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Entrevistas > Hamilton de Holanda

As piruetas de um bandolim endiabrado em Paris

Por Rodrigo Contrera

Paris teve, em 2002, um embaixador do Brasil dedicado exclusivamente à música: o bandolim de dez cordas de Hamilton de Holanda. Vencedor do Prêmio Icatu em 2001, Hamilton está há quase um ano na cidade-luz com tudo pago, tendo colecionado várias histórias de sucesso, inclusive um show inesquecível a ele dedicado por Eliades Ochôa, do Buena Vista Social Club. Hamilton, cujo primeiro CD solo ("Hamilton de Holanda", pela Caravelas) recebeu inúmeros elogios na imprensa, falou por e-mail com exclusividade para o colaborador da
Página da Música, Rodrigo Contrera.


Página da Música - Você está a meio passo da música popular, do jazz e da música erudita. O que te atrai, em poucas palavras, em cada uma dessas áreas?

Hamilton de Holanda - Com certeza, vejo várias características que me atraem. Vou citar umas poucas de cada. Música Popular: liberdade, simplicidade; jazz: fluência no fraseado; música erudita: complexidade.

PM - Você reconhece a toda hora a influência de quatro grandes mestres do bandolim em seu trabalho: Luperce, Jacob, Joel e Armandinho. Você poderia dizer em que aspectos, de cada um, você se espelha?

Hamilton - Fiz um balanço geral de minhas influências musicais mais marcantes, e cheguei à conclusão de que estes foram os quatro bandolinistas que mais ouvi e
vi, e que chamo de "Mestres". Tive a oportunidade de conhecer a música deles (e Armandinho e Joel pessoalmente) ainda muito novinho; assimilei muita coisa sem a menor consciência. Hoje, me ouvindo, vejo o quanto foi importante pra mim, aprender uma tradição brasileira, e diretamente com os mestres. Também reconheço no meu som as influências. Uma característica de cada um: Luperce - técnica e composição; Jacob - muita música com poucas notas; Joel - personalidade de som; Armandinho - atitude como bandolinista.

PM - Seu CD parece ultrapassar as fronteiras usuais do choro sem deturpá-las. O que é o choro, para você? Você faz choro ou música, simplesmente?

Hamilton - Choro pra mim é gênero e jeito de tocar. Aprendi a fazer música com o Choro, que foi o primeiro gênero que aprendi a tocar, ainda com cinco anos de idade. Isso me deu base e personalidade. Se eu fosse dar um nome para o que faço, chamaria de "Choro Universal". Essa é a tendência da maioria - não todos - dos solistas e grupos de choro da atualidade. Assimilar influências de outras músicas e somar ao Choro. Cada um com sua personalidade.

PM - Há certas tradições que você parece não ter abordado no CD: o sertanejo, o samba de morro etc. Você vem trabalhando nelas ou não pretende sair tão cedo das atuais influências?

Hamilton - Escolhi o que está no disco por ter mais importância e presença na minha vida, mas gosto de várias tradições brasileiras. Em cada época vai pintar um
som!
 
PM - Você vem de uma família de músicos, estudou violino na adolescência e faz universidade. Acontece que você e seu irmão Fernando montaram o Dois de Ouro muito cedo. O aprendizado formal serve mais como apoio ou tem sido fundamental?

Hamilton - Tocar é fundamental!!! Além disso, sou formado em Composição pela Universidade de Brasília (formei-me em julho de 2001).

PM - Você já pensou em eletrificar seu som (não simplesmente conectá-lo à tomada)?

Hamilton - Prefiro acústico. Mas quando era adolescente, em Brasília, tive uma banda de rock... Em cada época rola um som.

PM - Como foi que você chegou à conclusão de que precisava colocar mais duas cordas no bandolim?

Hamilton - Eu sentia falta de um "grave" a mais no bandolim. Além disso, acho que o bandolim, pela sua nobreza, tem que ter um repertório de músicas solo. O
par de corda aumenta os recursos para isso, sem deixar de ser bandolim.
 
PM - Você usa cordas, palhetas especiais? Você tem alguma sugestão para o bandolinista mais exigente?

Hamilton - Uso cordas D'addario e palheta média, de plástico. A minha sugestão para os bandolinistas exigentes é a seguinte: o bandolim tem que ser como um cachorro, ter a cara e a personalidade do dono!
 
PM - Músico sempre reclama (muitas vezes com razão) da falta de apoio do Estado. Como você encara esse assunto?

Hamilton - Eu não tenho do que reclamar em relação ao meu trabalho. Só acho que o Estado precisa criar uma política cultural de longo prazo.

PM - Brasília tem se revelado uma grande fonte de revelações na música, sendo você uma delas. Coincidência?

Hamilton - Brasília é única! Ela tem uma atmosfera especial para quem faz música, em que várias tradições convivem juntas. Brasília é um pequeno Brasil, com as qualidades e defeitos do país. Herdou o Choro da antiga capital, o Rio de Janeiro, junto com o ócio criativo. É uma cidade grande, com costumes provincianos, que busca uma identidade, já que tem 42 anos apenas.

PM - É difícil não deixar se influenciar pela infinidade de elogios que você vem recebendo?

Hamilton - Eu recebo cada elogio como um troféu, um prêmio pelo trabalho, dedicação e amor ao bandolim e à música, o que me motiva mais e mais... Gosto de emocionar as pessoas.
 
PM - O que você está ouvindo ultimamente?

Hamilton - Gil, Jacob, Pat Matheny, Chick Corea, Raphael Rabello, Omar Sosa, Debussy, Latin Jazz (vários), Tom Jobim, Chico Buarque, Keith Jarret, Piazzolla, Pixinguinha, Hermeto, Egberto, Paco de Lucia, Vicente Amigo,  Beth Carvalho, Maurício Carrilho etc. E o meu próprio bandolim que toco o dia todo...
 
PM - Você está na França e aí a cultura do rap é forte. Suas buscas por influências chega ao rap, eletrônico e outros gêneros?

Hamilton - No momento, não.
 
PM - A imprensa toda tem se derramado em elogios a você. Você consegue encarar tudo serenamente ou se sente meio oprimido com a responsabilidade?

Hamilton - Mais troféus! Sei que tenho uma responsabilidade muito grande. Parece que sinto isso desde pequeno, mas nunca me senti oprimido, pelo contrário, essa responsabilidade me motiva.

PM - Tem alguma boa história sobre suas apresentações aí na França?

Hamilton - Algumas. Um momento muito especial e emocionante foi em um Festival de violão da Ilha de Córsega, que toquei com Marco Pereira. Fiquei
impressionado com a beleza do lugar, um dos mais bonitos da Europa, com certeza.  O som e o cenário: um palco no meio de um bosque, uma igreja medieval iluminada na ponta de uma montanha; uma estrela (com um brilho lindo) bem em cima do palco; e a Lua de testemunha. Mais de três mil pessoas
e eu e Marco tocando música brasileira! Fomos ovacionados, e homenageados, no show seguinte, por Elíades Ochoa, do Buena Vista Social Club. Muita emoção!

PM - E o assédio das francesas, hein?

Hamilton - As francesas são lindas(!), mas as brasileiras são mais.
 
PM - Uma questão politicamente cabeluda: você vem acompanhando a polêmica sobre numeração de CDs? Qual a sua posição a respeito?

Hamilton - Tenho acompanhado. Acho que o Brasil precisa, urgente, fazer uma reforma na área de direitos artísticos. Arrecadação de direitos autorais, conexos, venda de cds etc. Sobre o caso específico da numeração, não li o projeto de lei, mas, pelo que li na imprensa, não vejo problema nenhum em numerar os discos para controle da gravadora e do artista. Eu acho que é bom para os dois lados.

Rodrigo Contrera é jornalista (rodrigocontrera@ig.com.br)

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