Se o vento cantasse...

Por Sérgio Fogaça

    Quando se escuta uma música interpretada por Renato Braz a impressão que se tem é a de que o homem foi feito para cantar. Depois, o mundo real nos lembra que esse é um dom para poucos. Bem poucos. Sua voz plaina na melodia e suspende no ar a canção. Renato está lançando seu próximo CD em janeiro de 2002. "Outro Quilombo" deve repetir o sucesso dos dois trabalhos anteriores. Todos lançados pelo selo Atração Fonográfica. Um autêntico cantor da noite, Renato credita toda sua experimentação e o saber musical aos "bares da vida". Mas nem por isso deixa de participar de grandes projetos da música brasileira, além de shows com repertório próprio. Tem o reconhecimento de personalidades importantes como Dori Caymmi, que arranjou várias canções de seu segundo trabalho, "História Antiga". O primeiro CD segue uma tradição na história da música brasileira e chama-se simplesmente "Renato Braz". Sua carreira é pura coerência. Só canta o que realmente sente que quer cantar, sem concessões. O Perfil deste mês radiografa Renato Braz. Acompanhe a entrevista.

 

Página da Música - Onde você nasceu?

Renato Braz - Eu nasci em São Paulo. No hospital Pérola Byington, na Brigadeiro Luis Antonio.

PM - Da gema. E num lugar bem tradicional.

RB - Nasci em 13 de outubro de 1967 e, na verdade, o hospital ainda chamava-se Cruzada Pró Infância.

PM - Onde você passou a sua infância?

RB - Minha família rodou muito por São Paulo, mas a maior parte da minha infância foi nessa região mesmo. Também no Bom Retiro, Casa Verde e Itaim Bibi.

PM - Era de brincar na rua, por exemplo?

RB - Onde é a avenida Juscelino Kubitschek era um rio ainda não canalizado. Eu brincava de carrinho de rolemã na Juscelino, ia até o Parque do Ibirapuera a pé, com cinco ou seis anos de idade. Naquela época São Paulo era outra cidade.

PM - Você é de família numerosa, tem muitos irmãos?

RB - Eu tenho mais uma irmã e dois irmãos. Agora, tenho vários sobrinhos.

PM - Quais são suas referências de música, desses tempos mais remotos?

RB - Desses tempos eu lembro de ouvir muito Roberto Carlos por meio da minha mãe e Luiz Gonzaga por parte do meu pai. Meu pai ouvia muito a música do Luiz Gonzaga e a música nordestina.

PM - Alguém tocava alguma coisa na sua casa?

RB - Minha mãe cantava um pouco, mas bem a lazer. Ela nem sabe disso, mas ela é uma grande cantora, afinada e tudo.

PM - Mas quando você acha que foi tendo uma ligação mais íntima com a música?

RB - É incrível, mas desde muito pequeno. Com cinco anos cantava Cavaleiro de Aruanda, do Ronnie Von, que uma tia minha gostava muito. E depois aquela febre de música americana, eu tentava imitar o Michael Jackson.

PM - Nesse momento, meados dos anos 70, também tinha muito cantor brasileiro que cantava em inglês e até usando nome estrangeiro.

RB - Essa minha tia gostava muito dessas coisas. Mas eu particularmente não gostava muito. Tinha o Christian, acho que o Fábio Júnior também usava um pseudônimo em inglês. Enfim, eram vários. Mas eu gostava dessa música do Ronnie Von, Cavaleiro de Aruanda, uma música legal, era meio candomblé, sabe? E eu gostava muito. Aprendi a cantar pequenininho. Talvez seja a canção mais antiga de que eu me lembre cantando.

PM - Mas quando você achou que seria mesmo um cantor, um intérprete?

RB - Mesmo nessa época eu já sabia. Engraçado. Já sabia que queria ser cantor. Na adolescência gostava muito de freqüentar baile. Baile funk da época. Quando tinha grupos americanos tipo Kool and The Gang ou mesmo os Jackson Five nessa mesma época. O Earth Wind and Fire e o Tim Maia. Foi aí que apareceu o Tim Maia como um grande ídolo para mim. Hoje eu tenho tudo do Tim Maia. É um dos caras que eu mais conheço. Sua música é história. Aprendi muito com ele, a cantar, tocar... tocar bateria. Comecei cantando na noite as coisas do Tim Maia, como Azul da Cor do Mar.

PM - Você toca bateria?

RB - Foi meu primeiro instrumento, toco até hoje.

PM - Você estava com quantos anos, nessa época?

RB - Uns 14 ou 15 anos. Idade em que comecei com a bateria.

PM - Esse foi o primeiro instrumento que você aprendeu?

RB - Na verdade eu já sabia que era cantor, mas não tinha muita coragem de ficar na frente da banda e cantar. A bateria ajudava um pouco, porque eu também cantava tocando bateria, com o microfone ali mesmo. Fazia aquele quatro por quatro, que é um ritmo fácil. De certa forma a bateria ajudava um pouco, eu não gostava de ser crooner, de ficar na frente.

PM - Você tem alguma formação acadêmica ou aprendeu tudo intuitivamente?

RB - Não, aprendi tudo intuitivamente. Fiz algumas tentativas frustradas. Mas foi muito legal ter aula de piano no começo de tudo, na adolescência. O piano foi bom para eu descobrir as notas, mas tenho muita dificuldade de decorar, então acabava seguindo mais a melodia. A partitura estava ali na minha frente, mas sempre acabava me ligando mais por onde ia a melodia, de ouvido. Coisas fáceis é claro, nada muito complicado.

PM - Teve ainda outros instrumentos na história?

RB - Hoje eu toco alguns instrumentos de percussão, como o pandeiro, congas etc. Mas tudo aprendendo com amigos que tocam e me ensinam. Vou percebendo, por exemplo, como é a levada da salsa, do merengue, do mambo. Mas sempre aprendendo através do toque de amigos.

PM - Não pintou nessa época um pouco daquele pensamento convencional de seguir estudando e prestar um vestibular, por exemplo?

RB - Eu trabalhava como office boy numa empresa de turismo, e me dividia muito com as coisas que apareciam, como um festival de colégio e depois comecei a tocar na noite, muito cedo. Teve até uma época quando tentei fazer um curso supletivo, mas não deu certo. Aí resolvi fazer música, parar tudo e fazer só música.

PM - Você já estava bem seguro com a música?

RB - Quando você começa a tocar na noite e começa a ganhar um pouco de grana com isso, vai automaticamente suprindo a necessidade que o trabalho te dá. Para mim, ainda, já tinha uma tendência de passar a noite acordado. E isso preocupava muito a minha mãe, por exemplo.

PM - Como eles encaravam isso, já que muito cedo você estava trabalhando na noite?

RB - Eu tive problema, e problema sério com a minha mãe. Quando eu estava nessa agência de turismo, ela adorava. Devia mesmo imaginar aquelas coisas: vai conseguir se promover na empresa etc. Deixar de ser office boy e passar para a contabilidade, por exemplo. Agora, à noite ela devia imaginar tudo. Sexo, drogas e rock’n roll. Mas eu, nossa, sempre fui caretasso, tranqüilo.

PM - Nessa época você já conhecia alguém da música brasileira, você ia a shows?

RB - Não, quase nada. Mas meu primeiro show foi ainda nessa época, um show do Renato Teixeira, no Centro Cultural São Paulo. O show chamava-se "Azul", eu acho. Foi logo depois que a Elis Regina morreu. No final, ele cantava Romaria e, num telão, projetavam a Elis cantando também. Ou seja, os dois cantando no mesmo tom e ele deixava o palco nessa situação. Pô, foi de chorar mesmo, muito emocionante.

PM - Você já escutava muito a Elis?

RB - Escutava. Meu ídolo mesmo, o primeiro, foi Ney Matogrosso. Eu adorava.

PM - Até antes do Tim Maia?

RB - É. Quando eu era criança ainda. Na época do Secos & Molhados. Eu era completamente apaixonado por tudo aquilo.

PM - Você começou a tocar onde e o que você tocava?

RB - Comecei num bar chamado Lero Lero, em Barueri. Eu tocava, como eu disse, todo o repertório do Tim Maia. Depois Gilberto Gil, como Não chores mais, 14 Bis eu gostava muito, Roupa Nova, Boca Livre.

PM - Você ainda canta na noite?

RB - Gosto pra caramba de tocar na noite. É gostoso porque é espontâneo, você pode ir experimentando mesmo, sem ter aquela coisa posada de ter que ensaiar um show. Não que eu também não goste disso. Apresentar um trabalho novo, que foi bem elaborado, e tal. Mas eu gosto de arriscar. A escola do autodidata é essa mesmo Tentar várias vezes, e até errar algumas. Ou mesmo cantar uma música que você nunca cantou.

PM - No mínimo isso te dá muita versatilidade, não?

RB - É bom experimentar e sempre estar acompanhado por pessoas que também têm essa mesma disposição de criar um novo modo de interpretar uma canção, ou mesmo arranjar de modo diferente. Não sei viver sem fazer isso.

PM - Quem hoje você acha que tem esse tipo de característica de experimentar, de cantar, ir por lugares diferentes na música?

RB - Eu gosto muito do Carlinhos Brown. Acho que ele tem essa coisa de inventar. Um show dele nunca é igual a outro, acho muito interessante isso. Ele é muito criativo.

PM - Quando você lançou seu primeiro CD?

RB - Foi em novembro de 1996. Chama "Renato Braz", feito pela Atração. Depois veio o "História Antiga", também da Atração, em 1998, que tem arranjos do Dori Caymmi. E agora vai sair o terceiro, muito provavelmente no início de janeiro, chamado "Outro Quilombo", pela mesma gravadora.

PM - Você disse que participou de festivais?

RB - Eu fiz isso mais na adolescência, mais para experimentar. E o engraçado é que participei como compositor e ganhei num festival de um colégio em Carapicuiba.

PM - Você ainda traz essa música com você, em repertório?

RB - Não, isso ficou lá...

PM - Você tem trabalho também como compositor?

RB - Tem algumas coisas, mas nunca terminei nada. Eu sempre acho que tem alguma coisa que eu não coloquei ali ainda. Mas o meu instrumento é a voz mesmo, a interpretação.

PM - Falando em festival, eu li em algum lugar que você não quis participar do Festival da Música Brasileira, da Rede Globo, ano passado?

RB - Eu fui convidado por várias pessoas para participar como intérprete do Festival da Globo, mas eu acho difícil cantar uma coisa que eu não tenha intimidade. É muito complicado para mim. Eu quero me emocionar, me entregar. O que me foi oferecido para cantar no festival eu não colocaria no meu disco. São coisas que eu não achei que fossem legais mesmo. Eu gostaria de estar fazendo aquilo de coração. Por exemplo, pegar uma música dessas do Mário Gil, que eu gosto, e cantar isso de cor, gostando.

PM - Aliás, o Mário Gil é um músico super constante no seu trabalho. Como vocês se conheceram?

RB - Eu conheci o Mário há uns 13 anos ou mais, tocando na noite, em bares. Esse último trabalho estou gravando no estúdio dele.

PM - Desde o primeiro disco você canta coisas dele?

RB - Desde o primeiro disco dele. Porque o primeiro disco que nós fizemos foi o dele, o "Luz do Cais". Depois fizemos o primeiro meu, o dele novamente e são vários discos já feitos. Mas o primeiro disco que eu gravei foi o dele mesmo. De certa forma, a gente vem aí caminhando junto. Estou sempre cantando o repertório dele.

PM - Como você lida com essa história de fazer shows? Você disse que é um pouco tímido. Quando lança CD é um bom motivo?

RB - Esse é um motivo bom para se fazer um show. Já fiz alguns trabalhos sem o disco, como um de acalantos, recolhendo algumas músicas desse gênero, e foi muito legal. Mas acho bem interessante apresentar um trabalho novo com as pessoas que o fizeram comigo, ajudaram a arranjar, elaborar o disco. O primeiro CD tem isso de arranjos coletivos, todo mundo criando. Essa coisa que te falei do bar, de levar isso um pouco para o estúdio. Eu sei pouco de música, o Mário sabe mais, de escrever e tudo mais. Juntar todas essas coisas e fazer, levar para o disco. O primeiro tem muito disso, o segundo já não, porque tem os arranjados do Dori Caymmi. Agora, o terceiro volta um pouco essa história, de estar todo mundo arranjando, esse jeito coletivo de compor.

PM - Como foi essa aproximação com o Dori Caymmi?

RB - Eu fui conhecer as músicas do Dori só lá pelos 20 anos. Pelo menos identificando as músicas como sendo dele. Afinal tem muita coisa que a gente conhece sem saber quem é o compositor. Inclusive foi o Mário quem me mostrou as coisas do Dori. Pô, me apaixonei. Adorei as músicas. Até que um dia eu fui a um show dele para entregar o meu primeiro disco. Eu estava tremendo, morrendo de medo. Nem conhecia o cara e tinha gravado duas músicas dele no CD. E eu nem tinha conferido a harmonia para gravar as músicas, tinha aprendido tudo de ouvido. E ele depois disse que ouviu e gostou. Logo depois, o convidei para fazer os arranjos do disco, de algumas músicas do segundo disco. Foi aí que a gente se conheceu mesmo.

PM - Nesse seu próximo trabalho, o "Outro Quilombo", que está para sair, qual é a idéia, a proposta dele?

RB - Eu vejo como uma seqüência dos outros trabalhos. Com relação aos arranjos e a direção musical, de certo modo voltei um pouco com a idéia do primeiro CD, onde eu faço os arranjos junto com os amigos, com todo mundo colaborando.

PM - A direção musical é sua também?

RB - A direção musical é minha. É um pouco mais confortável, talvez, até porque trabalhamos com músicos como o Teco Cardoso, o Proveta, o Mário Gil, o Sizão Machado, pessoas muito criativas. Vira uma coisa boa, sabe? Como se estivéssemos num quintal brincando e cada um contribuindo com uma coisa, todo mundo dizendo o que acha e tal. É um pouco mais demorado, mas é mais prazeroso para todos.

PM - Como você escolhe as música para o CD?

RB - Tem músicas aí que eu já tinha resolvido gravar há uns dez anos e gravei. Mas também tem outros casos como uma música inédita do Chico César e do Paquito.

PM - Qual é?

RB - Chama-se Crença. Eu tinha falado para eles que estava gravando um disco. Tinha até uma música, de muito tempo atrás, que o Chico havia me mostrado e eu pedi para ele mostrar novamente já que ninguém tinha gravado. Mas entre as músicas que ele mostrou Crença era uma nova. Assim que escutei, disse que ela já estava no repertório do CD. Romântica, bem do jeito que eu gosto.

PM - De quem mais tem música?

RB - Tem uma música do Jean e Paulo Garfunkel, que também eu conheço há bastante tempo e já cantava. Chama-se Cruzeiro do Sul. Tem Beatriz, do Chico Buarque e Edu Lobo, que eu queria gravar há muito tempo. No final do ano passado, teve um especial de Natal sobre o Edu Lobo na TV, e o Edu me convidou para cantar Beatriz. Eram vários artistas interpretando as músicas do Grande Circo Místico. Ao vivo, gravado no Via Funchal. Mas foi gravado num disco promocional, acho que de um banco.

PM - De modo geral, embora você já tenha citado algumas pessoas, quais são os músicos que estão te interessando, como o Carlinhos Brown, que você já comentou?

RB - O Dori é um, o Edu mesmo tem muita coisa que eu canto e gosto muito. O Tim Maia, que já é há muito tempo e será para sempre. Mas desses novos compositores eu gosto muito mesmo do Carlinhos Brown. O Arnaldo Antunes também é bem legal.

PM - Para muita gente, o seu canto remete a Milton Nascimento. Ele também foi uma influência para você?

RB - Do canto, talvez seja a minha maior influência. Aprendi muita coisa escutando as suas interpretações. Já fui a muitos shows e tenho vários discos. Um dos shows ao vivo que eu mais gostei, uma perfeição, foi o Planeta Blue na Estrada do Sol. Eu nunca vi ninguém cantar daquele jeito ao vivo.

PM - Mais ou menos quando foi, você lembra?

RB - Eu tenho até o ingresso aí, mas eu não lembro não. Acho que lá por 1990, 94, não sei direito. Foi gravado no Cultura Artística. Claro, já conhecia muita coisa dele, já tinha o Geraes, os dois Clube da Esquina, 1 e 2, enfim, conhecia muito o trabalho do Milton.

PM - Por falar em coisas marcantes, teve algum momento na sua carreira que você destaca como mais marcante?

RB - Puxa, acho isso muito difícil. São vários. Na verdade eu procuro isso, então, sempre vivi momentos muito especiais. Mas uma vez fui atuar como produtor num show do Dori Caymmi...

PM - Você foi produtor também?

RB - É, nesse caso, sim. Foi um show que o Dori foi fazer num teatro em Natal. Até quase pintou uma situação engraçada, porque eu percebi que iriam colocar um microfone para que o Dori me chamasse no meio do show. Puxa, não dava, eu estava ali numa outra situação, não estava preparado para cantar junto com ele num show dele, teria vergonha, coisa de fã mesmo. Fui ao camarim e pedi por favor para ele não me chamar. Ele disse que se eu estava pedindo ele não iria chamar. Mas durante o show ele dedicou uma música para mim.

PM - Qual foi a música?

RB - Se Todos Fossem Iguais a Você. Não sei se é um momento importante da carreira...

PM - Mas é, no mínimo, uma grande homenagem. Obrigado pela entrevista.