O bem-aventurado caminho dos independentes

Por Evanize Sydow  

    Hélder Vasconcelos, percussionista do grupo pernambucano Mestre Ambrósio, fez o que muitos artistas estão fazendo: tomou a carreira artística de seu grupo nas mãos. Depois do sucesso do lançamento do primeiro disco independente do conjunto, que vendeu 40 mil cópias, eles seguiram para uma grande gravadora, a Sony Music, e agora voltam à estrada como iniciaram sua trajetória musical. Hélder montou o selo Terreiro Discos para distribuir os trabalhos do Mestre Ambrósio, mas hoje tem mais de 40 títulos em seu catálogo. É pelo selo independente que será distribuído o disco solo de Siba, outro integrante do grupo. Antes de seguir para uma turnê de um mês pelo Japão em agosto com o conjunto, que comemora dez anos em outubro, Hélder concedeu entrevista para a Página da Música e falou da história da Terreiro Discos para a seção Selo de Artista. Acompanhe.    

Página da Música - Por que você resolveu montar o seu selo? Qual é a história da "Terreiro Discos"?

Hélder Vasconcelos - Eu sou do Mestre Ambrósio, que tem três discos. O primeiro e o segundo foram lançados pela Sony, mas o primeiro, inicialmemnte, foi independente. Então, foi como toda a história de um grupo independente que não começa com uma gravadora... A gente estava em um momento bem importante, nos sentindo prontos para gravar e não teve nenhum projeto para gravar, nenhuma gravadora. A gente acabou lançando um disco com um selo de Recife. Esse selo acabou dando um impulso inicial, mas no final a gente teve que tocar este projeto sozinho e eu, pessoalmente, especificamente no grupo, foi quem tocava este projeto. Eu era estudante de engenharia. Eu tinha todo aquele impulso, de certa forma, de um administrador. Então, eu toquei o projeto desse disco e fui aprendendo. Depois de fazê-lo, veio a história de vendê-lo informalmente, de forma totalmente amadora. Eu, pessoalmente, dentro da banda foi quem continuou tocando esse projeto. A gente vai adquirindo experiência. Essa minha vivência de engenharia como estudante me ajudou a ir organizando, tendo essa visão um pouco mais abrangente, organizando o mailing, os contatos com as lojas, o perfil. Mesmo sem querer, eu fui aprendendo. Mas a gente sofreu muito, tinha horas que tinha problemas... Quando entramos na Sony, eu achava que isso ia ser resolvido, só que a Sony não quis pegar este primeiro disco e ele continuou sendo independente. Foi quando eu decidi que ou eu ia esquecer o disco realmente ou... Comecei a elaborar essa coisa de abrir um selo há dois anos. O principal motivo foi ter que estruturar essa coisa do nosso primeiro disco. E tinha uma demanda muito importante.

PM - Quanto vendeu até agora o primeiro disco?

HV - Perto dos 40 mil. É muito significativo e eu, depois de tudo que já tinha feito, resolvi montar esse selo, basicamente para estruturar a venda do primeiro CD do Mestre Ambrósio.

PM - Você falou em três discos. Esses outros dois já foram pela Sony?

HV - Já foram pela Sony.

PM - Eu li que vocês há pouco tempo saíram da Sony e me parece que não estavam muito satisfeitos com o trabalho que a gravadora estava fazendo com vocês. Como foi esse processo? Qual foi a difereança que você sentiu depois que entrou para uma gravadora grande?

HV - O fato de estar numa grande gravadora lhe dá um certo respaldo. Ajuda a circular um pouco melhor nos meios de comunicação, mas a principal diferença é a de você não ter que pensar na elaboração do disco em termos de produção executiva. Essa foi a primeira diferença. A gente gravou o disco tranquilamente. A insatisfação veio no que pode fazer a diferença estar numa grande gravadora que é justamente a divulgação. Você tem um respaldo um pouco melhor na mídia, mas não era uma mídia que estava fechada para a gente. E as portas que a gravadora conseguiu abrir somam, é lógico, mas não justificavam você estar dentro de uma gravadora grande, cedendo os direitos deste fonograma para conquistar o que a gente estava conquistando dentro da gravadora.

PM - A Terreiro Discos tem mais de 40 títulos?

HV - Então, a necessidade de se ter mais títulos é porque é impossível você manter uma estrutura do selo, uma pessoa jurídica, pagando contador, telefone etc só com um título. Eu precisava ter mais. É aí que nasce o perfil do selo que eu montei. A primeira coisa que percebi é que eu tinha que ter mais discos. Que discos seriam esses? O que eu iria fazer? De cara eu não queria fazer um selo para produzir, para gravar ninguém, porque não é um trabalho para o qual eu tenha disponibilidade e nem investimento. Esse selo teria que ser para superar a necessidade do Mestre Ambrósio, que era exatamente distribuir, botar nas lojas e o que eu passei a fazer com outros títulos foi isso. Pensei assim: "Montando a estrutura para distribuir Mestre Ambrósio eu posso distribuir outros." Defini o que eu queria distribuir em primeiro lugar, uma música da qual eu pudesse falar, vender. Vi uma perspectiva de mercado extremamente interessante, exatamente dessa música tradicional. Me espantei quando fui olhar na minha discoteca e vi a quantidade de discos de música tradicional que já existiam. Não precisava estar gravando ninguém. Já existia um monte de disco. Então, fui estruturando.

PM - Como é feita a distribuição?

HV - Eu posso dizer que a estrutura está ainda sendo montada, mas basicamente lojas com alguns representantes. Tem uma pessoa que faz essa distribuição para mim em Recife e nas cidades mais próximas. Eu centralizo essas vendas com ela. Tem uma pessoa em Brasília, outra em Curitiba e aqui em São Paulo.

PM - Você consegue pegar o Brasil todo?

HV - Ainda não.

PM - Quais são os artistas que você distribui?

HV - É importante saber que hoje eu tenho a licença de distribuição exclusiva só com Mestre Ambrósio (o primeiro disco) e um outro grupo de Recife chamado "Chão e Chuveiro". Todos os outros títulos eu pego do fornecedor, alguns são artistas, outros são selos também, para revender para lojistas.

PM - Todos do Estado de Pernambuco?

HV - Não. Tem coisas do Maranhão, do Rio Grande do Norte. Tem coisas de uma associação chamada Cachoeira. E tem um selo de Recife, do qual tenho seis títulos. Chama-se Cavalo Marinho e eu faço essa distribuição com eles. Com a fundação do Rio Grande do Norte eu tenho títulos das tradições de lá. E alguns são direto com os artistas.

PM - Se algum artista se interessa, pode entrar em contato com você para pensar numa distribuição ou é você quem escolhe?

HV - Esses títulos são coisas até que exigem uma reformulação constante porque cada título desse gera relatórios... Estou sempre adaptando de acordo com o meu histórico. Mas no meu catálogo o máximo que eu tenho é 50. Pode ser que no mês seguinte eu só esteja distribuindo 20 ou 25. Estou sempre atualizando esse catálogo. Vou atualizando o que eu consigo oferecer. Hoje, estou trabalhando muito com vendas casadas. Tem alguns discos que eu vendi super bem e que o fornecedor deixou de prensar. Ele tinha aquela tiragem "x", deixou de tirar e eu não tenho como prensar agora. Esse é um dos objetivos do selo. Vou cumprindo esse objetivo até quando eu conseguir manter no mercado discos que acho importantes e que não têm a menor estrutura para ficarem vivos. O projeto daquele disco se fez em uma triagem de 1 ou 2 mil cópias. Ele não terá mais vida de mercado e tal. Se algum selo não fizer isso, é onde eu quero entrar. Mas ainda não tenho capital para pensar em todos os discos que eu quero.

PM - Qual é o próximo disco que você vai distribuir?

HV - Tem um disco que nessa primeira distribuição vai ser pela Terreiro Discos que é do Siba, do Mestre Ambrósio. Sai agora no mês de agosto (primeira quinzena de agosto) e chama-se "Fuloresta do Samba". E um outro disco importante de uma cantora paulista que hoje mora em Recife. Ela acabou de gravar um disco; sai em agosto também. A primeira tiragem quem vai distribuir sou eu. Ela chama-se Renata Rosa.

PM: Qual é a maior dificuldade nessa empreitada?

HV - É ter um capital para prensagem de disco. Se o fornecedor não tem mais, eu sou obrigado a tirar o disco do catálago no mês seguinte. A cada dois meses eu atualizo o catálago. Esse mercado, na minha opinião, tem um perspectiva muito grande, vai crescer e eu acredito muito nisso; o interesse pela música tradicional é irreversível, ele já existe, é uma questão de tempo para chegar numa quantidade maior, mas esse mercado já existe. Como ele ainda é pequeno, uma prensagem demora muito. Eu teria que ter um tempo um pouco maior para poder encarar uma prensagem. O tempo que a fábrica me dá também é curto. E a outra dificuldade são as dimensões do país. Chegar onde as pessoas estão. A demanda é sempre maior. Então, o objetivo é sempre chegar às lojas que estão mais próximas desse perfil.

PM - O grupo Mestre Ambrósio está comemorando dez anos em outubro. Vocês vão fazer alguma coisa especial?

HV - Não. A gente está comemorando, mas não tem nada de especial. Tem uma coisa bem bacana que está acontecendo que é nossa turnê para o Japão, isso é uma coisa que tem cinco anos que vem esse namoro da gente, mas ele só está se concretizando agora. A gente está indo dia 18 de agosto. Vamos ficar um mês, são dez cidades, passando por Tóquio... O grupo está investindo muito nessa renovação individual dos integrantes. Até surgiram alguns boatos de que a gente tinha acabado porque tinha saído da Sony, porque Siba estava gravando um disco solo, mas é exatamente o oposto. Isso são coisas que renovam a vitalidade do grupo. Nesse sentido é um momento bem importante de investimento pessoal. O Siba está gravando um disco solo e eu estou montando um espetáculo meu. O Cassiano também está articulando para a carreira solo. Eu tinha, além do selo, um grupo de bumba-meu-boi. Eu brinco muito com ele. Chama-se Boi Marinho.

 

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