Paulinho Nogueira interpreta Chico Buarque
Por Sérgio Fogaça
No país dos violões, Paulinho Nogueira figura como um dos instrumentistas mais importantes do gênero. Sua carreira de honras e méritos só se compara aos maiores nomes do instrumento. Depois de começar em Campinas, sua cidade natal, foi para São Paulo ampliar suas possibilidades. Em 1960, grava seu primeiro LP, "A Voz do Violão". Durante essa década figura em programas importantes de rádio e televisão, muitas vezes ao lado de Baden Powell. Um dos marcos da época foi o programa O Fino da Bossa, da TV Record, onde Paulinho também aparecia ao lado de Rosinha de Valença. Ali surgiram grandes nomes como Elis Regina, Jair Rodrigues, Edu Lobo, Zimbo Trio e Chico Buarque, cujo início de carreira foi acompanhado por Paulinho, que logo se encantou com a impressionante qualidade musical e poética do artista. É dessa época o repertório que o violonista desfila em seu mais recente trabalho, "Chico Buarque – Primeiras Canções", lançamento da gravadora Trama. Como o próprio nome explica, são versões instrumentais das primeiras composições de Chico. Um novo, mas fiel olhar sobre o lado instrumental das obras históricas do famoso letrista. As músicas, além do CD, também poderão ser apreciadas ao vivo a partir de agora. A começar pelo Sesc Pompéia, em São Paulo, nos próximos dias 27 e 28 de julho. Composições como A Banda, Carolina, Olé, Olá, Rosa dos Ventos, Olhos nos Olhos e Roda Viva são interpretadas com maestria e rigor técnico pelas mãos de Paulinho. Uma aula desse eterno professor que já foi mestre de excelentes instrumentistas, como o músico Toquinho, parceiro de Vinícius de Moraes. Mas Paulinho não ficou só no violão. A craviola, instrumento de 12 cordas que o público não se cansa de ver nas mãos da cantora Tetê Espíndola, foi desenhada por ele em 1969. Esse instrumento, que mistura som de viola com cravo, foi exportado para Estados Unidos e Europa. Sobre esses e outros assuntos Paulinho nos conta nesta entrevista.
Página da Música – Por que a idéia de gravar um CD só com músicas do começo da carreira de Chico Buarque?
Paulinho Nogueira – A idéia surgiu de repente, mas tem uma explicação. Eu tive o privilégio de conhecer o Chico bem antes de ele ser famoso. Me lembro, por exemplo, que tinha um show em São Paulo, onde a primeira parte era com artistas novos, desconhecidos e depois entravam os veteranos. Então, o Chico participava. Ele, o Toquinho o Taiguara, uma cantora chamada Ivete participavam da primeira parte e nós, eu, Zimbo Trio e Baden Powell, tocávamos na segunda...
PM – Isso era O Fino da Bossa?
PN – Não, isso foi antes do Fino da Bossa. Era um show produzido pelo Walter Silva, o Pica-Pau.
PM – Foi aproximadamente em que época?
PN – Não sei exatamente, mas foi por volta de 1964 ou 65. Naquela época, através dos ensaios que nós fazíamos conheci as primeiras músicas do Chico, antes dele começar a fazer parcerias. E já gostava do que ouvia. Agora surgiu oportunidade de eu gravar um CD. Eu já tinha conhecimento sobre a gravadora Trama, que está fazendo um trabalho maravilhoso. Entrei em contato com eles e eles acharam a idéia ótima.
PM – Você já foi com essa concepção pronta, de gravar Chico Buarque?
PN – Já fui com a idéia pronta para eles, de gravar as primeiras composições do Chico. Como diz o título do disco.
PM – Aliás, como pude observar, a grande maioria é de composições dos três primeiros discos do Chico, não?
PN – Talvez sejam. Isso, Carolina, Olé, Olá, até A Banda, por exemplo.
PM – A Banda e Olé Olá são do primeiro disco dele, de 1966.
PN – Ah, é? Eu nem sabia. O Chico para mim é uma pessoa especial. Não só um artista especial, mas também uma pessoa especial.
PM – Nesse primeiro momento você conheceu o Chico. E depois você chegou a trabalhar com ele? Fez algum espetáculo?
PN – Não. Eu via o Chico muito raramente. A gente se viu um pouco mais, uma vez, em 1979, quando ele convidou uns amigos para ir para Cuba, para Havana. Eu fui um desses convidados. Eu, o Djavan, a Simone, o Gonzaguinha, o Walter Franco, uma turma boa. Naquela época eu o conheci um pouco melhor. Isso foi durante uns 10 ou 15 dias. Quase nunca mais vi o Chico. Há uns dois anos, fui assistir um show dele. Mas aquela coisa rápida de cumprimentar em camarim.
PM – Este seu CD foi lançado exatamente quando?
PN – Não faz um mês ainda (a entrevista aconteceu no dia 22 de julho)
PM – Ele já escutou esse trabalho?
PN – Aliás, ontem eu tive uma alegria, que há muito tempo eu não tinha. Atendo o telefone e era ele, o Chico. Ele disse que só tinha escutado o CD ontem, porque antes estava em Paris. Ele tem apartamento em Paris. Eu fiquei até emocionado porque ele disse que gostou demais do disco. Para mim, foi um "presente de Natal".
PM – Ele falou de alguma música em especial?
PN – Não, foi de modo geral, ele ficou muito contente. Porque, na verdade, é uma coisa inédita alguém gravar as primeiras composições dele e instrumental. A minha intenção foi essa: valorizar o lado musical do Chico.
PM – Em nenhuma faixa você canta?
PN – Não, eu não ia estragar o disco cantando (risos). Mas eu quis mesmo valorizar o lado musical dele. Porque como poeta e letrista o Chico é super consagrado, com muito merecimento, aliás. Mas muita gente não lembra que a música dele também é muito boa. Olê, Olá é uma obra de arte. Aquela coisa de sair do tom e depois voltar. Harmonicamente é uma beleza.
PM – Já era uma vontade sua de muito tempo, ou foi alguma circunstância do momento?
PN – Não, surgiu agora essa idéia de eu querer gravar mais um CD. A minha gravadora estava numa situação financeira difícil. Eu não quis perder um disco. Porque quando a gravadora não divulga, mata o disco, mesmo que seja um disco bom.
PM – O último foi um disco com o Toquinho, certo?
PN – Pois é. Eu tive até problema com a gravadora, porque foi um disco que nós achamos maravilhoso e não teve divulgação suficiente. Apesar de que ainda está à venda. Agora, a Trama é o contrário. Eles estão fazendo comigo um trabalho que nunca tive em mais de 40 anos de profissão. Estão trabalhando com o Brasil inteiro, enviando o disco, com foto e tudo. Isso estimula melhor a divulgação. Por isso eu quis fazer esse disco lá.
PM – Como foi escolher o repertório dentre tantas canções, apesar de estarem mais concentradas na primeira fase do compositor?
PN – É bom lembrar o seguinte: tem músicas que a gente gosta, mas não cai muito bem instrumentalmente. Por exemplo, uma das músicas mais importantes dele foi Construção. Mas ela não serve para fazer um instrumental solo de violão. Se tivesse uma grande orquestra, arranjadores etc, talvez pudesse. Mas entre as músicas que eu gostava, escolhi aquelas que serviam melhor para fazer instrumental. E acho que deu certo.
PM – O CD tem quase que só o seu violão, com pouquíssimas intervenções de outros instrumentos.
PN – Só em três faixas tem participação de outro músico. Numa, a percussão de João Parahiba e duas faixas com o Teco Cardoso na flauta. Aliás, ele fez uma participação fantástica com a flauta, em Olhos nos Olhos.
PM – Falando agora um pouco de suas influências no violão. Parece que uma das grandes, no seu caso, foi o Garoto (Aníbal Augusto Sardinha, violonista carioca que morreu em 1955). Você acha que ele foi uma das primeiras referências do violão popular no Brasil?
PN – Olha, não tenho certeza absoluta. Por exemplo, referência talvez anterior a dele, mas num estilo completamente diferente, foi o Dilermando Reis. Num estilo bem diferente, bem clássico. Tocava mais choros e valsas. Mas o primeiro que surgiu foi o Catulo da Paixão Cearense...
PM – Ainda no final do século retrasado...
PN – É, ele valorizou muito o violão. Colocou o violão nas altas esferas da sociedade. Porque antes o violão era um instrumento considerado "perigoso". Quem tocava violão era visto como malandro. Então, ele ajudou muito a quebrar esse conceito, ou melhor, preconceito. E a música Abismo de Rosas, do Américo Jacomino (Canhoto), contribuiu muito para isso. Eu digo: violonista que não toca Abismo de Rosas não é violonista.
PM – Você ainda dá aula de violão?
PN – Ainda, sim, mas para quem já tem uma boa base.
PM – Já que estamos falando do violão, eu gostaria também de lembrar que você inventou a craviola...
PN - É, eu não tenho a pretensão de dizer que descobri um instrumento novo. Eu fiz, de certa forma, um violão diferente. Um formato diferente e com uma afinação diferente. Quem fez foi um funcionário do Giannini, ele chamava-se Rômulo. Mas quando levei a idéia para o Giannini, ele achou fantástica e me fez assinar um contrato. Em seguida, a craviola foi exportada para a Alemanha e Estados Unidos. O Luís Bonfá, por exemplo, gravou um LP naquela época, só com a craviola. Isso me deu muita satisfação.
PM – O Bonfá gravou um disco que usou exclusivamente a craviola ou que também incluiu o instrumento?
PN - O disco inteiro é com craviola.
PM – Bem interessante. Pouca gente deve conhecer esse disco, não?
PN – Ele deve ser raro.
PM – Como você teve a idéia de criar esse instrumento?
PN – Eu sempre gostei muito de desenhar. Acho que a craviola nasceu daí. De eu fazer alguma coisa que envolvesse a área das artes plásticas.
PM – Curioso. Quer dizer que o instrumento nasceu através do estímulo da arte gráfica e não exatamente pela sonoridade?
PN – Fiz vários modelos e mostrei para o Giannini. Ele achou que esse projeto era viável. Aí surgiu a craviola. Tem um sobrinho meu, chamado Stênio Mendes, que se especializou bastante na craviola. Já fiz shows com ele. Ele é um craviolista mesmo.
PM – Ele tem disco gravado?
PN – Gravou, no tempo da Phillips. Hoje nem sei mais qual é. As gravadoras vão se misturando muito, a gente nem sabe mais quantas existem.
PM – Dos músicos brasileiros, quem você lembra que usa a craviola com mais freqüência?
PN – A Tetê Espíndola fez a carreira dela toda com a craviola. E ela se acompanha lindamente. Para mim é uma honra que ela use a craviola, porque gosto muito dela. É uma linda composição da voz dela com a craviola.
PM – Você já tinha idéia do tipo de som que ela produziria?
PN – Eu só fui ter essa noção mesmo depois que ela ficou pronta. Como parecia um pouco do som de cravo e um pouco de viola, nasceu o nome evidente. Nos Estados Unidos eles gostaram muito desse nome, caiu bem para eles. A princípio, eles compraram muitas craviolas. Mas a craviola não é um instrumento fácil de tocar, precisa conhecer um pouco. Então não é um instrumento comerciável. Mas durante uma certa época foi.
PM – Antes desta atual fase, desse trabalho mais recente, você vinha se apresentando bastante?
PN – Muito pouco. Sabe por quê? Não é um problema meu, é da própria época que o Brasil atravessa. Aqui prevalece a música de consumo. Infelizmente está assim. Inclusive, patrocinado pelas próprias TVs. Eles geralmente só apresentam música para entretenimento, música para dançar... tem até aquelas mulheres que apelam para um tipo de atração sexual. Então, a música de bom gosto, a música instrumental, principalmente, ficou muito marginalizada. Quer dizer, existe um público certo. Mas a mídia prejudicou muito a música. A própria bossa nova você não ouve mais. Tom Jobim, por exemplo. Graças a Deus ainda tocam muito Elis Regina, que para mim é uma satisfação. É uma pessoa pela qual tive uma admiração especial. Mas você vê: Tom Jobim, Carlos Lira, aquele pessoal fantástico daquela época quase não se ouve mais. Os trios, Zimbo Trio, Tamba Trio, não se ouve. Nesse aspecto, o mercado de trabalho para mim, como para todo esse pessoal, caiu demais. Às vezes parece até que tem uma questão social do país. Eles dizem que o Brasil precisa de divertimento, porque o povo está sofrendo muito. Colocam música para dançar, para divertir, para dar risada. Os programas humorísticos, então, são horrorosos, deprimentes, com raríssimas exceções. Por isso eu não estava quase trabalhando. Agora, após esse disco, está surgindo uma série de oportunidades boas. Inclusive fora daqui.
PM – Além desses dois dias de shows, agora no Sesc Pompéia, tem mais espetáculos agendados?
PN – Tem, mas como não estão confirmados, prefiro não antecipar. Mas as perspectivas são muito boas. Para mim, o ano passado foi muito bom, por um lado. Estive na França e na Suíça. Na França, tive a satisfação de ver vários violonistas franceses que tocavam uma música minha: a Bachianinha nº 1. Por isso, a gente sente que a música brasileira está melhor situada fora do Brasil do que aqui. Mas não é culpa do povo. O que eles ouvem é isso, o que se vai fazer? Eles não conhecem, então não podem participar.
PM – Quer dizer, tem grandes possibilidades de você fazer mais shows, além do Brasil?
PN – Por exemplo, gravei um disco nos Estados Unidos, chamado "Reflections". Só saiu lá. Muito provavelmente devo me apresentar no país. Não digo este ano, porque essas coisas têm de ser feitas com bastante antecedência. Mas no próximo ano está quase certo de eu ir para lá trabalhar esse disco, que está indo muito bem em terras americanas, por sinal.
PM – Esse CD foi lançado quando?
PN – Já faz mais de um ano.
PM – Como surgiu a oportunidade de gravar esse trabalho?
PN – Foi um amigo americano que mora aqui, Rick Udler, foi meu aluno. A idéia partiu dele, que produziu o CD. É muito amigo meu. Acho que foi um dos melhores discos que fiz até hoje. Fizeram um trabalho maravilhoso no encarte, com uma vasta biografia... vou te mostrar (Paulinho mostra um lindo trabalho gráfico com uma gravura de sua autoria na capa e uma extensa biografia com fotos de acervo pessoal do violonista). Ou seja, fizeram um negócio que nunca foi feito no Brasil.
PM – Encontra-se esse CD aqui no país?
PN – Não, só saiu lá. Por isso que depois que passar essa fase do disco com as músicas do Chico eu estou entrando em contato com eles. Mas também estou vendo se a Trama quer lançar esse disco no Brasil.
PM – O pessoal da gravadora Trama é formado por filhos de músicos que você conheceu, conviveu e trabalhou junto, não?
PN – O João Marcelo, filho da Elis, a menina que está cantando agora, também filha da Elis...
PM – A Maria Rita...
PN – Isso, a Maria Rita, também o Pedro Camargo Mariano, filho do César Camargo. Eu queria muito ver a Maria Rita cantar, mas ainda não consegui.
PM – Quantos discos, mais ou menos você tem, Paulinho?
PN – LP tem 26. CD, com este que saiu agora, é o sexto.
PM – Você está compondo?
PN – Eu toco muito, mas estou compondo pouco.
PM – Você toca todos os dias?
PN – Às vezes, não. Não como um cara como o Sebastião Tapajós, por exemplo. Eu ganhei agora uns discos dele onde ele está tocando Radamés (Gnattali) e Guerra-Peixe. Ele deve estudar, sei lá, umas dez horas por dia. Ou o Paulo Belinatti. Eu, não. Faço bem menos que isso. Mas quando tenho uma responsabilidade, como um show ou um disco... se tenho um disco novo, então, eu me atiro.
PM – Você está bastante feliz com esse trabalho?
PN – Estou achando esse disco com músicas do Chico Buarque uma coisa extremamente gratificante. E é um disco simples. Eu procurei não enfeitar o disco. Eu respeitei o jeito que o Chico fez as músicas. Pensei: quero um disco do Chico com a cara dele. E acho que consegui.
Paulinho Nogueira – "Chico Buarque – Primeiras Canções"
Dias 27, às 21h, e 28, às 18h
Sesc Pompéia (Teatro) – Rua Clélia, 93, Pompéia
Tel. (11) 3871-7700
R$ 5,00 a R$ 10,00
Para
adquirir o CD: www.lojatrama.com.br