As Ilhas Cristais de Tito Madi

Por Evanize Sydow

    Ele descende de libaneses. Seu nome é Chauki, mas o Brasil o conhece por Tito. Tito Madi. Cantor e compositor de clássicos como Chove lá fora, ele está lançando o CD "Ilhas Cristais" pela gravadora Dubas, depois de cinco anos sem gravar. Nesta entrevista concedida à Página da Música, o aritsta, influência maior para Roberto Carlos, conta como foi o início de sua carreira, fala da bossa nova, do processo de realização do novo disco – que inclui 17 faixas: algumas inéditas e outras de autores mineiros – e mostra que sua arte tem fôlego para sempre se renovar.

Página da Música - O disco "Ilhas Cristais" vem depois de seis anos do disco anterior.

Tito Madi - São cerca de cinco anos.

PM - E como foram esses cinco anos até chegar a este disco? Como você chegou à Dubas?

TM - Eu fiz várias participações em discos do Roberto Menescal. Recebi duas propostas: da gravadora do Menescal e da de José Milton, que é um grande produtor. Eles queriam que eu gravasse as mesmas músicas, mas com convidados. Eu achei que os convidados são sempre aqueles mesmos que os cantores chamam para os discos deles. Embora eu tenha respeito por todos, Chico, Caetano, Gil, pensei em fazer diferente. No lugar de chamar pessoas que estão na mídia, preferia convidar colegas que também estão necessitando aparecer. Então, duas propostas para fazer a mesma coisa e eu acabei, de uma certa forma, declinando.

   Resolvi, depois desses anos todos, entrar no estúdio e fazer o meu disco como eu gosto. Chamei o Chiquito Braga, que é o meu músico de show, um dos melhores guitarristas do Brasil. Ele é um gênio. E convidei também Alberto Chimelli, que também trabalha comigo em shows. Ele é pianista e tecladista. Eles fizeram arranjos maravilhosos e convidei dois músicos, Rodolfo Novaes (sax) e José Luiz Maia (baixo), que é filho de um dos maiores baixistas do Brasil, o Luizão Maia. Também o Maurício Einhorn, que participou de três faixas, e tive a honra e o orgulho de ver o sonho realizado de cantar uma música com Os Cariocas. Foi um CD feito com muito carinho pelos músicos. Eu tomei parte em tudo. Fui produtor, paguei quase tudo. Eu, Chimelli e Chiquito fizemos uma mixagem em conjunto e ficou um disco de meu inteiro agrado. Aquelas outras ofertas não permitiriam que eu gravasse mais de três músicas inéditas. Ficaria muito chateado porque eu tenho mais de cem músicas. Tinha que botar isso para fora.

PM - Você manda muitas músicas para outros intérpretes?

TM - Eu nunca investi muito nisso. Geralmente, as pessoas falavam: "Manda uma fita...", mas não acontecia nada. Tenho um caso recente do Ronaldo Bastos, que mandou uma das músicas deste CD para a Simone e todo mundo falou que ela adorou e iria gravar, mas acabou não gravando. Mandei também para Bethânia, mas não acontece quase nada. É aquela coisa: você tem que furar um bloqueio de pessoas que, às vezes, resolvem as coisas de cantores que têm um certo nome. O caso do Roberto Carlos: quando recebeu o Prêmio Shell, ofereceu o show para mim e disse "Aí está o Tito Madi, com quem eu aprendi tudo sobre música e composição". Fui ao camarim dele e brinquei: "Pô, você gravou um disco em castelhano e não gravou Chove lá fora, que tem em castelhano". Ele balançou a cabeça, como dizendo: "Não, não..." E disse: "Eu vou gravar Roberto Carlos interpreta Tito Madi com uma condição: a de você participar." Sempre faço uma brincadeira. Quase disse para ele que eu ia pensar...

   Eu estava para gravar um CD na CID e liguei para ele: "Roberto, está em pé aquele projeto?" Ele disse: "Quando o meu estúdio ficar pronto – estava quase construído o estúdio dele –, você vem para cá e a gente faz." Falei: "Estou gravando um disco na CID, vou gravar três músicas suas. Você gravaria duas músicas minhas inéditas?" Ele falou "claro". E mandou o chofer dele apanhar a fita aqui em casa. Depois, sumiu. Não me falou mais nada. É claro, ele estava com aquele problema sério com a mulher dele. Mas eu merecia uma atenção. Mandei o disco novo para ele e entregaram na portaria. Nem sei se entregaram a ele. Também tem uma turma que o rodeia que não me agrada.

PM - E como foi que a Dubas chegou até você?

TM - Primeiro tentei gravar este disco com a CPC. O rapaz veio aqui, ficou umas cinco horas, adorou o disco, mas levou o disco e descambou. Com o tempo, tirei o disco dele. Ele me liga e diz que está em falta comigo. É um rapaz muito bacana. Eu entreguei o disco para a Jane Duboc e num dos encontros ela falou que chorou ao ouvi-lo de madrugada. Mas nada. Ronaldo Bastos, a quem eu não conhecia pessoalmente, me liga: "Puxa, sou seu fã há muito tempo..." É uma beleza de rapaz. Ele veio para cá, mostrei o disco e ele ficou maluco. Gostou demais. E não falhou. Eu já estava com a capa, mas ele resolveu fazer uma nova remasterização, uma nova capa. Fez tudo de novo. Eu disse: "Estou nas suas mãos. Faça o que você quiser."

    Saiu uma capa muito bonita, muito sugestiva. Fiquei feliz da vida. Foram dois lançamentos muito bonitos e eu estou nas mãos dele. Vamos ver o que acontece. Também não quero que ele se obrigue a gravar outro CD se a coisa não der resultado.

PM - O disco tem 17 músicas. É um bom número. Ele não interferiu nesse repertório?

TM - Não. Gravei músicas minhas inéditas, uma com Os Cariocas, com quem já havia gravado no disco anterior, mas resolvi regravar porque Os Cariocas adoraram. É uma música minha e de Paulo César Pinheiro em homenagem ao Rio, chamada Dançador. Gravei 17 músicas. Como o Ronaldo distribui pela Universal, ele falou: "Olha, Tito, a Universal não vai aceitar porque tem uns problemas de direitos autorais". Parece que depois de 14 músicas paga mais direito. É um negócio que eu, como compositor, não entendo muito bem. Mas falei: "Ronaldo, se você tirar uma música – eu já tinha tido um infarto – vou ter outro infarto. Vou chorar, vou ficar chateadíssimo." Aí ele conseguiu fazer com as 17 músicas.

PM - E como você escolheu esse repertório?

TM - São só mineiros, com exceção de um parceiro de Ary Barroso, o Luiz Peixoto, um homem inteligentíssimo, compositor, jornalista, escultor, pintor, lidava muito com teatro, escrevia peças, era diretor de teatro no Brasil e foi ele quem lançou o Ary Barroso no começo da carreira. Esse Luiz Peixoto era uma pessoal à qual eu estava muito ligado, como se ele fosse um pai. Eu estava sempre com ele, inclusive na hora da morte. Então, gravei o Milton (Nascimento) com Fernando Brant, Sueli Costa e Abel Silva. Gravei uma música do Chimelli inédita, uma do Luiz Cláudio com arranjos e participação de Maurício Einhorn. Ficou muito bonita. Chama-se Noite de ficar sozinho.

    Escolhi músicas das quais eu gostava e que não eram tão badaladas. Essa música do Flávio Venturini e Murilo Antunes, Nascente, eu conhecia e gostava dela. Uma música muito difícil de cantar. Tive que gravar algumas vezes porque ela começa com um grave muito forte e depois sobe para um agudo. Os cantores que gravaram essa música, inclusive o Venturini, cantam em falsete. Então, para cantar com voz natural ela fica um pouco difícil.

    Na parte de músicas minhas neste disco, eu gravei músicas com Paulo César Pinheiro, com parceiros maravilhosos. Gravei músicas com Mário Teles, irmão de Silvinha, recentemente falecido, e com Guilherme de Brito, parceiro de Nelson Cavaquinho. Foi um disco que me deixou feliz da vida.

PM - Como foi o seu contato com esses compositores que você gravou, especialmente Ary Barroso e Luiz Peixoto?

TM - Ary Barroso eu conheci na noite. Uma noite eu estava cantando num barzinho e o Ary Barroso estava com um amigo que sempre saía com ele. Eu cantando e ele falando alto. Pedi para o pianista parar no meio da música e me dar um Ré menor. Cantei aquela música dele "Risquei meu nome do teu caderno...". De repente, ele parou a conversa e ficou surpreso por eu estar cantando aquilo. Veio andando pela boate e me apertou a mão. Foi muito bacana. Sem querer, eu dei uma lição nele. Depois ele tornou-se muito meu amigo.

    O Luiz Peixoto eu conheci quando ele já estava com uma idade avantajada, 60 e tantos anos. Sempre estava na casa dele. Ele quebrou o osso da perna ao descer a escada do Teatro Nacional e ficou na cama. Mas era um homem que dava uma lição de vida de mil a zero. Contava as histórias dos amigos famosos dele. Chegava para mim e falava: "Vamos fazer um show. Você canta e eu desenho para o público." Ele desenhava muito bem. Tenho uma série de gravuras dele. Acompanhei muito a vida dele até os últimos anos, até no hospital onde ele faleceu.

    O Milton (Nascimento), quando era um amador em Belo Horizonte, fazia parte de um conjunto chamado Sambacana. Tocava contrabaixo e cantava. O líder desse conjunto era um compositor que eu também lancei. Ele gravava muito por aqui e, numa das vindas para o Rio de Janeiro, me telefonou e eu convidei ele e a turma dele para virem tomar um lanche em minha casa. Aí veio o Milton, ainda magrinho, novinho. Começamos a cantar e o Milton me mostrou algumas músicas. Eu disse: "Milton, eu lancei o Pacífico e gostaria de lançar você. Me mande uma ou duas músicas em fita porque eu estou para fazer um disco e vou gravar." Mas ele não me mandou.

    O Flávio (Venturini) de vez em quando eu me encontrava com ele, uma pessoa simpática e um grande compositor, mas não tinha amizade, muito contato. Murilo (Antunes) eu não conheço pessoalmente.

PM - Como você se tornou músico?

TM - Eu me formei professor em minha cidade, Pirajuí. Comecei a compor muito cedo, fiz algumas músicas. Tive contato com artistas profissionais como Garoto do violão e que prometeu me ajudar, gostou das músicas. Mas eu não tinha essa pretensão de ser cantor. Queria era poder ver as minhas músicas gravadas por outros cantores.

    Eu saí de Pirajuí para ser professor, porque eu era professor primário. Fui convidado por um colega que havia se formado comigo em Pirajuí. Após a nossa formatura, ele voltou para Cornélio Procópio, onde a família morava, e me escreveu dizendo que tinha arrumado uma cadeira de matemática, mas para a primeira e segunda séries do ginásio. Como eu não tinha nenhuma possibilidade de futuro, nem mesmo uma cadeira num grupo escolar qualquer nas fazendas, à primeira vista eu aceitei o convite. Foi o ano em que eu saí de Pirajuí com um irmão e fomos em direção à Cornélio Procópio. Esse meu irmão morava numa cidade chamada Rancharia. Chegando lá, ele me levaria para Cornélio, mas o carro dele estava na oficina e demoraria dias para chegar. Nesses dias em que fiquei em Rancharia, pensei muito e me enchi de medos porque eu não era um especialista em matemática. Pelo contrário. Sempre fui um péssimo aluno em matermática. De repente, resolvi e falei com  meu irmão, hoje falecido, que não queria ir para Procópio. Queria ir para São Paulo. Já tinha tentado uma vez como compositor, mas tive que voltar a Pirajuí para fazer o serviço militar.

    Um dia, fui visitar uns primos e amigos do interior que estavam fazendo faculdade e moravam numa pensão. Lá tinha um violãozinho e comecei a tocar. Uma moça, que era filha do dono da pensão, falou: "Que músicas são essas? Vou te arrumar um teste na Rádio Tupi." Eu fui apresentado ao Ribeiro Filho, que era um grande ator, um homem importante no rádio e na TV. O Ribeiro me levou ao estúdio e fiquei muito emocionado.

    Fiquei em São Paulo três anos, gravei um disco, que foi grande sucesso, "Não Diga Não". Fiz uma homenagem à minha cidade, Pirajuí, e o "Não Diga Não" foi um estouro. Quando vim para o Rio, achei que estava com toda a bola e me enganei. Vi que ninguém me conhecia. Então, tive que reiniciar, começar tudo de novo. Aí, caí na noite, que foi uma das coisas mais importantes.

PM - Você não quis se ligar à pré-bossa nova?

TM - Acredito que pode ter sido um erro meu, mas acontece que eu já tinha um caminho percorrido, sucesso com Chove lá fora e outras músicas minhas que estouraram aqui no Rio.

    Foi um movimento mais ou menos igual ao movimento que nós fizemos muitos anos depois, do qual tomaram parte Milton, Clara Nunes, muita gente boa, numa época em que a música brasileira estava em baixa. Então, resolvemos fazer. Fazíamos shows toda segunda-feira num teatro que não existe mais. E a coisa foi crescendo. Gravamos LP em todas as gravadoras. Então, a bossa nova não era um movimento, era uma tentativa de fazer um grupo e fazer música. Depois diziam que era música diferente do que estava sendo vinculada.

    Eu não tomei parte, mas sempre me vinculavam como sendo bossanovista. Mas poderia ter sido porque eu canto quase todas as músicas do Menescal, Tom Jobim, Carlos Lyra.

PM - Você, que viveu no Rio nos anos 40, 50 e continua em Copacabana, como vê a cidade hoje?

TM - Parece que mudou tudo. Copacabana era um centro de bares e boates e, com o tempo, essas boates todas fecharam. Hoje, são poucos os bares que fazem MPB e antigamente a gente ficava meses para assinar um contrato com a boate. Antes, tinha tempo para fazer uma mídia pessoal, tinha um público que me acompanhava a cada boate. Isso tudo acabou. Hoje, fazemos, no máximo, um final de semana.

PM - O que você acha da música brasileira de hoje?

TM - Mudou a característica da música popular brasileira. Eu gosto muito pouco. Gosto daquelas músicas que têm começo, meio e fim, letras caprichadas, poéticas. Mas não tem muito mercado para isso.

PM - E quais são seus próximos projetos?

TM - O Ronaldo tem um projeto de gravar um outro disco. Eu gostaria de fazer um disco com mais músicas inéditas e gravar músicas da seresta brasileira, mas do meu jeito, na minha versão. 

 

CD "Ilhas Cristais" - Gravadora Dubas: www.dubas.com.br