesadelo do que sonho. Então, eu resolvi montar o selo. Como eu vivi na Espanha durante três anos, tem um ditado lá que diz "é preferível você ser cabeça de rato do que cauda de leão". Por menor que seja o negócio, ele tem que ser seu porque a cauda do leão é muito linda, mas ela só se move quando a cabeça manda. Isso tudo foi me servindo de exemplo. Nós presenteamos mais do que vendemos. Mas, na verdade, não existe o interesse de ganho, ao menos por enquanto, com o selo. O grande interesse é poder gravar as músicas.

PM - Você tem 25 discos gravados...

GP - Acho que já são 26.

PM - Desses 26, 4 sairam pela Marari. Como foi o processo com as gravadoras nos 22 anteriores com essas dificuldades?

GP - Nesses outros discos tinha muita coisa patrocinada. Muito disco de patrocínio, disco-brinde. Tem um disco, por exemplo, que eu gravei com a Leny (Andrade) com a obra do Cartola e era um brinde da Coca Cola. Depois, a (gravadora) Velas incorporou ao catálogo. Antes, fiz um disco com a obra de Claudio Santoro – "Gilson Peranzzetta Interpreta Claudio Santoro". Eram prelúdios e canções de amor do Claudio Santoro. Os prelúdios eram instrumentais e as canções de amor com letra do Vinicius. Também era um disco patrocinado. Por isso, foi sendo possível gravar os trabalhos assim. Eu tenho um disco de quatro anos atrás gravado pelo Almir Chediak, um disco de trio. Mas o Almir é um cara que investe nessa coisa da música instrumental.

    Eu não falo que essa dificuldade é uma coisa terrível. Acho até muito legal porque só assim a gente vai valorizando a música e o nosso trabalho. Não é coisa do reclamão. É um trabalho, realmente, de guerrilha. Onde você puder levar a sua música, tem que ir. A música brasileira é a música mais linda mesmo. Dá pra contar nos dedos de uma mão as pessoas que a gente conhece que trabalham com o que gostam. Eu trabalho com o que eu gosto e, como dizia o Tom (Jobim), ainda tenho um dinheirinho... (risos).

PM - Aliás, ele elogiava muito o seu trabalho.

GP - Ele era um cara muito legal. Um grande músico. Um exemplo para todo mundo. Grande compositor, grande figura. Uma pessoa maravilhosa.

    E o negócio da gravadora é isso. Eu comecei a pensar: caramba, eu sou chamado para fazer arranjo para todo mundo, em tudo o que é gravadora, e nunca me chamavam para gravar. Comecei a prestar atenção nessas coisas. Estamos no quarto disco e já tem um outro sendo preparado.

PM - Qual é o próximo?

GP - Um disco de valsas.

PM - Há quanto tempo vocês estão com a gravadora?

GP - De 99 pra cá.

PM - Além desse disco de valsas, você pode adiantar os outros lançamentos?

GR - Tem um prensado, de baladas, que se chama "Cristal". Está pronto para ir para a fábrica. Tem o "Sorrir", que é um disco com um octeto de cellos, o Rio Cello Ensemble. Tem composições minhas e de outros compositores, como Ary Barroso, Milton e Dorival Caymmi. Tem um trabalho que eu fiz em homenagem ao Oscar Peterson e foi gravado também, mas ainda não mixei.

PM - O de valsas é com repertório todo seu?

GR - Em princípio, sim. Tem duas valsas que estou pensando em colocar, que é o Branca, do Zequinha (de Abreu), e o Tristorosa, do Villa-Lobos, que não é muito conhecida.

PM - E vocês pensam em gravar coisas que não sejam suas.

GP - Penso. Por exemplo, os músicos que gravam comigo são maravilhosos. Tem o João Cortês, baterista e percussionista, Mauro Senise, que toca saxofone e flauta... Tenho vontade de poder abrir um leque. Por enquanto, não dá. Mas eu acho que não vai demorar muito.

PM - E sempre música instrumental?

GP - Por enquanto, estamos pensando assim. Mas nada impede que a gente realmente goste de um cantor ou cantora e faça alguma coisa... Isso também é interessante. Não ficar fechado. No dia 20 de abril eu estou indo para a Alemanha para fazer concerto com a Orquestra da Rádio de Colônia. É uma big band. Convidei a Joyce para ir. O Tutti, baterista e marido dela, também vai nessa viagem. Penso nisso. Numa coisa que a gente goste e tenha valor. Acho que o cantor pode seu um grande solista.

PM - Na Alemanha você vai reger também?

GP - Vou. Vão ser 3 ou 4 concertos e a gravação de um disco também. A forma como aconteceu o convite foi muito engraçada: o telefone tocou, eu atendi, era uma pessoa falando espanhol dizendo que era meu fã, que era diretor da Rádio de Colônia e se eu não queria me apresentar lá. Achei que era brincadeira. Ele dizia: "Eu sou seu fã. Você não quer ir reger a big band porque nós já tocamos com o Quincy (Jones)..." Eu achei que era brincadeira de algum amigo, aí comecei a fazer palhaçada também. Mas saquei que o cara estava sério. E era mesmo verdade. Aí ele pediu meu e-mail e mandou tudo direitinho. Ele achou a gente pela internet.

PM - Bacana, porque Colônia é um centro importante de música.

GP - Muito. E eu já tive notícia de que a orquestra é maravilhosa. Vai ser muito legal. Estou fazendo os arranjos. Tenho que entregar tudo em março.

PM - E como é a receptividade do seu trabalho no exterior?

GP - Eu vou mais para a Europa e o Japão, onde eu gravei com o Sebastião Tapajós para a JVC. É maravilhoso. No Japão, então, é incrível. O que você procura de música brasileira, você encontra. Coisas que não vemos aqui em sebo, em lugar nenhum. Eles gostam realmente. Eu vi uma escola de samba em Tóquio que você fecha o olho e parece que está aqui. E o respeito e carinho que eles têm com a música brasileira...

PM - Que às vezes o brasileiro não tem...

GP - ... Não tem. Acho que o brasileiro poderia se espelhar nessa coisa da memória. Mas isso tende a melhorar porque as pessoas vão observando as outras e vão aprendendo as coisas boas.

PM - Como é feita a distribuição na Marari?

GP - E-mail e show. Nós não temos distribuidora. Não contratamos firma nenhuma para distribuir.

PM - Qual é a maior dificuldade nessa empreitada de abrir um selo?

GP - É de manutenção. É de você, por exemplo, se for gravar com muitas pessoas e contratar músicos, ter um gasto muito grande. A gente tem que fazer com formações pequenas, de duos, trios ou quartetos, no máximo. Normalmente, você trabalha com o percentual de venda. Pega o músico e, ao invés de pagar um cachê como se ele fosse músico acompanhante, você faz um contrato dele como artista no disco e ele recebendo percentual de venda. Isso é o que facilita poder fazer o disco. A não ser que você tenha um patrocínio. Mas normalmente os selos trabalham com essa coisa do percentual. Não tem como fugir disso.

PM - De onde veio o nome Marari?

GP - Marari é o nome da rua onde eu nasci, em Brás de Pina. É subúrbio aqui do Rio. Tenho até uma música com o Ivan Lins chamada Brás de Pina. Quando eu fiz o selo com a Eliana (Fonseca, esposa e produtora de Gilson Peranzzetta), falei para ela: "Queria colocar nesse primeiro disco que vamos lançar e no selo o nome Marari". E o disco ficou "Rua Marari". A Eliana falou: "Isso é uma maluquice. O disco que você fez é para os dois brasileiros que escalaram o Everest, um negócio filmado lá no Nepal. Marari é nome de uma rua lá no subúrbio do Rio..." Aí começamos a procurar. Eu pedi para o Billy Blanco, que é do Pará, muito amigo meu, procurar saber o que era Marari porque no subúrbio os nomes das ruas são todos meio indígenas. Ele se informou e disse que não era indígena, não tinha encontrado em lugar nenhum. Mas a Eliana entrou na internet e descobriu que Marari é o dialeto falado no Nepal, onde foi feito o filme. Eu disse: tinha que ser Marari mesmo.

PM - Como foi a sua formação musical?

GP - Estudei aqui no Brasil. Depois, fui para a Espanha, onde fiquei três anos. Estudei e trabalhei lá. Na verdade, o músico que está vindo para a chamada música popular tem que, além do estudo normal, ir para a noite, tocar em baile, se envolver com os outros músicos. Porque, senão, fica enclausurado. Por mais que você estude, tem que estar embaixo da mangueira, quer dizer, ir para a luta. Tem que ter esse jogo de cintura. Senão, a cintura fica dura.

PM - Mas você trabalha com música clássica também.

GP - Trabalho. Até gravei num disco um prelúdio de Bach, Beethoven, Scriabin, mas é mais porque gosto mesmo.

PM - O Quincy Jones declarou que você é um dos cinco maiores arranjadores do mundo.

GP - Ele é meu amigo. Quando eu fui para os Estados Unidos pela primeira vez, foi quando eu conheci o Quincy porque, nessa época, eu trabalhava com o Ivan Lins e nós estávamos dando essa chegada nos Estados Unidos para mostrar música e ver como era o mercado. Ele me chamou e falou que gostava muito de ouvir meu trabalho de arranjador, que eu embelezava, tanto é que ele gravou o Começar de novo nos Estados Unidos com o meu arranjo. Eu não sabia. Só fui ver quando cheguei lá uma época para gravar um disco com a Sara Vaughan, piano e voz. Mas ela estava no Japão, ele ia viajar com a orquestra dele também e eu não estava a fim de ficar. Vim embora para o Brasil e perdi uma grande oportunidade de ter feito um disco com essas mulher maravilhosa. Sempre que pode, ele fala no meu nome. Ficou uma coisa bem legal de respeito e amizade.

PM - Você é mais arranjador ou compositor?

GP - Sei lá. Agora, por exemplo, estou escrevendo os arranjos para a Alemanha. Me sinto um pianista frustrado porque quero tocar e não posso porque tenho que escrever. Quando estou estudando piano, às vezes quero escrever e não posso porque estou preparando coisas para tocar. É uma coisa terrível. É um mundo do duplo sentido. E a música faz você conviver com suas limitações. Porque, dificilmente, uma pessoa consegue fazer tudo perfeito. Por exemplo, o cara quer ser um grande pianista, solista. Dificilmente, ele será um grande regente, arranjador ou compositor. Se ele quer ser um grande compositor, a outra coisa já vai dançando. Não é que desapareça, mas fica menor. O que eu acho que faço e não me sinto muito à vontade é reger. Mas tenho o respeito dos músicos porque eles sabem que eu sento à estante e toco com o mesmo carinho e respeito que eles tocam as minhas coisas. Então, quando eles gravam comigo, a gente sempre tem um ambiente legal. Porque eles sabem que eu os respeito. Na verdade, isso tudo aqui no papel não é nada. Isso só é música na hora em que um outro músico começa a tocar. Tem que haver esse respeito. Eu até brinco com os músicos, dizendo "estude, senão você vira maestro".

PM - Você tem planos para concertos no Brasil?

GP - Tenho coisas marcadas. Quero aproveitar esse material que eu vou fazer na Alemanha para fazer no Brasil também. E isso tem mais possibilidade em São Paulo do que no Rio porque São Paulo tem orquestras maravilhosas. Por exemplo, a orquestra do (Roberto) Sion, que eu acho que daria o maior pé. Fiz com a Jazz Sinfônica também uma vez e fiquei maravilhado. 

 

Para contatos com a Marari Discos e Gilson Peranzzetta: elianafonseca@terra.com.br ou Tel (21) 2259-4499 e Fax (21) 2249-9640