Toninho Horta: o rei das harmonias

Por Evanize Sydow  

    Toninho Horta passou por São Paulo no final da semana e deu, em apresentação única no Supremo Musical, um show para ninguém botar defeito. A platéia da casa – que comporta 80 pessoas – se deliciou com interpretações de Beijo partido, Durango kid, Lembrando Hermeto, Diana, De Ton para Tom, além de uma recente composição feita para Guinga, instrumentista com quem dividiu o palco da Sala Funarte, no Rio de Janeiro, no mês passado, regadas pelo bom humor daquele que é considerado um dos maiores guitarristas de sua geração. A boa prosa de Toninho levou ao conhecimento do público paulista que o compositor mineiro fará shows pela Coréia em outubro, se reunirá com seus companheiros de Clube da Esquina em Belo Horizonte no dia 12 de dezembro, comemorando o aniversário da capital mineira, além da satisfação que sentia por tocar e cantar, no dia seguinte (sábado 31), com Flávio Venturini, Lô Borges e Paulinho Carvalho, durante a XX Fampop - Feira Avareense de Música Popular, no interior de São Paulo. Entre a passagem por São Paulo e a volta a Belo Horizonte, Toninho Horta respondeu as perguntas dos leitores da Página da Música, dentro da seção "Outras Palavras". Acompanhe (ao lado de cada pergunta está o nome do leitor que a enviou).

Gilberto Moscovitch, São Paulo - Super dificuldade em conseguir cds seus por aqui e o custo dos importados é quase inviável. Pretende lançar por aqui ou pela Minas Records os "Durango Kid 1e 2", o "Serenade" e o "Foot on the road"? Muito bom te ver em Sampa.

Toninho Horta - Pretendemos lançar todos os meus CDs gravados pelo mundo aqui na Minas Records. Os 2 Cds Durango Kid, por problemas de contrato, são os mais difíceis (diria "impossível") de editar. O "Serenade" e o "Foot On The Road" já estão a caminho. Aguarde-os, e muito obrigado pelo interesse no meu som.

Tete Monti, Pedralva, sul de Minas - Quais serão os próximos lançamentos da Minas Records e quando eles acontecerão? Acontecerá uma distribuição abrangente no Brasil? Espero com ansiedade ver todos os seus CDs (obra maravilhosas) nas prateleiras das lojas brasileiras.

TH - O disco "Toninho Horta" de 1980 será lançado no fim do mês de setembro. Como o interesse de discos de bom gosto é limitado às lojas especializadas, estes CDs irão pra todo o Brasil, somente para estas lojas. Valeu pela apreciação do meu trabalho. Boa Sorte!

Mariko Aimoto, do Japão - Mais de um ano e meio se passou desde o lançamento do CD "From Ton to Tom" pelo selo Minas Records, além dos CDs "Quadros Modernos", "From Belo to Seoul" e "O Som Instrumental de Minas". Como você está sentindo a situação de seu selo no mercado? Você acha que alguma coisa mudou? Como vai o projeto de levar toda a sua discografia para o Brasil? Ouvi dizer que seu próximo projeto é um álbum duplo. Como vai este projeto? Você tem um repertório tão lindo com letras de Fernando Brant e Ronaldo Bastos, como Manuel, o Audaz, Diana, Bons amigos e Serenade. Planeja compor novamente com eles? Você sempre faz workshops pelo Brasil. O que gostaria de passar para seus alunos, além dos seus conhecimentos técnicos musicais? Estão sendo comemorados os 30 anos do Clube da Esquina. Você pretende fazer algum projeto especial, além de tocar com parceiros em shows?

TH - Olá Mariko. Bom ouvir notícias suas. No Brasil, a música instrumental está limitada a chegar as pessoas através de poucos projetos de shows e festivais de jazz. Não existe distribuidora. Cada artista independente tem que vender o seu próprio CD em shows e enviar para as lojas especializadas, que não são muitas. O selo Minas Records tem tido boa aceitação pela qualidade dos CDs lançados. Quando o catálogo ampliar o número de títulos, a distribuição nacional em lojas (incluindo livrarias e supermercados) estará melhor. Já estamos exportando CDs para outros lugares no mundo. O projeto do novo CD duplo será 1 álbum cantado e outro instrumental. Nestes, só terão músicas de minha autoria. As parcerias com Bastos e Brant são das músicas antigas. Mas eu gostaria de compor novas canções com eles... Para meus alunos, gosto de motivá-los a tocar a boa música, mas digo sobre a realidade do panorama mundial, cuja predominante é a descartável. Fiz um show com o Lô e o Flávio em Avaré (SP) com um grande público. Haverá um outro concerto dia 12 de dezembro em BH, com a presença de Milton. Dê um abraço aos meus amigos do Japão. Estou chegando em Tóquio dia 26 de setembro por 5 dias e vou depois tocar em Seoul com Jack Lee. Vamos nos ver! Beijos para você e abraços para o Tatsuia. PS: Minha mãe fez 93 anos dia 1º de setembro. Foi um dia especial!

Ricardo Puga, São Paulo - Estou escrevendo um livro sobre Beto Guedes (você pode conferir na edição de maio deste site a entrevista) e no ano passado conversei com o Paulinho Carvalho, que se refere a ele (Beto) como o rei das obras-primas e a você como o rei das harmonias. Gostaria de saber até que ponto o isolamento geográfico das montanhas influi na composição de vocês e que outros fatores contribuem para que a música de todos vocês mineiros seja assim tão rica e harmoniosa? Espero poder conversarmos em breve a respeito do livro.

TH - Realmente não sei o que existe, o fato é que os compositores de Minas são privilegiados pela música. Por influência dos cânticos do barroco mineiro, a presença da música européia (Espanha e Portugal) na época do ciclo do ouro até o jazz dos anos 50 (pré Clube da Esquina), os nossos compositores se inspiraram para criar suas músicas, além da força enigmática das pedras preciosas e das águas das cachoeiras e rios de Minas.

Gê Tock - Gostaria de saber sua opinião sobre o atual momento na música brasileira, onde inúmeros artistas talentosos não conseguem espaço para mostrar seus trabalhos, uma vez que grande parte da mídia não se interessa em divulgá-los. É deprimente e estarrecedor o volume de lixo que despenca de nossas emissoras de rádio e tv atualmente!

TH - Concordo com você. Mas as pessoas que têm bom gosto vão atrás da boa música e de bons projetos. A gente aqui na Terra dos Pássaros e Minas Records estamos deste lado. Você é um dos nossos. Vamos manter contato. Por acaso você é o tal músico que nos ofereceu uma homenagem em CD? Abraços e boa sorte!

Gabriel Margarido, Piracicaba - Há previsão para o lançamento oficial do songbook de música brasileira que estava em fase de finalização? Já se sabe o preço oficial dele?

TH - O nome "SongBook" significa livro de música. O meu "Livrão" será mais que um SongBook. Será um livro de pesquisa com o maior banco de dados de partituras numa só publicação. Sai até meados de 2003.

Ângelo Castro, Salvador - Ainda não consigo entender a razão de não existir um songbook com suas canções? Não está na hora, não?

TH - O meu livro será mais completo que um SongBook. Haverá partituras das canções e temas instrumentais, transcrição de solos em discos e ainda um método prático de harmonia. Aguarde para o fim do ano que vem. Grato pela atenção. Abraços.

Herialdo, Macapá - Como é ser pouco conhecido no Brasil e idolatrado fora? Há angústia de sua parte por ver a música que você e o Clube da Esquina fazem com tanto respeito e sensibilidade não merecer o respeito proporcional ao seu talento?

TH - Olá Herialdo. Você foi fundo e direto na questão. No Brasil a gente trabalha sério, no que pode. Ainda bem que em outros lugares eles dão mais valor ao que fazemos. Ao mesmo tempo, fica tudo certo, pois o Brasil é um lugar de maior inspiração!

Lucélia Rossi, São Paulo - Seria possível você aparecer em São Paulo num show com Flávio Venturini, Lô Borges, Beto Guedes, Pat Metheny, Milton Nascimento, Fernando Brant, no Parque do Ibirapuera, num domingo à tarde? Tenho muita vontade de revê-los juntos. Adoro as suas canções. Não consigo encontrar o CD From Ton to Tom. Onde podemos comprá-lo?

TH - Este show seria maravilhoso para todos nós. Precisamos de alguém que faça um projeto e consiga o patrocínio. O CD "From Ton To Tom" esgotou no momento. Faça o pedido na Minas Records (minasr@uai.com.br) e você terá o CD próximo do dia 25 de setembro. Grato e um abração.

Elaine Paiva dos Santos - Como foi o seu trabalho ao lado de Elis Regina e Nana Caymmi? Quanto tempo trabalharam juntos?

TH - Ter trabalhado com tantos cantores só me deu felicidade e experiência. Além de Milton, Alaíde, Leny, Gal, Bethânia, Simone e tantos outros, com certeza a Elis e Nana foram umas das cantoras que mais gostei. Com Elis, fiz o disco "Ela" em 1970 e toquei na temporada deste ano por todo o Brasil junto com Novelli, Nelson Ângelo e outros músicos. A Nana é eterna companheira. Gravei vários dos seus discos e me alegro pela coragem que ela tem de gravar minhas melodias. Abraços.

Armando Hesketh, Belém do Pará - Fora o seu trabalho de estudos diários, como você se sente diante de uma mídia sem a menor perspectiva de vangloriar ou até mesmo reconhecer artistas com o seu nível que nunca puderam ter a chance que muitos tiveram? E ainda como você definiria esta praga chamada mídia – até mesmo a net só se interessa por trabalhos que são divulgados de uma forma mais global?

TH - Realmente a palavra mídia é pequena e forte. Nela se resume o que se quer dilvugar e obter resultados imediatos. Mas para se ter mídia você tem que ter dinheiro para divulgá-la, ou poder de penetração: no caso da música, as gravadoras multinacionais e os meios globais dominam o mercado com seus  poluitivos e descartáveis Cds. Saudações aos amigos de Belém.

João do Prado Ferraz de Carvalho - Qual a possibilidade dos discos deste excelente músico saírem em seus país? Me refiro, logicamente, a uma parte da produção que sei que saiu no Japão, por exemplo, mas não aqui.

TH - Caro João, estou tentando licenciar estes Cds produzidos no Japão e em outros países para o meu selo Minas Records. Para quem trabalha independente, é difícil, mas chegamos lá em breve! Obrigado pelo interesse e boa sorte.

Silvio Sousa, Ribeirão Preto - Quais guitarristas o influenciaram e ajudaram a criar o seu estilo? Quais guitarristas você ouve hoje? Quem são, na sua opinião, os grandes guitarristas da nova geração? O que você acha que deveria ser feito para popularizar a música instrumental entre os brasileiros? Em algumas entrevistas citam você como o "gênio da harmonia". Por que você não é reconhecido como um guitarrista de solo?

TH - Acho que sou inflenciado pelo Chiquito Braga, Pedro Matheus e Luizinho, que são de Minas e na adolecência ouvía-os muito! Do jazz, os inspiradores foram Wes Montgomery, Tal Farlow e Barney Kessel. Também fui influenciado por pianistas como o Herbie Hancok e o Luizinho Eça, além de outros jazzistas. Hoje tem muitos músicos bons na guitarra como Juarez Moreira, Beto Lopes, Lula Galvão, Daniel Santiago e tantos outros espalhados pelo Brasil. Acho que o caminho da música instrumental é este mesmo. Mesmo com mercado limitado, você tem que continuar trabalhando a sua música e um dia você chega lá. Por ela não ter letra, sua audiçao fica resumida a ouvintes mais exigentes, portanto, a música instrumental torna-se impopular, pelo menos no Brasil. Lá fora é outra história. Estou perto de fazer um disco só de guitarra solo. Quem sabe a partir daí eu ganho um novo crédito? (risos) Grato e um abraço.

Pierre Dechery, Rio de Janeiro - Você está em cartaz aqui no Rio junto com o Guinga, que, assim como você, é instrumentista e compositor e também transita pelo popular e pelo instrumental com muita naturalidade e talento. Gostaria que você falasse um pouco desse seu encontro com o Guinga e de como você vê a expressividade da música dele em relação à sua. Vocês têm influências em comum?

TH - A temporada com o Guinga foi muito boa e quem viu achou algo de muito especial. Como temos estilos próprios, acredito que as influências também são diferentes. Mas ninguém no Brasil deixou de ter influência do Tom Jobim, por exemplo. Temos expressões próprias. Porém, acho que o meu som é natural, espontâneo e direto na forma melódica e harmônica. O Guinga gosta de trabalhar nos detalhes de arranjo no violão pra acompanhar as melodias que, muitas vezes, é a base para a criação das linhas melódicas. O Guinga é criativo, mas também arquitetônico. Ele é um dos melhores compositores que apareceram nos últimos anos.

 

Contato Toninho Horta: minasr@uai.com.br e  www.aic.se/toninho