14 Bis encerra turnê "Acústico" em São Paulo

Por Evanize Sydow

    Em seus mais de 20 anos de carreira, o grupo 14 Bis conquistou um público fiel que o acompanha nas mais diferentes cidades do Brasil. Estas platéias vêm se renovando dia-a-dia. Uma enquete no site oficial da banda mostra que 45% de seus admiradores têm até 25 anos de idade. Depois de dois anos excursionando pelo País com o show "Bis Acústico", o 14 Bis encerra a turnê na mesma cidade onde começou a divulgar este trabalho: São Paulo. Os espetáculos acontecem no Teatro Procópio Ferreira. Agora, Cláudio Venturini, Hely Rodrigues, Sérgio Magrão e Vermelho preparam um novo vôo. Nesta entrevista concedida à Página da Música, o baixista Sérgio Magrão conta as novidades sobre o próximo CD e a força do trabalho do grupo mineiro mais badalado dos anos 80, que se mantém coerente na prática de fazer música boa e com uma média de 90 shows por ano.

 

Página da Música - Esse show em São Paulo será para fechar a excursão?

Sérgio Magrão - É o encerramento da turnê "Bis Acústico", que começou em São Paulo há dois anos.

PM - Vocês estão preparando alguma surpresa para esta apresentação?

SM - A gente faz o mesmo show, mas devemos incluir mais duas músicas novas no repertório que estamos tocando. Na verdade, é o encerramento do show em São Paulo, onde começou e que representa o nosso primeiro mercado. Cinqüenta por cento do nosso trabalho são consumidos em São Paulo, em termos de venda de CDs e shows. Essa é uma cidade muito importante para a gente.

PM - Qual o balanço que você faz desse trabalho acústico? Como foram esses dois anos?

SM - O nosso trabalho foi excelente. O da gravadora foi péssimo. Nós conseguimos vender 85 mil cópias. Nós vendemos, não a gravadora. A Universal mal conseguiu distribuir. A gente leva os CDs em shows. Eles (gravadora) adoram coletânea porque não custa nada e ganham muito dinheiro. Então, acho que o saldo foi super positivo tendo em vista que somos uma banda que não está na mídia, graças à gravadora mais uma vez. Temos que lutar com outras armas. É muito mais difícil. Se você está com a carinha no domingão a toda hora, é mole fazer qualquer coisa. Nós não queremos estar nivelados por aquilo que está acontecendo no domingo. Então, preferimos ficar onde estamos fazendo a nossa própria mídia, que é ir para as cidades, fazer entrevista nas rádios etc. É isso o que interessa porque, graças a Deus, temos 21 anos de carreira e um público muito fiel. A gente faz, em média, 90 shows por ano. Este ano estamos fechando com 85 shows. Ano passado foram 92. Esse é o grande mérito.

PM - Como foi que evoluiu o público de vocês nesses 21 anos?

SM - Do público da gente, 45% das pessoas estão na faixa dos 16 aos 25 anos. Temos esse número graças a uma enquete disponível na nossa página (www.14bis.com.br). Como a enquete está no ar há muito tempo, muita gente participou e é um termômetro bem interessante. Estamos sempre recebendo o pessoal no camarim depois do show e a maioria é garotada. Tem aqueles fãs que cresceram com a gente também. Para você sacar bem isso é interessante na página a parte "Deixe sua mensagem". É a coisa mais maravilhosa que tem. Quando eu estou de mau humor, abro, começo a ler as mensagens e fico bem. Graças a Deus só tem elogio. Entrei ontem (terça-feira, dia 11) e tinha uma pessoa agradecendo ao pai dela por ter lhe apresentado o 14 Bis desde pequena. E são coisas sinceras. Não tem armação. Não é o domingão. Ali, é coisa séria. É a própria pessoa que escreve com a maior emoção e a gente responde a todos. Fazemos questão. Recebemos mais de 1.500 e-mails esse ano. A gente toca no sábado e no domingo, e na segunda-feira já tem mensagens desta e daquela cidade, dizendo que adoraram o show. Às vezes até com algumas críticas construtivas, como "o show está pequeno, faltou tal música", mas isso tudo é muito legal.

PM - Vocês têm uma forma de venda de CD pela inernet?

SM - A gente tem, mas nunca deu certo. Como viajamos fazendo muito show, às vezes algumas pessoas que querem o CD mandam e-mail e pedimos para entrar em contato com o nosso escritório.

    Nós temos lançadas 11 coletâneas e vendemos 1 milhão e 100 mil cópias só de coletâneas. As gravadoras é que escolhem as músicas, sabe Deus como, não comunicam para a gente... Quando ficamos sabendo já está pronto. Agora saiu essa "Sem Limites". São 30 músicas. A gente só tem um CD lançado com eles. Eles compraram o "Siga o Sol", que era da Velas, e juntaram com um projeto que fizemos com o Boca Livre para fazer essa coletânea. Por causa da pirataria, eles também estão no sufoco. Acabou aquela história de 1 milhão de cópias. Vende 500 mil e as outras 500 mil são na pirataria. Em Belo Horizonte tem promoção de 3 CDs nossos por R$ 10,00. É triste isso, mas, ao mesmo tempo, é uma lição porque não podem cobrar R$ 25,00 por um CD.

PM - Esse próximo disco vai sair pela Universal?

SM - Não sei. O lance das gravadoras, agora, é projeto. Esse CD que a gente está divulgando é um projeto, regravação no formato acústico dos grandes sucessos do 14 Bis. Isso é um projeto. O que não é projeto é um CD de inéditas. É o que a gente quer fazer. Mas agora já estão inventando um DVD deste CD com as mesmas músicas. Acho legal fazer isso, mas mesclado com alguma coisa nova. A gente não tem nenhum registro, VHS ou DVD, e eles querem porque é mais fácil e barato.

    Com isso, não sabemos ainda. Mas a nossa intenção, independente de qual seja a resolução da gravadora, é fazer um disco de inéditas, mesmo que a gente faça por conta própria, grave e venda a produção.

PM - Porque tem muito artista montando selo próprio...

SM - Claro. É coisa que antigamente não dava certo porque você era engolido pelas grandes gravadoras. Hoje em dia, a coisa mudou. E muito. Na realidade, você acaba utilizando as grandes gravadoras para distribuir, que também é perigoso porque ela sempre vai dar prioridade para o material dela. Você sempre fica meio por último na história toda. Mas essa parte de produzir e gravar já não tem mais gravadora e nem precisa. Essa é uma possibilidade (de lançar o CD por conta própria).

PM - E como está esse próximo CD?

SM - A gente tem bastante material. Nada está gravado ainda. Estamos na fase de criação, já temos músicas, um bom material. Esse trabalho está bem adiantado.

PM - E são composições de vocês?

SM - A grande maioria sim.

PM - E terá outros autores também?

SM - Temos algumas possibilidades. Por exemplo, a gente quer regravar alguma música antiga nossa. As pessoas pedem muito em show. Devemos gravar 1 ou 2 do repertório antigo e também de algum outro autor, como fazemos com o Milton (Nascimento). Este é o nosso projeto dentro desse CD de inéditas.

PM - E você pode adiantar quais serão essas inéditas?

SM - A gente está fazendo um projeto grande com o Banco Real/ABN AMRO Bank e o Cláudio (Venturini) fez uma música com um dos diretores. A gente participou de uma convenção e lá existia esse entrosamento. Ele, Osório Santos, irmão do Osmar Santos, é o diretor deste projeto super legal do ABN, chamado Escola Brasil. É o mesmo que está patrocinando a gente nesta temporada do Teatro Procópio Ferreira. Esse também é um projeto que estão iniciando com a gente. A música do Cláudio e do Osório se chama Mão amiga e já está pronta. A gente deve apresentá-la. E também devemos mostrar Para Lennon e McCartney, que fizemos agora com a Orquestra Sinfônica do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, junto com o Skank, Jota Quest, Tianastácia, arranjos de Túlio Mourão e regência de Amilson Godoy. Foi um evento do Natal Sem Fome e foi maravilhoso. Isso tudo foi gravado e deve passar num especial da Rede Minas.

PM - Esse show que vocês fizeram do ABN na semana passada vai sair em CD?

SM - Vai sair em CD. O show foi muito legal. Foram sete artistas: Boca Livre, 14 Bis, Flávio Venturini, Guilherme Arantes, Renato Teixeira, Jane Duboc e Toquinho. Cada um com quatro músicas. O primeiro entrava, chamava o segundo, cantava junto. Aí o segundo ficava, saía o primeiro, o segundo fazia três músicas, chamava o terceiro. Foi bacana porque todo mundo cantou junto e fizemos Canção da América com todos juntos.

PM - Como é a relação de vocês com os grupos mineiros surgidos nos últimos anos?

SM - É legal. Todo mundo começa a viajar e fica muito difícil de se encontrar. Na realidade, a gente só se encontra quando tem esses eventos que possibilitam, mas temos um relacionamento maravilhoso. Fizemos entrevista neste show em Belo Horizonte e o tecladista do Skank falou: "O primeiro show que eu vi aqui no Palácio das Artes foi do 14 Bis..." Legal porque a gente ficou como referência para eles. Ficamos reinando em Minas sem ter nenhuma outra banda profissional pelo menos uns 10 anos. Tinha o Sagrado Coração da Terra, que já era mais de rock progressivo, sinfônico. Agora tem Skank, Tianastácia, Pato Fu, Jota Quest.

PM - E o projeto com o Boca Livre?

SM - Foi maravilhoso. Fizemos durante dois anos e acabou virando um CD pela Universal, o "14 Bis e Boca Livre Ao Vivo". Fizemos mais de 30 apresentações juntos, tocando juntos. Cada um fazia 5 ou 6 músicas sozinho e outras 5 ou 6 junto. Era um entrosamento muito bom.

PM - Vocês têm idéia de fazer um projeto com o Flávio Venturini também?

SM - A gente tem um projeto. Falamos sempre isso e nunca dá. Temos um projeto de fazer uma excursão juntos. Ele faz o show dele, a gente o nosso. Mas depois podemos fazer outro show inteirinho com ele porque tocamos juntos durante oito anos. É engraçado porque eu paro para pensar e já tem 13 anos que o Flávio saiu do 14 Bis. A gente tem mais tempo sem o Flávio do que com ele. Foi muito difícil para a gente logo que ele saiu. Quer dizer, foi uma coisa planejada. Ele tentou conciliar a carreira solo com a nossa carreira, mas ficou muito difícil. Tem horas em que as datas se chocam e não dá para fazer as duas coisas. Mas a gente está sempre tocando juntos. Um dando canja no show do outro. Tem também o projeto 14 Bis, Flávio Venturini e Beto Guedes. Já fizemos três eventos, mas tem que ser sempre um evento grande com prefeitura porque é muito caro. Fizemos em Campos (Rio de Janeiro), no Teatro Trianon, e foi maravilhoso. Fizemos em Volta Redonda (RJ), no aniversário da cidade. Esse projeto ainda está em andamento.

    Quando o Flávio saiu foi difícil, mas por pouco tempo. Talvez não tivéssemos idéia de que podíamos dar conta do recado, de que o Cláudio assumiria o posto do Flávio de cantar todas as músicas tão bem – até porque tem a genética aí; eles são irmãos. A gente pensava: "Flávio faz a maioria das músicas e canta a maioria das músicas. É uma pessoa super criativa. Como é que vai ficar?" Mas esse receio não durou nem seis meses. A gente começou a ensaiar, de repente estava tudo pronto e as pessoas estranhavam porque não mudou nada.

PM - Vocês compunham num sítio naquela época?

SM - É verdade. Ainda dava para fazer isso. A gente sempre morou separado. Quando começou o 14 Bis, o Hely e o Cláudio moravam em Belo Horizonte; eu, o Vermelho e o Flávio morávamos no Rio, no Jardim Botânico, no mesmo prédio. Então, a gente viajava um mês e até evitava de se encontrar no elevador do prédio (risos). Agora, o Vermelho mora em Barbacena, eu no Rio, o Cláudio e o Hely continuam em Belo Horizonte. Mas a gente está sempre junto na estrada. Cada um agora compõe em casa, ao seu jeito mesmo. O Cláudio gosta de compor na madrugada, pega o computador, o violão e grava. Eu sou empresário do 14 Bis também há 17 anos e acabo tendo pouco tempo. Em janeiro estamos de férias. Aí, boto o violão embaixo do braço e volto cheio de música. E depois a gente desenvolve junto.

PM - Vocês nunca quiseram ter um produtor?

SM - Já tivemos no começo da carreira durante cinco anos, mas não deu certo. Em 99 também.

PM - Produtor é bom, mas acho estranho como às vezes eles complicam a vida do artista, fazem com que a pessoa se torne uma coisa inacessível, ninguém pode chegar perto, entrevistar... E interessante é que isso acontece tanto com os renomados como com aqueles que raramente aparecem.

SM - É a corte. A gente chama de corte. Tem um artista e em volta fica a corte só empatando. É a corte que acaba com o cara porque aí ele tem problemas que  ele não tem, que a corte inventa para ninguém ter acesso. Sabe o que eu acho? Que eles têm medo de perder a boquinha. De repente, alguém chegar no ouvido do artista e falar: "Olha, tenho uma proposta para te fazer..." Eu sinto isso. É uma loucura, mas parece que é isso. Às vezes, é um amigo, você quer chegar no aniversário do cara para dar os parabéns e não deixam você chegar. Ele jamais vai atender o telefone porque não deixam. Uma coisa para deixar um clima, um mistério. Convencem o cara com essa idiotice, a pessoa não fica acessível, às vezes passa por antipático, uma coisa que nem é mesmo.

PM - E quando não são aqueles que estão sempre aparecendo é pior ainda.

SM - É pior ainda. O cara tem que aparecer e o outro fica escondendo a pessoa. Tem uns que estão muito expostos, mas tem outros que precisam aparecer e o cara piora ainda mais a situação. É o clima de mistério.

    Acho que a gente está há 20 anos aí porque temos uma cabeça totalmente diferente da desse povo. Eu vejo gente acabar o show, entrar no carro, chamar dois seguranças e sumir. Acho que pensa que o público vai morder... A gente, às vezes, fica mais tempo no camarim atendendo a todo mundo do que no palco tocando. A gente recebe 1.500 e-mails no ano. Se você ler todos e não responder, você não vai receber mais nenhum. A gente responde a todos os e-mails. Eu tenho o maior prazer em fazer isso porque eu faço uma coisa que eu gosto.

PM - E o mercado da música?

SM - Eu não sou contra nenhuma dessas tendências, funk, pagode, axé, sertanejo. Acho que tem lugar para todo mundo, até porque, a partir do momento que existem pessoas que gostam desses segmentos, você tem que oferecer. Mas eu não agüento ver como isso é distribuído. Vem o pagode e invade tudo. Aí você não pode mais tocar em feira porque a feira só quer pagode, você não pode tocar no rádio porque o rádio só quer pagode, não pode mais ir à televisão porque a televisão só quer pagode. Aí está errado. Tem que ter espaço para todo mundo. Quem vai escolher é quem consome. Não a rádio ou a gravadora. Antigamente, as rádios tinham programadores, que eram pessoas escolhidas de bom gosto para fazer uma boa seleção musical para  a rádio dar certo ou não.

    É por isso que a gente agradece porque não precisamos dessa mídia. Mas não precisamos mesmo. A gente faz show, volta para os lugares porque a última vez que esteve lá foi ótimo. O Brasil é enorme. Nós já fizemos mais de 2 mil shows. Se você quiser tocar um ano inteirinho só em Minas, você toca. Porque 800 municípios... Tem muito artista que você não vê na mídia, mas está atuando direto. Você só conquista isso indo onde o povo está, como diz o Milton.

 

14 Bis - "Bis Acústico"

13/12 - Estação São Pedro, Juiz de Fora (MG)

14/12 - Lona Cultural de Bangu, Rio de Janeiro

15, às 21h - Lona Cultural João Bosco

Av. São Félix, 601, Vista Alegre - Tel (21) 2482-4200. R$ 10,00 e R$ 12,00

20, 21, 22 e 23, às 21h - Teatro Procópio Ferreira

Rua Augusta, 2.823 - Tel (11) 3083-4475. R$ 30,00

25/12 - Mineiríssimo, Belo Horizonte

5/1 - Angra dos Reis, RJ (Festa dos 500 anos da cidade)

19/1 - São João da Barra, RJ (aniversário da cidade)