"Aprendi a registrar as minhas coisas cantando e compondo"

Por S rgio Foga a  

    N o adianta. Tem gente que, al m de esfor o pessoal, tem uma baita estrela que a acompanha. A iluminada em quest o a compositora e int rprete Vanessa da Mata. Vinte e sete anos e mais de 300 m sicas compostas. Apesar disso, ainda n o tem CD pr prio, que deve sair at o pr ximo m s. Mesmo assim, tem trajet ria maior e melhor que muita gente que tem mais de um trabalho registrado em disco. Maria Beth nia j gravou m sica sua. A for a que nunca seca, dela e Chico C sar, ainda virou nome de CD da cantora baiana. Vanessa tamb m cantou ao lado de Beth nia no ano passado, quando a int rprete comemorava seu 25 anivers rio de carreira. Milton Nascimento conheceu Vanessa num jantar em S o Paulo. Ouviu suas m sicas e, na primeira oportunidade, quando apresentava o show "Crooner" na capital paulista, convidou-a para uma participa o ao seu lado. Tem mais: Vanessa j se apresentou com Baden Powell e Daniela Mercury, que tamb m gravou m sica sua. Tem parcerias com Lokua Kanza e Ana Carolina, al m de Chico C sar. J gravou programas importantes de m sica brasileira, como "Ensaio", dirigido por Fernando Faro, e Bem Brasil, da TV Cultura paulista. Enfim, um caminh o de boa sorte e perseveran a, al m da estrela evidente. Uma garota de Mato Grosso  que canta desde que se lembra por gente. Era isso que respondia ao pai, quando este perguntava o que havia aprendido na escola: "Eu cantei". Depois de sair de Alto Gar as, foi com 15 anos para Uberl ndia, em Minas Gerais. Quase tr s anos depois, seguiu para S o Paulo determinada em mostrar suas m sicas. Participou de banda de reggae e conheceu Chico C sar e Swami Jr, importantes elos de sua m sica com o mercado. Prepara-se para lan ar seu primeiro CD, com bastante calma e tranq ilidade, s poss vel em quem sabe o que est fazendo. Uma jovem compositora e cantora senhora de sua hist ria. Conhe a melhor Vanessa da Mata nas pr ximas linhas.

 

P gina da M sica Onde voc nasceu?

Vanessa da Mata Nasci numa cidade chamada Alto Gar as, que fica a 400 quil metros de Cuiab , capital do Mato Grosso. Tem cerca de 8 mil habitantes. Uma cidade pequenininha, no meio do nada. Na minha poca n o tinha nada mesmo, demorava para chegar a pr xima cidade, tipo uns 280 quil metros.

PM Voc nasceu em que ano?

VM Em 1975.

PM E como era a sua fam lia; era grande, tinha muitos irm os?

VM Tr s irm os ao todo, enquanto eu estava por ali. Hoje tenho mais uma irm , chamada Sofia, que tem oito anos. Os outros dois irm os s o meninos e eu sou a mais velha. Minha m e professora de 1 e 2 graus e meu pai fazendeiro, desses tipos bem fortes.

PM De modo geral, como foi a sua inf ncia?

VM Minha inf ncia foi maravilhosa. Onde morava, tem muitos rios: o Araguaia, o Gar as e o Rio Bonito, tudo na mesma cidade.

PM Que lugar privilegiado, hein?

VM Privilegiad ssimo. Tem um monte de cachoeiras. Mas a cidade em si n o t o bonita, como uma cidade tradicional, por exemplo, que tem aqueles casar es lindos. Ou seja, n o tem uma arquitetura legal, mas, em compensa o, na natureza tem de tudo. Hoje em dia tem muita soja, mas na minha poca tinha muito mato, e as cachoeiras todas. Lagoas, lagoas e mais lagoas.

PM bem quente l ?

VM muito quente. N o t o quente como Cuiab , mas fica numa m dia de 30 a 35 .

PM O neg cio era nadar mesmo?

VM A gente ficava o dia inteiro s com os olhos para fora da gua, como jacar (risos).

PM Muita crian a brincando vontade?

VM Muita. Todo mundo brincando bem tranq ilo, sem qualquer tipo de problema. Uma inf ncia feliz, muito feliz.

PM Voc s tem alguma cren a ou religi o?

VM A cidade inteira cat lica...

PM Como quase todo o Brasil...

VM Mas acho que mais do que os outros lugares. Tem muito ga cho, poucos baianos, muitos mineiros. Ent o n o tem candombl , por exemplo, que seria legal ter. N o tem budismo. A afina o fica entre os ga chos, os ndios, que s o poucos naquela regi o, e os mineiros. mais cat lico mesmo.

PM Predominam os mineiros por l ?

VM Predominam os ga chos hoje em dia. Tem festa do CTG (Centro de Tradi es Ga chas), por exemplo.

PM Porque ser que tantos ga chos foram para l ?

VM Por causa da soja, eu acho. O Mato Grosso hoje o maior produtor de soja do mundo. Mato Grosso e Paran , mas primeiro o Mato Grosso. Mas sobre a religi o fui criada na igreja cat lica. Quando tinha uns 9 ou 10 anos, eu j andava contestando um pouco algumas coisas. J n o ia tanto igreja. No come o fui uma cat lica que acompanhava e ia missa todos os domingos. Ia com a minha av , que, ao mesmo tempo, era uma benzedeira, tinha medo de esp ritos, era toda m stica. Isso era um pouco contrastante. Ela tinha medo de esp ritos, embora achasse que eles n o existiam, pela influ ncia da igreja cat lica, mas via sempre. Tinha um qu esp rita na fam lia, que, hoje, pensando bem, acho que era muito mais forte do que a gente imaginava. Ela antevia as mortes dos familiares todos. Tinha muitos sonhos, uma pessoa muito forte. Ent o, a gente acabava sendo um pouco diferente de todas essas id ias cat licas.

PM E quais s o as suas primeiras lembran as de m sica?

VM Eu me lembro de coisinhas que eu inventava, frases, e at me lembro de uma m sica que tinha uma primeira parte e depois at um refr ozinho, que era horr vel (risos). Isso quando eu era bem crian a. Devia ter uns 6 ou 7 anos. Saiu assim de brincadeira. Para mim era uma coisa muito f cil, que n o precisava estudar, nem nada, e que n o era levada a s rio pelo meu pai. Ele queria que eu fizesse medicina, que casasse e tivesse os filhos logo, sabe? Ent o, n o houve um incentivo logo no come o. Eu ia compondo s quando "vinha" e a nem me lembro, porque n o registrava. Muita coisa se perdeu at os meus 20 anos. Porque tamb m da comecei a registrar e levar um pouco mais a s rio. Al m de mostrar s pessoas certas. Afinal, antes, sempre mostrava para algu m que gostava de m sica sertaneja, por exemplo, ou de pagode mais popular. N o rolava um retorno legal.

PM O que voc se lembra de escutar?

VM Eu ouvia de tudo. Mas esse de tudo na minha poca tinha Tom Jobim, cantoras legais, n o tinha tanta coisa descart vel ainda na m dia. TV, por exemplo, s pegava uma emissora l , que era justamente a Globo. Al m de r dios AM, de Goi nia.

PM Mas no final dos anos 70 e come o dos 80 tinha muito musical legal. A pr pria Clara Nunes, que parece que uma refer ncia para voc , n o?

VM Bom, na verdade, influ ncia mais visual. Eu n o me lembro exatamente da m sica dela. Eu era muito pequena quando ela morreu. Mas a imagem dela era muito forte para mim. Era como se fosse um anjo. Eu fui saber que ela n o era um anjo depois de crescida (risos). E como as imagens eram poucas, dessas cantoras todas, Elis, por exemplo, a gente sempre via as mesmas. Eu vi pouqu ssimas imagens da Elis e fui conhec -la melhor quando tinha uns 23 anos de idade, quando fui me relacionar com pessoas que j tinham a ver com a m sica que eu j estava fazendo.

PM Voc menina tocava algum instrumento?

VM Tentei tocar e entrei numa escola. Mas me ensinaram errado, me ensinaram um m todo errado. Isso me traumatizou e nunca mais quis tocar nada.

PM Ainda na sua cidade?

VM . Isso foi quando eu devia ter uns 11 ou 12 anos. Depois, fui estudar em Uberl ndia, quando tinha 14 anos, j querendo ser cantora.

PM Foi sozinha?

VM Sozinha.

PM Uberl ndia bem longe da sua cidade e de seus pais?

VM Mil e duzentos quil metros.

PM Foi uma decis o sua?

VM Foi uma decis o minha, porque eu queria um presente de anivers rio de 15 anos. Eu j sabia que queria cantar, mas j havia um atrito sobre isso com meu pai. N o s rio, mas ele dizia o que ele achava que eu deveria fazer, e eu j era muito forte nas minhas convic es. Tenho uma fita de quando eu tinha tr s anos, quando estava no jardim de inf ncia, e ele me perguntando o que eu havia aprendido. Eu respondia que tinha aprendido v rias m sicas e cantava, cantava, cantava. Mas ele voltava a perguntar mais especificamente sobre o que eu havia aprendido sobre escrita, por exemplo, e eu respondia novamente que tinha aprendido tais m sicas. Ainda mais pergunta: voc est escrevendo seu nome? N o, eu estou cantando a m sica tal... Quer dizer, sempre foi assim.

PM Ou seja, ele, no papel de pai, querendo saber da sua educa o formal, mas voc j convicta, intuitiva do que ia rolar na sua vida?

VM Minha paix o maior j era cantar. Mas ele ainda insistia que eu deveria ser m dica e eu s repetia que eu ia cantar. Ainda sem saber falar que seria cantora, sabe? Aos 14, ent o, eu precisei falar para ele que ia fazer medicina, mas precisava fazer um colegial forte, se n o eu n o passaria no vestibular. Ent o ele deixou, apoiou, deu uma grana.

PM Onde voc morou em Uberl ndia?

VM Fui morar num pensionato de uma senhora meio chata. Tinha uma disciplina maluca. A gente n o podia sair depois das 21h etc.

PM Foi bem na escola?

VM Olha, eu era muito dispersa. Quando tinha prova, estudava um dia antes, tinha boas notas, mas n o ficava apaixonada. At , sei l , poderia fazer algumas coisas como arquitetura, artes pl sticas, mas optei pela minha voca o. Porque era o que eu achava que era de talento, o que poderia me render, em todos os sentidos, e at me manter mesmo. Eu acho hoje que foi a melhor coisa que fiz.

PM Foi ent o que voc decidiu vir para S o Paulo?

VM Eu comecei a cantar com 15 anos, em Uberl ndia, num lugar chamado Banana Caf , onde eu abria o show para o grupo S Pra Contrariar.

PM Voc j cantava coisas suas?

VM Eu tinha, mas nem me passava pela cabe a mostrar. Eu tocava com m sicos que estudavam h anos, tinha receio do que iam achar.

PM Voc s tinha 15 anos e j tocava com m sicos profissionais, abrindo shows para outros m sicos, que ainda n o deviam ser t o conhecidos, mas, enfim, como voc se colocou?

VM Acho at que por ser um pouco inconseq ente e n o saber direito onde estava. Mais por instinto. Sen o, n o teria chegado hoje aqui. Eu nunca imaginaria que estaria em S o Paulo e tal. Queria vir. Sempre existia uma f , uma inoc ncia, sei l . Ia pensando em fazer m sica e que as pessoas cantassem a minha m sica, que isso fizesse bem para as pessoas, sabe, pequenas coisas que te levam a fazer coisas grandes, lutando por aquilo. Mesmo estando num lugar sem grana, e sem a m nima condi o, mas que v o te levando a acreditar que aquilo vai melhorar. Comecei a cantar pelo prazer de subir num palco.

PM Isso l por 1990?

VM Isso, 90, 91. Para mim existia uma magia de nem saber como se montava uma banda, como todo mundo se reunia. Eu era meio levada pelos impulsos todos da m sica. Pelo bumbo, pela caixa, pela guitarra, pelos acordes todos, pela vida que aquilo tudo me passava e o quanto aquilo me melhorava. Fiquei um ano e meio nessa banda, mais ou menos.

PM E depois voc teve id ia de ir para uma cidade maior ainda, como S o Paulo?

VM . Vim para c com um namorado que at queria casar, mas eu n o estava a fim. Mas por um lado tamb m foi bom porque n o cheguei sozinha. E quando cheguei fui direto para uma banda de reggae de meninas que se chamava Shalla-Bal. Tinha umas meninas que tocavam bem, algumas eram da banda do Scowa e A M fia, a Simone Soul na bateria etc. Todas j com uma certa estrada.

PM Voc era a nica cantora do grupo?

VM , s eu cantava.

PM Durou quanto tempo a banda?

VM Uns tr s anos. Foi uma super experi ncia. Como voz principal, j dava para fazer meus passos, sacar de palco, sacar de composi o tamb m. Eu j fazia MPB, j queria cantar MPB, n o era reggae. Falava para elas.

PM Voc j estava compondo?

VM Compondo quietinha. Esse material meu sumiu de tanto mudar de uma casa para outra. Tinha uma caixa com um monte de fotografias, um monte de documentos at .

PM Tem composi es suas perdidas, ent o? Um dia aparece.

VM Se Deus quiser! Mas depois fiz um teste numa banda de reggae chamada Black Uhuru, jamaicana, uma banda antol gica, super poderosa, tocou com Bob Marley, ele ajudou a fundar a banda e tal. Passaram por aqui, n o tinham uma backing, ouviram o som das Shalla-Bal, que tinha duas m sicas numa colet nea, fizeram um teste e me chamaram. Eu quase fui morar na Jamaica. S n o fui por causa de ci me da outra backing da banda. Hoje eu agrade o o ci me dela. Ela me fez uma urucubaca ali dentro, armou uma briga maluca. A , por ela ter mais tempo de banda e ser casada com o vocalista, acabaram me deixando no Brasil.

PM Sen o voc iria?

VM Sim, estava tudo pronto. Naquele momento iria embora para a Jamaica. Eles estavam querendo me dar a voz principal da banda. Por isso rolou o ci me tamb m. Afinal, ela j estava h mais tempo no grupo. Foi horr vel para mim na poca, um trauma, mas tudo bem.

PM E depois desse epis dio?

VM Fui cantar com uma banda que se chamava Mafu , do Ti o Carvalho, com ritmos brasileiros. Fiquei um ano e pouco com eles. O Gabriel Levy, um dos m sicos da banda, quando me conheceu, quis montar uma banda para mim. Isso ia me dando for a, gente que acreditava no meu trabalho. Nesse meio tempo conheci o Chico C sar. Mas n o conheci assim f cil. Eu ficava ligando, ele estava viajando muito na poca, ou n o tinha tempo. Mas, enfim, consegui mostrar minhas coisas e ele achou muito legais e quis produzir um CD demo. Chamou todos os m sicos: Swami Jr., Simone Soul, Simone Julian e outros.

PM Voc j conhecia alguns deles?

VM A Soul sim. Foi um reencontro bacana. Ela n o conhecia minhas composi es e achou legal tamb m.

PM Nessa altura voc j devia esta mais segura das suas composi es?

VM Nessa poca eu j tinha trabalhado muito. Depois que comecei a mostrar e vi que tinha alguma coisa, eu sentava e varava noites e noites, tentando amadurecer, esclarecer id ias. O que poderia fazer com uma determinada harmonia. Varia es sobre tristeza ou saudade, entre outras coisas.

PM Voc teve algum tipo de forma o, estudou m sica, ou foi mais intuitivo?

VM Acho que, na verdade, n o intuitivo, acho que um m todo seu (meu). 

PM Ouvido tamb m...

VM Muitas m sicas s o. Ou seja, algumas sim, quase inteiras, outras, n o; sai uma ponta, voc tem que direcionar para onde vai, tendo uma raz o que ordena e planeja aquilo. Ent o, fiquei muito tempo varando noites. Estudando muito para esclarecer a letra, tentar colocar do melhor jeito, do jeito que eu achava mais bonito. Sacando estilos. Percebendo o que a vida queria me dizer, o que eu queria falar. V rias coisas. At o Chico (C sar) produzir, eu j tinha as m sicas Viagem e Jo ozinho, que s o essas m sicas que tocam na r dio Eldorado. Esse CD demo foi produzido nessa poca, em 1997. Com quatro m sicas minhas que tocam na Eldorado e na R dio USP. Esse CD iria para uma gravadora que n o rolou, ainda bem, porque eu n o tinha nenhuma maturidade para encarar nada. Tinha aquele pensamento de achar que ia fazer o primeiro show e ou estourava ou n o ia acontecer nada. N o tinha maturidade para saber que o mais importante era conquistar p blico, que a coisa mais dif cil que tem. N o s o as promessas que n o acontecem. Acho que a coisa mais dif cil conquistar um p blico. Furar a barreira da m dia, que para quem vende mais ou quem tem a possibilidade de venda mais r pida. Ou, ent o, voc mostrar que tem qualidade e convencer as pessoas a irem num show seu, numa noite de chuva, por exemplo, ou que elas poderiam fazer outras coisas, e assistirem a uma pessoa que nunca viram, que n o toca muito. Isso eu acho que o mais dif cil. Fui vendo que o melhor caminho era esse mesmo, de ir conquistando, enquanto eu tamb m ia amadurecendo para as coisas irem chegando numa hora onde tudo estivesse mais equilibrado. Seria uma conseq ncia na verdade. Com material pronto. Pronto no sentido de mais amadurecido, mais claro e mais envolvente. Isso automaticamente me traria um p blico mais conivente com aquele trabalho, dentro daquele tamanho, daquela qualidade.

PM Como funciona sua inspira o?

VM muito da vida mesmo, de como voc capta as coisas. Como voc transforma as coisas que voc capta. Acho que tive muitos privil gios na vida. Muitas coisas dif ceis, s vezes, mas que eu n o costumo nem perceber, e amadurecer, deixar para l . Mas outras coisas, como o mato, a floresta toda que eu convivi perto, a minha av , que maravilhosa, meus pais tamb m, mas minha av tem uma super maturidade, muita sabedoria, que n o muito comum. Ela cantava muito, comemorava muito. Tudo e qualquer coisa. O dia, um p r-do-Sol maravilhoso, uma pessoa que chegava, que ela gostava muito, que ela gostava do sorriso da pessoa. Tudo era cantando. Ent o, aprendi a registrar as minhas coisas cantando e compondo. Vira um meio de tato. Voc j n o mais toca, voc j canta. t o autom tico, que, s vezes, eu n o tenho mais meio de sentir, eu j vou gravando. Eu n o tenho um segundo momento. um primeiro, direto. Aproveito aquilo e j fa o, que timo tamb m, mas n o pode ser o tempo todo, porque sen o voc come a a acordar de noite e n o dorme mais. Ou n o tem tempo para tomar caf , ou no avi o que poderia dormir, voc n o dorme. N o estou t o nesse momento ainda, mas de n o conseguir dormir aconteceu v rias vezes.

PM Voc est gravando agora seu CD, tem previs o de quando vai sair?

VM Ainda n o exatamente, mas pode ser que saia ainda em setembro. Estou gravando esse CD h um ano, num momento meu, completamente tranq ilo. Tem m sicas que foram feitas j h algum tempo, outras que foram feitas h muito pouco tempo.

PM Quantas composi es voc j tem? Li que voc tinha umas 250.

VM , esse n mero foi quando o Chico gravou o meu CD demo. N o contei ultimamente, mas deve ter umas trezentas e tantas.

PM O que voc vai colocar no CD?

VM N o est tudo fechado, mas um repert rio onde quase tudo novo. Mas tem A for a que nunca seca, que uma can o muito especial para mim, a Beth nia cantou, concorreu ao Grammy Latino etc.

PM Essa can o marca bem o momento em que voc cruzou o Chico C sar. Da ele enviou a m sica para a Maria Beth nia?

VM Ele mandou quatro m sicas para ela. Dentre elas, estavam A for a que nunca seca mais duas dele e outra dele com outra pessoa. Ela escolhe essa. Foi uma bomba. Uma bomba boa (risos). A eu tive a id ia mesmo que meu trabalho valia a pena. Quer dizer, a m sica concorreu ao Grammy Latino, ao lado de outras de Djavan e de Caetano (Veloso), por exemplo.

PM Nessa oportunidade voc foi para Los Angeles assistir o Grammy, certo? Como foi?

VM Foi, no m nimo, engra ado. Uma mega hist ria. Dezoito mil pessoas dentro de um lugar enorme. Um tapete vermelho gigantesco. "Trinta mil" limusines pretas de "quinze metros".

PM Voc foi sozinha?

VM Fui. Me encontrei com o Chico l . Na verdade, me encontrei com um monte de gente. Reuni pessoas muito boas e outras nem tanto. Mas um encontro musical muito legal. Era uma comemora o. Uma primeira edi o do Grammy Latino.

PM Voc lembra que m sica levou o pr mio?

VM Acho que foi a do Djavan: Eu te devoro.

PM Beth nia ainda gravou outra m sica sua?

VM Gravou e gravou A fonte que nunca seca ao vivo. Depois disso, agora, por ltimo, ela gravou no canto de Dona Sinh , que minha av , com o Caetano. Foi outro presente.

PM E a Daniela Mercury gravou Viagem?

VM Isso. Pelo contato da irm , a V nia Abreu, gravou Viagem.

PM Ou seja, embora ainda seu CD v sair, aconteceram v rios outros reconhecimentos. Al m do Prata da Casa, um projeto importante aqui de S o Paulo, que voc j fez, o programa Ensaio com o Fernando Faro. O Bem Brasil, tamb m da TV Cultura...

VM O Bem Brasil foram duas vezes...

PM O Milton Nascimento te chamou para cantar quando ele veio fazer o Crooner, em S o Paulo. Como pintou esse convite?

VM Ele me conhecia de um jantar para ele, que aconteceu na casa do Guga Stroeter. Eu fui, ele ouviu algumas coisas que o Guga mostrou de um CD demo, gostou muito e ficou com o nome na cabe a. Quando surgiu a oportunidade, ele ent o lembrou do Pedro Camargo, de mim e mais alguns outros nomes.

PM Isso que estrela, hein?

VM (risos) E tem ainda o 25 anivers rio de (carreira) de Maria Beth nia, que fui cantar com ela. Isso foi no Canec o, no Rio, em agosto do ano passado. Eu era a nica pessoa que n o tinha disco gravado. Cantei com ela e com Caetano.

PM Convite dela?

VM Foi, convite dela. Foi demais.

PM Como voc lida com esses momentos de grande emo o? Quer dizer, ir a um jantar com o Milton Nascimento e ele escutar a sua m sica; no Canec o cantar com a Maria Beth nia e com Caetano Veloso.

VM Eu acho que n o pensei muito no nervosismo porque fiquei meio condicionada a me preparar, mas me senti muito emocionada e tinha que me concentrar para n o chorar. Era muita emo o, era demais. E, portanto, por ser muita, eu cheguei num limite que consegui controlar a emo o, que da fui, cantei e consegui curtir. Geralmente quando voc vai cantar assim, com o Milton, por exemplo, que era uma emo o grandiosa, com Beth nia e Caetano tamb m, mas... com o Chico C sar tamb m, que no come o tinha o mesmo n vel de propor o, existia a tend ncia de ter um certo equil brio, mas era mais pela emo o do que pelo curr culo. A emo o de estar com aquelas pessoas que tinham me dado tanto, uma crian a do Mato Grosso que ouviu tanto e se identificava.

PM Quais os nomes da m sica brasileira que foram refer ncias importantes para voc ?

VM Ouvi muito Luiz Gonzaga, tamb m pessoas da cultura regional da minha terra, que foram muito importantes para mim. Folia de Reis, Cururu, Catira, Siriri, Carimb s, que eu ouvi muito, apesar de n o ser dali, mas da Amaz nia. Beth nia tamb m ouvi muito. Milton nem se fala, porque era perto de Minas, ent o sempre tinha os mineiros. Sambas, como Roberto Ribeiro, Almir Guineto. E tamb m ouvi v rios dos caipiras mais tradicionais, como Cascatinha e Inh na, Tonico e Tinoco, entre outros. Ouvi de tudo, m sica brega italiana, o que chegava pela Globo, pelas r dios AM.

PM Voltando um pouco, naquele momento em que fal vamos da emo o de cantar no palco. Voc gosta do palco?

VM Eu adoro o palco depois da terceira m sica (risos). A eu amo. Na primeira fico sem saber se estou ouvindo direito, se estou ouvindo todos os m sicos, se estou tremendo ou se n o estou. Mas quando est na terceira m sica, fica mais gostoso. Sempre rola uma coisa diferente. Com a Beth nia, com o Milton ou com a Daniela Mercury era uma m sica s , n o tinha chance de tremer, eu tinha que cantar. Com a Beth nia e Caetano fui a primeira a entrar, eram 17 convidados, Chico Buarque, Adriana Calcanhotto, Ana Carolina, Chico C sar, Renato Teixeira, Edu Lobo, muita gente e uma grande emo o.

PM Bom, agora voc deve estar mais concentrada no CD, mas voc tamb m vinha fazendo shows?

VM A n o ser essa participa o com a Beth nia, eu n o subo no palco desde julho do ano passado. Eu optei por fazer o disco, me concentrar nele. E tamb m como tem essa coisa de ser compositora, eu me sustentava em cima disso.

PM Por falar em se sustentar, voc consegue se sustentar com a m sica?

VM Hoje em dia, melhor que algum tempo atr s. J entendo como , j administro melhor o neg cio da grana. Eu sou contratada da BMG. Antes mesmo, com A for a que nunca seca, eu tinha ganho uma graninha, procurado pessoas para saber como era. Eu leio e releio contrato.

PM Voc n o tem dificuldade com essa parte burocr tica?

VM Eu tinha dificuldade, mas percebi que precisava saber e melhorar. Porque se n o eu n o ia conseguir me sustentar. Mesmo que tenham essas pessoas que cantam essas m sicas, e algumas m sicas j gravadas, tamb m tem parceria com a Ana Carolina. Tem v rias m sicas tamb m com o Lokua Kanza.

PM Como surgiu a parceria com ele?

VM Aconteceu aqui no Brasil, num festival chamado Todos os Cantos do Mundo, no Sesc Pomp ia, onde cantei com o Baden Powell, outro encontro maravilhoso que aconteceu na minha vida. O Lokua estava cantando com algu m, a gente se encontrou, trocamos os discos. Quer dizer, ele, o disco dele e eu, meu CD que o Chico produziu. Ali s, que o Chico e o Swami Jr. produziram. Um cara que est comigo at hoje, fazendo tudo, tocando, tirando m sicas novas, arranjos etc.

PM Voc falou que contratada pela BMG, mas o disco vai sair pela Sony Music?

VM . Sou contratada pela BMG como compositora e pela Sony, como int rprete.

PM Como compor para voc ?

VM Na verdade, compor tem um aspecto t o encantador que n o chega a ter aquela outra conota o de realidade. tudo t o m gico, tudo t o encantado, tudo t o bom, que tem um aspecto encantador, uma magia, que te deixa num estado que te faz falar: nossa, uma outra camada de vida. Como se tivesse um sobressalto e depois voc ca sse para a realidade e percebesse que s o momentos que podem ser sonhos.

PM A m sica tem esse lugar, ent o, que na verdade a gente n o sabe onde est ?

VM Tem, totalmente. "O poeta um fingidor", j disse o poeta. Mas na verdade n o um fingidor, eu acho. Acho que ele sente demais aquilo, ele inteiro daquilo, mas que n o permanentemente aquilo. Porque depois disso ele volta a ter a imaturidade, ele volta a atingir um estado normal. Mas tem esses choques. Tem uma hora em que estou compondo e sinto que tem uma certa emo o que me atinge, que me deixa inteira de um sentimento, que pode-se chamar de amor. E que outras pessoas conseguem beijando, ou transando, ou ouvindo a m sica. Mas aquilo n o meu o tempo todo. Como se fosse uma coisa kardequiana. Vem, voc escreve sobre aquilo. Est naquela emo o, naquele estado m gico, mas aquela maturidade n o necessariamente sua o tempo todo. Ela te atinge e vai embora. Eu sei como eu atinjo, eu provoco s vezes. No meu caso como um registro de emo o mesmo. Como a minha av fazia.

PM Sua av est viva?

VM Est . Ela tem 77 anos.

PM Super obrigado pela entrevista, Vanessa.

VM Obrigado tamb m. Boa sorte pra voc s!

Site Vanessa da mata: www.avanessadamata.hpg.com.br