CD's Dezembro 2001

Andréa Pinheiro - "Fiz da Vida Uma Canção..."

A cantora Andréa Pinheiro faz uma justa e bela homenagem ao maestro Waldemar Henrique neste CD. "Fiz da Vida uma Canção...", título do disco e do show que a intérprete apresentou no ano passado, traz 16 faixas. O trabaho começa com Pássaro da Terra, uma parceria do homenageado com João de Jesus Paes Loureiro. Na seqüência vêm Tamba-Tajá, uma das mais bonitas do rico repertório de Waldemar Hnrique e que fala da planta amazônica que simboliza o amor, Cabocla malvada, escrita com Vladimir Emanuel, Curupira, Hei de morrer cantando e Foi boto, sinhá!, composta com Antônio Tavernard e enfoca o peixe dos rios da Amazônia que se transforma em um bonito rapaz que conquista moças às margens dos rios. Depois, o CD traz Chorinho (Waldemar e Bruno de Menezes), Exaltação, Primavera, Caçador e Cobra grande, essas menos conhecidas, Coro Peneruê, Morena, Manha-Nungára, Uirapuru e Minha terra, uma declaração de amor ao Brasil. Para falar da grandeza da obra de Waldemar Henrique, ninguém melhor que a própria cantora, dona de voz singular, que lança este CD, fruto de pesquisa valiosa: "Waldemar Henrique é o nosso mais original, criativo músico, tendo inventado essa modalidade a que eu chamo de oralidade musical, condizente com a tradição de oralidade tão essencial à cultura paraense-amazônica. E sem nunca perder a leveza, o brilho, a revelação, a delicadeza, a magnífica tessitura que faz de sua música uma encantaria da alma amazônica." Trata-se da celebração do mais importante autor paraense do século XX. www.culturapara.com.br/andreapinheiro ou andrea@museu-goeldi.br . (Por Evanize Sydow)

 

Bete Calligaris - "Um Tom do Zé"

Um dos artistas mais renomados da geração tropicalista, Tom Zé passou anos no esquecimento. Depois do reconhecimento internacional no final da década de 80, recuperou seu devido lugar no cenário mundial da música. Todo compositor criativo costuma ter mais de uma faceta. O que Bete Calligaris fez aqui foi realçar as canções românticas do compositor. "Um Tom do Zé" tem 12 faixas e na música Ui, de Tom Zé e Odair Cabeça de poeta, conta com a participação do próprio Tom Zé. Já na música Valsar a participação especial fica por conta de Tulio Morão no arranjo e acompanhamento ao piano. O Coral Harte Vocal participou com suas belas vozes em O amor é velho - menina e O riso e a faca, ambas só de Tom Zé. O CD traz ainda Silêncio de nós dois, Me dá, me dê, me diz, Passageiro e Só (solidão), todas compostas por Tom Zé. Ainda Cedotardar, em parceria com Moacir Albuquerque, Se o caso é chorar e Vai (menina amanhã de manhã), ambas em parceria com Perna, e Distância, de Tom Zé, J. Araújo e L. Marques. O CD é produzido por Alvaro Seabra e a direção artística é de Jorge Brennand Jr. Os músicos que acompanham Bete são Edson Barbosa, no violão, bandolim, percussão e arranjos, Ju Cassou, nos teclados e clarinete, Fernando Pereira, na percussão, e Fábio Lessa, no contrabaixo e percussão. www.betecalligaris.art.br .

 

Beto Dourah - "Hoje à Noite"

Beto Dourah é um carioca que mora em Brasília, onde canta há mais de 15 anos. Entre as suas influências musicais estão Tim Maia, Sade Adu, Djavan, Gilberto Gil, Ed Motta e o Clube da Esquina. O estilo de seu trabalho é a soul music, com a preocupação de apresentar harmonias bem elaboradas e letras poéticas. "Hoje à noite" é seu terceiro disco. No repertório deste CD, o artista incluiu o sucesso Celestes com novos arranjos de guitarras e vocais, que tem a participação de Jorge Vercilo, e produziu um belo resultado. Jorge Vercilo é admirador da obra de Beto Dourah: "Beto Dourah traz a musicalidade à flor da pele, um ótimo melodista que amadurece a cada trabalho e que, com certeza, já faz parte da nova geração de talentos da nossa música." O disco também traz as faixas Charme, que abre a produção, Anjos, Vinte sóis, Véu, Não sei, Flash back, Balé dos lábios, Mais, Irresistível, Eu me rendo e a música título, fechando o CD. www.betodourah.hpg.com.br .

 

Claudia Amorim - "Dia Branco"

Este é o primeiro CD da cantora Claudia Amorim e vem com um repertório selecionado a dedo. A primeira música do disco, faixa-título, já anuncia um belo trabalho. Claudia dá uma cor diferente para uma das mais bonitas canções de Geraldo Azevedo (esta em parceria com Renato Rocha). Aqui, duas participações muito especiais: o sax de Milton Guedes e a virtuosa pianista Délia Fischer. Na seqüência vem Flecha de prata, de Danilo Caymmi, o padrinho musical da intérprete e que participa como cantor e flautista na música. depois, Querem meu sangue, versão de Nando Reis para a música de Jimmy Cliff, Arribação, de Raquel Pacheco e Cacau, Gente só, versão de Claudia Amorim e Ivana Barreto para a canção de Pedro Guerra, e Retirantes, que tem a participação especialíssima de Geraldo Azevedo. O disco ainda traz Banzo, cujo arranjo foi preparado e gravado para a trilha da novela Xica da Silva, Te doy na canción, de Silvio Rodrigues, com arranjos de Claudia e Délia Fischer, e Mariposa Tecnicolor (Fito Paez e Herbert Vianna), que, segundo a cantora, é uma forma de mostrar a influência da musicalidade de Fito Paez em seu trabalho. Ao lado de Délia Fischer, Claudia Amorim preparou o show de "Dia Branco" para correr o Brasil. Além de 9 músicas do disco, elas levam para o palco as novas Bandeira do divino (Ivan Lins), Poeira (Daniel Gonzaga), Cuide-se bem (Guilherme Arantes) e Vela branca (Raquel Pacheco e Cacau). Bela produção. Claudia é cantora que nós precisamos. E merecemos. Lançamento Banco Musical - Tel (21) 2267-3539 e (11) 3667-4436. (Por Evanize Sydow)

 

Dona Ivone Lara - "Nasci pra Sonhar e Cantar"

A grande dama do samba finalmente ganha um merecido registro em CD. "Nasci pra Sonhar e Cantar" é o mais novo trabalho da sambista Dona Ivone Lara, mestra em melodia, letra e harmonia. São 14 faixas, todas compostas por ela em parceria com outros grandes nomes. Quatro são regravações e dez inéditas. A primeira música é Deus está te castigando, uma das inéditas composta só por ela. Depois vem a obra-prima do disco, Nasci pra Sonhar e Cantar, dela com seu grande e mais constante parceiro, Delcio Carvalho. Além de todo show de interpretação, sensibilidade do texto e composição melódica, outro destaque é a introdução do acordeão de Chiquinho Chagas. Primoroso. A seguir vem Nas asas da canção, que uniu - essa sempre foi uma das grandes funções da música - um mangueirense histórico e a grande dama do Império Serrano. A canção é de Dona Ivone em parceria com Nelson Sargento. Segue com Um grande sonho, dela e Bruno Castro, força jovem que além de compositor acompanha a cantora no cavaquinho nesta música. A quinta faixa é Agora, dela e Delcio Carvalho, mais uma inédita do disco. Poeta sonhador, de Dona Ivone com Paulinho Mocidade, também inédita, traz uma bela e criativa introdução. Já Canção de felicidade, também dela e Delcio Caravalho, tem a iluminada participação no coro e zoeira de Surica, Analimar, Mart’nália, Jurema Lourenço, Duarte e Nadinho da Ilha. Depois vem Tendência, de Dona Ivone com Jorge Aragão, seguida de Canto do meu viver, composta com Delcio Carvalho com uma irresistível percussão de caixa de fósforos. A décima música é Essência de um grande amor, parceria de Dona Ivone com Sombrinha. A criatividade dos músicos rolou solta. Além de todos os instrumentos, eles usaram tampas de lata dos cinzeiros do estúdio onde estava sendo gravado o CD. O acompanhamento do mesmo coro de Canção de felicidade se repete aqui em Chorei confesso, de Dona Ivone em parceria com Delcio Carvalho. Depois vem Ela é rainha, só de Dona Ivone. O violão acústico de sete cordas é de Carlinhos Sete Cordas. A penúltima canção é Axé de Ianga (Pai maior), uma regravação composta também só por Dona Ivone. O CD fecha celebrando o mar e o samba, com Sereia Guiomar, dela com Delcio Carvalho. Fascinante! Lançamento Natasha Records. www.natasha.com.br  (Por Sérgio Fogaça)

 

Isabella Paz - "Isabella Paz"

De cara o que se percebe é uma divisão muito própria no jeito de cantar de Isabella Paz. O CD começa com Quando o amor acontece, de João Bosco e Abel Silva. Embora o destaque aqui seja a cantora, muito saudável é a concepção do trabalho que dá bastante espaço para os instrumentistas, como acontece nesta e em outras músicas do CD. E por falar nisso, bela introdução de metais anunciam a próxima canção: Preciso aprender a ser só, de Marcos e Paulo Sérgio Valle, um clássico. Como também é Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. As canções de amor continuam na quarta faixa com Volta amor, de Euler Vidigal e Murilo Sarney. Lugar comum, de João Donato e Gilberto Gil, mostra bem a extensão vocal e o estilo próprio na interpretação de Isabella. Uma levada mais enxuta e de bom gosto marca Bahia com h, de Denis Brean. A próxima faixa é a obrigatória Dindi, de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira. A cantora consegue colocar sua marca própria numa canção já tão gravada por aí. A divisão vocal diferenciada volta a chamar atenção nessa música também. Mais clássicos. Agora é Manhã de carnaval, de Luiz Bonfá e Antônio Maria. De muito bom gosto o repertório escolhido por ela. Buscando paz, a próxima canção, é de Ted Moreno, o maestro que arranjou e dirigiu musicalmente este trabalho. Uma bossa bem interpretada por todos. O CD fecha com alto astral e precisão com É preciso perdoar, de Carlos Coqueijo e Alcivando Luz. Isabella Paz é brasiliense. Em 1998, ganhou o Prêmio Renato Russo da Fundação Cultural do Distrito Federal. Já cantou com João Donato, Cássia Eller e abriu show de Leila Pinheiro no Teatro Nacional Cláudio Santoro, em Brasília. No ano passado, em homenagem aos 500 anos do Brasil, a artista fez uma série de shows dedicados a Dorival Caymmi, recebendo elogios da crítica local. Lançamento independente. Pode ser adquirido pelo e-mail biavati@brnet.com.br  ou pelo telefone (61) 346-9123. (Por Sérgio Fogaça)

 

Maurício Pereira - "Mergulhar na Surpresa"

Este relançamento da Lua Discos tem a felicidade de dar mais gás para um grande compositor da nova geração, mas pouco conhecido do público. "Mergulhar na Surpresa", de Maurício Pereira, abre com uma vinheta chamada Soley, soley, de Fernando Arbex. Na música, Maurício vem acompanhado de seu constante parceiro musical Daniel Szafran, que o acompanha em todas as faixas deste disco tocando piano e também cantando. Essa base de piano e voz dá um clima mais intimista que Maurício escolheu para este trabalho. Depois vem Cachorra, de Maurício Pereira. Incrível como de tão poucos instrumentos surge tanta sonoridade. A seguir Imbarueri, de Maurício e André Abujamra, que formavam a dupla Os Mulheres Negras no final dos anos 80. O acompanhamento do pandeiro é de Guello. Depois Tudo eu te dou, de Maurício em parceria com Daniel Szafran, faz lembrar que pode haver pureza nas músicas e na vida. A quinta faixa é Wanda, de Paolo Conte, mostra como Maurício está afiado com a língua italiana. O bandolim certeiro é de Mário Manga. Um dia útil, só de Maurício, é um dos grandes exemplos de como ele é bom cronista, além de músico. O CD segue com Música serve pra isso, dele e André Abujamra, também dos tempos da dupla. A felicidade aqui é o acompanhamento da viola de Paulo Freire. Tudo é genial. Em Tranqüilo, de Maurício, o compositor mostra um belo solo seu de sax soprano. A letra, como sempre, é mais um show. Depois de Tu, de Maurício Pereira, vem Ironia, de Paulinho da Viola. Samba do bom, com uma divisão vocal super criativa de Maurício. A décima primeira é Pan y leche, de Maurício. A música dá uma sensação de manifesto latino-americano. Por que não? O título do CD vem a seguir. Mergulhar na surpresa, também só de Maurício, é uma canção que nos lembra que o princípio do som é o silêncio. A arte é saber aproveitar bem isso. Estrelas, de Maurício, é a próxima, seguida de Coyote (Coiote), de Maurício Pereira com voz da versão em inglês de Daniel e depois versão em português com Maurício em dueto com Daniel. Um country. Recipiente, a próxima música, é uma parceria com Skowa, que também está cantando com Maurício. Uma canção meio metafísica. Segue com Inventor brasileiro, só de Maurício. O baixo é de Paulinho Lepetit. Curitibana, de Tonico, Tinoco e Pirigoso, é levada só no piano e voz, solução criativa no arranjo. Quem é quem, também só de Maurício, tem clima denso e vozes incidentais, uma harmônica confusão sonora. O CD fecha com Modão de Pinheiros, de Maurício, um tour pelo bairro paulistano. Uma moda de... guitarra. O CD é generoso mesmo. São 19 faixas. Lançamento Lua Discos. Distribuição Azul Music. Tel. (11) 5561-0815 ou www.azulmusic.com.br  (Por Sérgio Fogaça)

 

Quito Pedrosa - "Luz e Pedra"

Diversos gêneros são visitados aqui por Quito Pedrosa. O CD "Luz e Pedra" passeia principalmente pelo universo musical do continente americano, mas prevalece o Brasil e a América Central. Este trabalho é dedicado à memória de seu avô, o critico de arte Mário Pedrosa. O compositor, arranjador e instrumentista lança mão tanto de elementos camerísticos, notados na presença de flauta, flugelhorn e clarone, como de percussão que reforça a influência latina através de pandeiros, ganzás e pratos. O CD começa com um tom suave. Não é para menos. A música chama-se Três da manhã. Os ritmos latinos já aparecem logo em Camello, a segunda faixa. Depois Piedra y candela caminha mais para uma espécie de balanço zona sul carioca, tanto no ritmo como no clima. A seguir vem Decantando e depois Valsa no mar, tema com um molho caribenho na levada da percussão. Andando, a sexta faixa, é mais intimista e suave. Depois do descanso, o clima muda completamente, sem perder a ternura, com 3 a 2, que leva o ouvinte para um estádio de futebol. É dia de jogo. Extemporânea, a oitava, é mais uma conexão entre Cuba e Brasil. O excelente trabalho fecha com Manifesto, uma música delicada e expressiva. Lançamento Biscoito Fino. Distribuição Kuarup. Para adquirir, clique na capa do CD e entre diretamente no site Kuarup. (Por Sérgio Fogaça)

 

Renato Motha - "Trilha das Mãos"

Neste CD, o mineiro de Belo Horizonte Renato Motha dá mais uma mostra de seu talento. "Trilha das Mãos" é baseado em uma trilha composta para um espetáculo cênico-musical realizado por Renato ao lado da bailarina Dudude Herrmann. Todos os sons presentes no disco foram feitos pelo violão, pelo corpo e pela voz. No repertório estão Zum zum, Viageiro, Shakti, Pajé e Tric Trac. Na seqüência vêm Passarinho, No tom da chuva, Samplerman, Trilha das mãos e Olhar da moça que dança. As músicas são de autoria de Renato Motha. O disco é diferente e bonito. O corpo do artista se transforma em sons de ganzá de unha, bumbo de peito, agogô de boca, violino indiano, flauta e percussão de boca. Distribuição Sonhos e Sons. www.sonhosesons.com.br

 

Sarau Brasileiro - "Sarau Brasileiro interpreta Geraldinho Alvarenga"

Chega ao mercado uma deliciosa produção fonográfica. Trata-se do CD "Sarau Brasileiro interpreta Geraldinho Alvarenga". O Grupo Sarau Brasileiro, de Minas Gerais, surgiu no final da década de 80. A formação traz Geraldinho Alvarenga (violão e cavaquinho), Hélio Pereira (bandolim), Geraldo Magela (violão 7 cordas) e Isaías de Souza (pandeiro). Sua história conta com momentos memoráveis. O Sarau já acompanhou Emilinha Borba, Coral Voz e Cia, Paulinho Pedra Azul (vale lembrar que Geraldinho Alvarenga é o parceiro mais freqüente de Paulinho) e por meio do CD "Isto é Seresta", de Waldir Silva, esteve dentre os indicados para a versão 1995 do extinto prêmio Sharp. O talento dos músicos resgata os ritmos brasileiros e foi também reconhecido pelo Prêmio BDMG Instrumental (2001): o Sarau Brasileiro esteve presente entre os 12 finalistas da primeira edição do concurso mineiro. Agora, Sarau apresenta seu primeiro registro em disco. A escolha não poderia ser melhor: o grupo interpreta composições de Geraldinho Alvarenga, com arranjos do próprio artista. Nada mais apropriado para definir a linhagem pura e simpática da sonoridade própria e afinada da turma. A beleza do Sarau está em desvelar a música por meio do simples. São cuidadosas as melodias, mas o som traz também alma, a essência da música. Veja, por exemplo, o bandolim de Hélio Pereira que, despretensioso, revela seu timbre, poesia para os ouvidos. Do repertório, a canção 7 é Sete cordas que choram. Na música, Pereira se desdobra, ao trombone, com igual primazia e delicadeza. Ouvir todo o disco é fechar os olhos e imaginar as rodas calmas, vivazes e mais originais da verdadeira música brasileira. Sarau é choro, é samba, é Minas e Brasil para aplausos universais. Contatos com o Sarau Brasileiro: saraubr@terra.com.br (Por Márcia Franciscomfrancis@uai.com.br )

 

Selmma Carvalho - "Cada Lugar na Sua Coisa"

Em Belo Horizonte ela já é bem conhecida como cantora e pianista. Selmma Carvalho lança agora o seu segundo CD. Cada lugar na sua coisa, de Sérgio Sampaio, é a música que abre o trabalho. Com arranjo de Swami Jr, a primeira faixa chega com bastante suingue e consistência sonora no canto e instrumentação. Aliás, com exceção de uma canção, todas as outras têm arranjos de Swami Jr. Depois, Selmma surpreende resgatando Casaco Marrom, de Danilo Caymmi, Renato Correa e Guarabyra, sucesso de 1969. Apesar de mineira, a cantora tem bastante empatia com músicos que moram em São Paulo ou são paulistanos. Percebe-se isso na escolha de repertório e instrumentistas que a acompanham no disco. A terceira faixa é Do campo, de Chico César. No canto final, uma concepção de Ari Colares para Tá caindo fulô, extraído do congado mineiro, e a participação das vozes conhecidas de Mona Gadelha, Carlos Careqa, Rossana Decelso e Swami Jr. Depois vem a pop Evitando a confusão, de Luciana Pestano, seguida de Se você me ama, de Zeca Baleiro, com uma extensa e bem elaborada letra. A sexta faixa é Bolinhas de gude, de Jorge Mautner. Música que Selmma foi buscar no álbum "Mil e Uma Noites de Bagdá" do autor, de 1976. Também escolheu bem a próxima canção. São solidão é um dos grandes momentos de Carlos Careqa. Belo solo de flugelhorn de Cláudio Faria. Uma moringa tocada por Adriano Busko puxa Tenha paciência, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, que ficou muito legal na voz de Selmma. Ela também fica bem a vontade em Chorinho pra você, de Marcos de Carvalho e Rossana Decelso. O bandolim é de Webster Santos e o solo de sax soprano é de Mané Silveira. A economia nos instrumentos, embora sobre sonoridade, valorizou ainda mais o acompanhamento para a interpretação em Cena, da compositora e dramaturga Beatriz Azevedo. O balanço em Mary Shelley - eu quero um homem, de Mathilda Kóvak, é delicioso. Uma espécie de canção de "protesto feminino". Selmma arranjou e está só, ao piano, em Eu gosto de cantar, de Sérgio Moreira. Um desfecho sensível e sublime para uma cantora que, se já é conhecida em Belo Horizonte, poderia estar circulando mais por aí. Para adquirir: cotaselmma@uol.com.br ou (31) 3223-1715 (Por Sérgio Fogaça)

 

Tavinho Moura & Fernando Brant - "Conspiração dos Poetas"

"Nossa conspiração é um caso de amor com a vida, a amizade, a música. Gostamos muito do Brasil, de Minas e Belo Horizonte. E do mundo. De palavras e música. Viver, além de perigoso, é muito bom. Todos os assuntos humanos nos interessam e falar deles em música é uma delícia." As palavras são de Fernando Brant na apresentação deste "Conspiração dos Poetas". O disco é obrigatório para quem gosta da boa música produzida nas Minas Gerais. Mas não é só para estes. É um CD essencial para qualquer pessoa ter em sua discoteca. O trabalho começa com Conspiração dos poetas e segue com Cy, Ah, se eu me apanho em Minas, Paixão e fé, Chaleira do alto da poeira, Beco do Mota e Vevecos, panelas e canelas, as duas últimas feitas por Fernando Brant e Milton Nascimento. Depois vêm As meninas no trem de Sabará, precedida pela fala de Ana Luiza e Isabel, filhas de Fernando, Zabele e Tereza, filhas de Tavinho, Meu jeito sonhador, Dindilin, A flor e a guerra, canção popular catalã de domínio público, com letra de Fernando, adaptação e arranjo de Tavinho, Nosso herói, Debra Winger, O que será de nós?, 1965 e a faixa-título, que finaliza o CD. Produzido pelos próprios intérpretes, o disco está esgotado, mas Fernando e Tavinho procuram um distribuidor para uma nova edição. E o público agradece se o trabalho voltar às prateleiras. 

 

Turíbio Santos - "Johann Sebastian Bach Visita a Mata Atlântica"

Um dos maiores violonistas brasileiros da atualidade presenteia os amantes da boa música com este "Johann Sebastian Bach Visita a Mata Atlântica". O maranhense Turíbio Santos faz uma viagem maravilhosa pela música de Bach, incluindo baião, choro, samba, marcha rancho, maracatu pandeiro, triângulo, xequerê, tamborim, surdo, apito, chocalho e bateria. Turíbio Santos é acompanhado pelos virtuosos Deancisco Frias (violão) e Ricardo Costa (percussão). "J.S. Bach nunca compôs para violão, embora se acredite que tenha escrito, ou pelo menos autorizado, transcrições para o alaúde. E neste ponto é bom não esquecermos duas das mais fortes características de Bach: um dos maiores transcritores da história da música e insaciável pesquisador de novas sonoridades. Jacques Louzier e Vinicius de Morais compreenderam isso perfeitamente, em suas experiências", comenta o músico no encarte do CD. Membro-fundador do Conseil D'Entraide Musicale, da Unesco, Turíbio regravou há dois anos a obra completa de Villa-Lobos para violão, ao lado de compositores como Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e Edino Krieger, numa série de cinco CDs comemorativos aos 500 anos de Brasil. Além disso, já tocou com renomados artistas, como Yehudi Menuhin, Rostropovich e Rampal, e atuou com as mais importantes orquestras, como Royal Philharmonic e English Chamber Orchestre National de L'Opéra. Lançamento Rob Digital. www.robdigital.com.br

 

Viola Quebrada - "Viola Quebrada"

Que beleza! Esse é o tipo de trabalho que precisa ser comemorado e propagado. O grupo curitibano Viola Quebrada envereda pelos mais belos temas da música caipira brasileira. Autêntica. Um verdadeiro resgate do nosso repertório rural. Como se não bastasse, o disco ainda conta com participações muito especiais, como a dupla Pena Branca e Xavantinho, no último registro da dupla em estúdio antes da morte de Xavantinho, além do pesquisador e violeiro Roberto Corrêa, cujo CD já comentamos aqui. O trabalho abre com um clássico e importante registro de Viola Quebrada, de Mário de Andrade. Nada mais justo já que Mário foi um dos pioneiros no resgate da cultura musical brasileira. Segue com Meu céu, de Xavantinho e Zé Mulato, com a participação da dupla já citada, junto com as belas vozes de Oswaldo Rios e Margareth Makiolke. O grupo se completa com Rogério Gulin, na viola caipira, Maurílio Ribeiro, no violão, e o mais novo integrante do grupo, Rubens Nunes Pires, no acordeão. Curraleira, a terceira canção, de Osmar da Costa Vale e Doquinha, já traz Roberto Corrêa em uma das duas participações que faz no CD. Depois vem Flor do cafezal, de Luiz Carlos Paraná, que fez sucesso com a dupla Cascatinha & Inhana. A quinta faixa é Caçador, de Tião Carreiro e Carreirinho, seguida da famosa e divertida Moda da pinga, de Ochelcis Laureano, que ficou muito conhecida na voz da entidade Inezita Barroso. A próxima também é outro clássico. Trata-se de Meu primeiro amor, de H. Gimenez, J. Fortuna e Pinheirinho Jr, com a participação especial do grupo Terra Sonora. Cana verde, a seguinte, é um fandango paranaense, uma música de domínio público. Depois vem Moreninha linda, de Tonico, Priminho e Maninho, música que está no inconsciente de muita gente. Pedaço da minha vida, de Raul Torres, é outro clássico resgatado pelo grupo. Empreitada perigosa, de Moacyr dos Santos e Jacozinho é a décima primeira faixa, seguida de As mocinhas do sertão, de Nhô Belarmino, que distribui elogios para as mocinhas, tanto da cidade como do sertão. Rogério Gulin é o autor de Gabriel, que traz o astral infantil para a música. O belo trabalho fecha com uma vinheta de Cana Verde, aquele fandango paranaense. Uma prova cabal de que tem gente interessada na nossa cultura genuína, sem pensar em grana e num "Domingo Legal". Viva a viola, a nossa viola. Lançamento Kuarup. Para adquirir, clique na capa do CD e entre diretamente no site Kuarup. (Sérgio Fogaça)