Zeca Baleiro: criatividade e explosão rítmica

Por Sérgio Fogaça
"PetShopMundoCão" é o quarto CD da carreira de Zeca Baleiro. Diferente da maioria dos artistas, ele está de bem com o público e o mercado ao mesmo tempo. Como diz no release apresentado por ele mesmo no encarte do disco: "Quis fazer um trabalho que transitasse por muitos territórios sem pertencer a nenhum". O CD traz quatro produtores, incluindo ele próprio, além de várias participações, seja nas parcerias ou o acompanhado nas músicas. Nomes como Karnak, Elba Ramalho e Totonho e Os Cabra, por exemplo, estão em uma só faixa, intitulada Drumembêis. Já nas parcerias, velhos e novos parceiros transitam. Estão lá, dividindo autoria com Zeca, Capinan, Fernando Abreu, Mathilda Kóvak, Sérgio Natureza, Ramiro Musotto, Celso Borges e Érico Theobaldo, além da dupla Luiz Américo e Braguinha. Junto com ele, tocando ou cantando, estão Vange Milliet, o Z’áfrica Brasil e o grupo vocal de samba As Gatas, entre outros. São 14 faixas de pura criatividade e explosão rítmica. Confira a seguir a entrevista que o artista maranhense concedeu para a Página da Música, respondendo perguntas de nossos leitores, dentro da seção "Outras Palavras" (ao lado de cada pergunta está o nome do leitor que a enviou).
Pierre Dechery - Como você vê o papel da crítica em relação ao seu trabalho? Considera que ela o compreende adequadamente ou não? De maneira um pouco mais geral, mas dentro do âmbito da MPB, gostaria que você falasse sobre a importância da crítica musical e de seu papel como ponte entre artista e público.
Zeca Baleiro - Penso que, de uma maneira geral, os jornalistas que escrevem sobre música hoje são muito mal informados. Considero a crítica importante, sim, algo que pode trazer pro artista uma reflexão sobre o próprio trabalho. Mas essa crítica deve ser feita com o mínimo de isenção e o máximo de fundamentação, o que eu não vejo acontecer hoje em dia. A leitura que fazem do meu trabalho é muito epidérmica, superficial.
Jaciane Maria da Silva Chagas - Como você encara a mídia (principalmente a Rede Globo) que funciona com cabresto não se importando com a informação verdadeira, boa música e cultura, ou seja, a emissora do capitalismo da sub-consciência?
ZB - Hoje não dá mais pra eleger a Globo como única vilã, como se fazia no passado. A mídia está toda nivelada por baixo, aos tapas por mais audiência. Falta compromisso com educação e cultura. Uma vez que rádios e tevês são concessões públicas, penso que devia haver uma lei que obrigasse que uma certa porcentagem da programação fosse destinada a programas culturais. Pode parecer arbritário, mas e a programação atual das tevês, o que é?
Nanda Rovere - A arte produzida no nordeste é de uma genialidade tremenda e o povo, mesmo enfrentando muitas dificuldades, é simpático e alegre. Como esse povo maravilhoso consegue tanta energia para enfrentar os problemas do dia-a-dia, ser tão alegre e tão talentoso? O que mais te encanta na sua terra natal? Você concorda que cada vez mais a cultura regional está sendo valorizada e que os artistas, mesmo com a influência da mídia no nosso dia-a-dia, estão voltados para produções artísticas onde a prioridade é a qualidade e não o mercado? (Você é um exemplo disso!)
ZB - A cultura regional está sendo valorizada cada vez mais porque, paradoxalmente, está deixando de ser apenas regional e ganhando outros contornos. Ao mesmo tempo, o público tem aberto os olhos para a produção brasileira, um pouco devido ao desgaste das velhas fórmulas que não privilegiam a nossa música, e um pouco por conta de alguns "fenômenos de mercado", como o surgimento do mangue beat e toda uma geração de artistas nordestinos, entre os quais me incluo. Acho que é saudável não ver o "mercado" como a antítese da qualidade, pois o artista popular não é nada se não alcança o seu público, ou seja, se não tem "mercado".
Elis - Você, que convive no mundo artístico e pode ter contato com vários ídolos da música, tem alguma teoria sobre as mortes precoces de grandes ídolos, como Jimmy Hendrix, Janis Joplin, Cássia Eller, Elis Regina, e o envolvimento dessas pessoas com as drogas? Por que pessoas tão talentosas se entregam às drogas desta forma e terminam por acabar com a vida tão cedo?
ZB - Se eu soubesse essas respostas, eu já saberia o bastante. Penso que há alguns artistas que vivem de forma muito intensa, e até por isso são os artistas que são. As drogas têm a ver com isso, com essa busca intensa, esse mergulho na vida e na arte. O resto são acidentes...
João Sobania - Ao transitar por outras artes (literatura, por exemplo) e ao ser generoso nas participações de outros artistas em seus trabalhos, você está recuperando aquela idéia (tão sufocada nos 80/90) de arte como força aglutinadora da sociedade. Você faz isso com muita consciência. Fale um pouco sobre os conceitos e a ideologia que te colocam na condição de "antena da raça" desta geração.
ZB - Acho que eu estou mais pra "antena da roça". A meu ver, a arte, e a música popular, especialmente, tem um grande papel aglutinador, sim. Óbvio que sempre pesam as afinidades estéticas e/ou afetivas, mas busco sempre, com o meu trabalho, fazer pontes entre linguagens e territórios aparentemente díspares ou até conflitantes. À minha maneira, estou tentando provar que a convivência minimamente saudável das diferenças é possível.
Lucélia Rossi - Sua carreira começou no 2º Festival de MPB do Carrefour, ocorrido entre 1991/1992, quando você cantou com o Chico Cesar (a canção ficou em 3º lugar)? Eu estive lá e vi a final.
ZB - Então era você, hein? Bem, participei como vocalista de uma canção do Chico nesse festival, mas minha carreira (ou correria!) já havia começado há tempos, em São Luís do Maranhão precisamente, em meados dos anos 80.
Robson Albuquerque - O lado "Caras" do showbusiness exerce alguma atração sobre você?
ZB - Sinceramente, não. Óbvio que tenho as minhas vaidades, iguais às de todo mortal, mas acho que, até pelo fato de ter chegado ao disco e ao grande público com mais de 30 anos, já não tinha maiores deslumbramentos com o "grand monde".
Edu Mendonça - Como foi a sua participação nos festivais de música, em especial o Fampop de Avaré, onde classificou três de suas músicas, com destaque para "Dindinha", que é uma verdadeira obra-prima e foi muito bem interpletada pela Ceumar? E o que você acha dos festivais hoje em dia?
ZB - Acho que os festivais ainda são importantes. Lógico que não têm mais nem o glamour nem a consequência dos festivais de antigamente, mas ainda propiciam que artistas sem espaço e/ou iniciantes se expressem. Pra mim foi deveras importante participar de alguns festivais. Na pior das hipóteses, serve pra amadurecer o artista do palco, uma vez que as platéias desses eventos são sempre expressivas, numerosas e calorosas.
Mácleim - No ano passado, em minha turnê pela Europa, estive na Holanda e em Amsterdam encontrei uma brasileira chamada Viviane Godoi, que, para minha felicidade, tinha uma música minha , "Atriz", em seu repertório . Ela é amiga do Olaf Keus, um baterista holandês que sempre toca comigo quando estou lá. Mas, para minha surpresa, ela me falou que tinha tido contato com o meu trabalho através de você, que havia lhe dado uma fita, já que ainda não tinha lançado o disco "Internet Coco". Gostaria de saber como meu trabalho chegou até você e como eu poderia fazer chegar até você esse disco que foi lançado no ano passado lá na Europa?
ZB - Oi, Mácleim. Seu cd chegou às minhas mãos acho que pela cantora Ceumar, que é uma cantora mineira cujo primeiro disco eu produzi. Ela me mostrou um cd demo seu, que eu achei muito interessante - letras boas, melodias engenhosas -, e passei pra algumas cantoras que me procuraram buscando repertório, entre elas a Viviane Godói, que é uma cantora paulistana radicada em Amsterdam que faz uma fusão muito esperta de coco e embolada com eletrônica. Vou gostar de receber seu disco, pode mandar pra rua Barão do Bananal, 734 - Pompéia - Cep 05024 - 000 - São Paulo/SP. Parabéns pelo trabalho, boa sorte!
Heraldo Amaral - Você acredita, conforme especulou Chico César em recente entrevista ao "Página da Música", que a própria indústria fonográfica se cansou de investir e massificar mediocridades e quer se voltar para a legião de bons compositores, instrumentistas e intérpretes que estão à margem da mídia? Você gosta de ouvir e opinar sobre o trabalhos de iniciantes? Queria muito mostrar a você algumas composições minhas! Como fazer?
ZB - Como amante da música popular, torço pra que as gravadoras cada vez mais invistam em novos artistas que venham arejar a cena. Não sei se acredito nesse "cansaço" da indústria, porque essas tais "mediocridades" são muito rentáveis. Ouço muitos trabalhos, recebo muitos demos, sempre rola uma surpresa, há gente boa produzindo música de ponta a ponta no Brasil. Se você quiser me mandar algum material, aí vai o endereço: rua Barão do Bananal, 734 - Pompéia - Cep 05024-000 - São Paulo/SP.
Para adquirir o CD "PetShopMundoCão"
(MZA/Abril Music): www.zecabaleiro.com.br