Alexandre Leão - "Minha Palavra"
"Salve Salvador", como já disseram os versos de uma música. Alexandre Leão é mais um soteropolitano bem-vindo em São Paulo. Ele faz parte de um grupo de novos baianos músicos que estão fixando residência na cidade. Antes dele, a capital paulista já havia recebido as cantoras Vânia Abreu e Ione Papas, o grupo Lampirônicos e, mais recentemente, o intérprete e compositor Tito Bahiense, que ficou em segundo lugar na edição vocal do Prêmio Visa de 1999, entre tantos outros. Alexandre é um craque e prova isso com tranqüilidade. "Sempre rindo e sempre cantando", como lembra outro verso de música baiana, neste caso, composta por Gilberto Gil. Ele também já participou do Prêmio Visa, assim como Tito, só que em três edições. Isso mesmo. Foi o único artista do Brasil a conseguir este feito num prêmio tão prestigiado da música popular. Foram as três primeiras, sendo classificado respectivamente como violonista, cantor e compositor. Depois dessa saga, o músico segue determinado mostrando seu primeiro trabalho e já preparando o segundo. "Minha Palavra" começa com a balada Tanto tempo, dele e Manuca Almeida. Dois violões e voz bastam para dar o recado e lembrar que música boa não precisa necessariamente de banda. Mesmo assim, o instrumental do CD é forte e muito bem cuidado. Como na segunda faixa, a canção título Minha palavra, de Alexandre Leão, Ivan Huol e Manuca Almeida, que ainda traz o veterano Gerônimo cantando junto com Alexandre, além de arranjar e fazer a regência dos vocais. A instrumentação só cresce e agora aparecem os metais em Alabê, de Alexandre e Ivan Bastos. Segue com Eu não nasci de calça jeans, também do trio Alexandre Leão, Ivan Huol e Manuca Almeida. A música é como se fosse um suave caminhar, embalado por violinos e um delicado coro feminino ao final. A quinta canção é Não sei o que acontece, só de Alexandre. Uma autêntica bossa nova, lembrando que o autor vem da terra de João Gilberto. Bela. Piano, baixo, bateria e voz. Ainda a próxima canção fica na mesma praia, só que agora também com o acompanhamento de cordas, além de violão, baixo e percussão. A música é Anda, de Alexandre e J. Velloso. Melodia e, mais do que nunca, hora de perceber porque ele foi selecionado também para a versão vocal do Visa. Ainda romântico, da mesma dupla de compositores da anterior vem Trilha turva. Se antes lembramos do intérprete, olha agora o compositor: "mas guardadas/com laços de espinho e flor/vivem esperanças/de dar vida a toda cor". Grande solo de fluguel horn de Joatan Nascimento. A oitava é Quebranto, só de Alexandre. Uma canção que parece circular, com excelente instrumentação também. Um capricho permanente do trabalho. Segue com Canção de março, de Alexandre Leão e Luciano Lima Jr. Quase salsa, ou merengue. Agora, lampejos um pouco mais pop com Eu não estava só, de Alexandre e Manuca Almeida. A participação especial fica por conta da sua conterrânea Vânia Abreu nos vocais. Alho no bolso, novamente do trio Alexandre Leão, Ivan Huol e Manuca Almeida, é a penúltima música do disco. Traz uma improvisação de palavras feitas por Manuca Almeida. O CD termina com Moderno, de Alexandre e Manuca Almeida, dizendo: "o amor está em mim/é que me permite ser moderno". Interessante. O arranjo é quase camerístico. Moderno e eterno. Bem-vindo Alexandre! Lançamento independente. E-mail: alexandre.leao@hydra.com.br (Por Sérgio Fogaça)
Barbatuques - "Corpo do Som"
Tudo começou como uma brincadeira, mas logo se tornou coisa séria. Séria porque a brincadeira veio a se profissionalizar mais tarde, mas o resultado é quase sempre divertido e muito musical. A brincadeira começou com as inspirações de Fernando Barboza, o Barba, quando percebeu que seu corpo poderia ser um instrumento sonoro. Logo viu que isso era um caminho evidente e aprofundou suas pesquisas durante o curso de Música Popular da Unicamp. Depois de uma frutífera parceria com o músico e professor de percussão vocal Stênio Mendes, Fernando fundou o grupo Barbatuques, em 1996. O incentivo do músico Luiz Gayotto, que convidava o grupo para participar de seus shows, também foi fundamental. Desde então, o Barbatuques vem mostrando sua música em shows e neste CD gravado entre 1999 e 2000. Palmas, sapateados, batidas no peito, estalos de dedos, efeitos de voz, vácuos, constituem a base e os elementos fundamentais para as músicas e improvisos espontâneos. No final de 2000 o grupo foi selecionado pelo programa Rumos Itaú Cultural Musical, que mapeava novas tendências musicais pelo país. O CD começa com Barbapapa’s Groove, de Fernando Barba. Uma verdadeira bateria humana, como avisa o próprio encarte do CD, com os integrantes utilizando-se exclusivamente do corpo. Pode-se ouvir vários sons percussivos, além de sons de cuíca e um divertido galo no final. Depois de uma breve passagem pela faixa seguinte, Na tribo, com 21 segundos, feita com improvisações dos integrantes, chegamos a Baião destemperado, também de Fernando. Aqui, os pifes e flautas de Maicira Trevisan se juntam às criativas soluções percussivas do grupo, resultando num delicioso baião. Segue com um tema popular bastante conhecido. O canto da ema, de Ayres Viana, Alventino Cavalcanti e João do Vale e Pra onde vai Valente, de Manezinho Araújo, estão na mesma faixa. O destaque vai para os vocais de Marcelo Pretto, um dos finalistas desta última versão do prêmio Visa, versão intérpretes. Um show de soluções, arranjos e climas. Mais improvisação em Ule ule, marcando as vozes de Leandro Bomfim, Stênio Mendes e Marcelo Pretto. Seguindo viagem, o ouvinte chega em Andando pela África, de Fernando Barba. Instrução: escute com um fone de ouvido e feche os olhos. Também de Fernando Barba, agora vem Do mangue a manga, composta durante numa viagem entre Recife e Natal. As flautas, além de outros instrumentos, dão um molho super anos 70 para a música. Cuidado! A Onça, de Juca do Bolo chega na voz de Tião Carvalho, do grupo Cupuaçu, com resposta em coro feita pelos músicos. Salve as festas de Boi, do Maranhão, até o pescoço nesta faixa. De lá, para a marujada de Minas Gerais e o samba-de-roda da Bahia, na faixa que abriga Peixinhos do mar, arranjada e adaptada por Tavinho Moura e Marinheiro só, adaptada por Caetano Veloso. Agora vem uma espécie de performance tecno-acústica em Num deu pra creditá, a décima canção. Um encontro de tribos imaginárias. Universal. Segue com Capuera trazendo mais improvisações. O CD fecha sublime em A invasão dos monges, composta por Stênio Mendes na craviola – instrumento que seu tio, Paulinho Nogueira, inventou. A sonoridade de influências orientais marca o início de sua pesquisa de recursos vocais, harmônicos e fusão da voz com craviola, como lembra o encarte. A música espontânea, que tanto nos faz falta. A tempo, o grupo Barbatuques é formado no momento por: André Hosoi, André Venegas, Bruno Buarque, Dani Zulu, Flávia Maia, Giba Alves, João Simão, Luiz Gayotto, Lu Horta, Mairah Rocha, Maurício Maas, Renato Epstein, além de Fernando Barba. Percussão em estado bruto! Lançamento independente. Home-page: www.barbatuques.com.br. E-mail: barbatuques@barbatuques.com.br. (Por Sérgio Fogaça)
Juliana Amaral - "Águas Daqui"
O primeiro CD da cantora e compositora Juliana Amaral tem concepção sofisticada. Seja no canto, escolha de repertório ou excelente time de instrumentistas. A espinha dorsal que dá corpo a um dos trabalhos mais bem produzidos dos últimos tempos foi constituída pelas mãos experientes de Luis Felipe Gama e Robertinho Silva, que fizeram, respectivamente, a produção e a co-produção deste CD. O trabalho abre evocando o próprio nome da cantora: Vou ver Juliana, de Dorival Caymmi, de um disco dele de 1972. Depois vem Esfria, de Natan Marques. Típica canção de salão de baile dos bons tempos. Aliás, os bons tempos estão aí, é só procurar. Juliana vem integrando a excelente e brasileiríssima banda Cometa Gafi, que se apresenta às quartas-feiras no Avenida Club, em São Paulo. Segue com a abolerada Revela, de Moacyr Luz e Salgado Maranhão, que caiu super bem na voz da intérprete. Depois vem a ousada Dias de amores, de Luis Felipe Gama. Uma construção poética e musical corajosa do autor. Parece uma daquelas músicas que ganham vida própria e os artistas é que precisam ter competência para segui-la. A quinta faixa é Ararinha azul, de Aleuda, seguida de Mesa farta, da dupla Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito. Ambas com um criativo arranjo de Natan Marques. A releitura da segunda é sublime. Aí vem Samba de roda/Coisa feita. A primeira de domínio público e a segunda de João Bosco, Aldir Blanc e Paulo Emílio. A faixa ainda fecha com Juliana declamando o poema "O amor bate na aorta", de Carlos Drummond de Andrade. Bela junção das obras. E por falar em poesia, o CD continua com Avelã, de Daniel Baker e Carlos Zimbher. Segue com uma das místicas composições da dupla Milton Nascimento e Fernando Brant. A música é Ao que vai nascer, que traz nos vocais, além de Juliana, Paulinho Baptista e Ana Luiza, irmã da cantora e também grande intérprete com trabalho próprio. Tá no sangue. A décima é a primeira composição própria de Juliana no CD. Chama-se Nome do amor. Depois vem o Bolero das estrelas, de Haroldo Oliveira. Como o nome já indica, amor, estrelas e bolero andam juntos. Depois vem Maracafly, de Aleuda, seguida de Meu filho, de Luis Felipe Gama. Doce canção que justifica o tema. Leões de lata, também de Luis Felipe, a décima quarta faixa, repete a saudável parceria entre o arranjo de Luis Felipe Gama e a concepção rítmica de Robertinho Silva, como em várias outras músicas do disco. A próxima é mais uma composta por Juliana Amaral. Cordel vem com menos instrumentos, o que realça ainda mais a letra reflexiva da autora. O CD fecha em alta com Samba da despedida, de Luis Felipe e Juliana Amaral. Fecha como começou, no sentido de ter a participação do Sambacoral Santa Fé, um grupo musical criado e desenvolvido por Luis Felipe Gama numa entidade que abriga e reintegra ex-meninos de rua. Vá ver Juliana, vale a pena. Lançamento Lua Discos. Distribuição MCD World Music. Tel. (11) 3257-9744 ou www.mcd.com.br (Por Sérgio Fogaça)
Marcelo Vianna - "Teu Nome, Pixinguinha"
O cantor e ator Marcelo Vianna é um grande conhecedor da obra de Pixinguinha. Vive pesquisando o acervo desse que é considerado um dos maiores nomes da música brasileira. Na verdade, Marcelo é mais que um simples admirador e estudioso de Pixinguinha. É também neto do compositor. Para esse trabalho, o artista reuniu 14 sambas, choros e valsa para, em alguns casos, apresentar uma releitura e, em outros, mostrar músicas inéditas. A seleção contou com a ajuda de Caio Cezar, além das pesquisas de Hermínio Bello de Carvalho, Sérgio Cabral e do violonista e compositor Guinga. Algumas letras foram feitas mais recentemente, como é o caso das compostas por Paulo César Pinheiro. O CD começa justamente com uma delas. Teu nome, faixa título do disco, conta com a especialíssima participação da cantora Rita Ribeiro, que já vem colhendo os frutos de novos relacionamentos musicais, já que está morando no Rio há pouco mais de um ano. A segunda é Benguelê, de Pixinguinha e Gastão Vianna. Esta música foi apresentada por Clementina de Jesus no célebre show "Rosa de Ouro", de 1965. Segue com Meu sabiá, de Pixinguinha e Paulo César Pinheiro. Mais um desses casos em que a família de Pixinguinha deu a música para Paulo César Pinheiro colocar letra. O resultado é bastante singelo em música e letra. Belo arranjo. Lamento, de Pixinguinha e Vinícius de Moraes, é a quarta faixa. Também com um arranjo bastante interessante, Caio Cezar mudou levemente o andamento da canção, que recebeu um tratamento quase camerístico. Aliás, diga-se, todos os arranjos, exceto em Rosa, além da produção artística e musical do CD, são de Caio Cezar, maior colaborador deste trabalho. A quinta música é Mundo melhor, também de Pixinguinha com Vinícius de Moraes, com participação de Dom Um Romão na bateria. Depois vem Samba de gafieira, de Pixinguinha e Paulo César Pinheiro. O refrão diz: "Que que é bom dançar, samba". E mais samba, agora de partido alto, como sugere a letra. Samba de fato é de Pixinguinha e Cícero de Almeida, lançado inicialmente em 1932. O clássico Rosa, de Pixinguinha e Otávio de Souza, ganhou arranjo e acompanhamento solo do violoncelo de Jaques Morelenbaum. Isso valorizou ainda mais o canto sensível de Marcelo e a letra do autor. Segue com mais uma faixa inédita. A valsa Bianca recebeu letra do espanhol L. Andreoni. Outro grande clássico de Pixinguinha: Carinhoso, com letra de João de Barro, também recebeu um novo tratamento. A décima primeira é quase um ponto de macumba. A também inédita No terreiro de Alibibi, de Pixinguinha e Gastão Vianna, tem a participação de Pedro Luís e A Parede e da Velha Guarda da Mangueira. Depois vem Yaô, também da dupla Pixinguinha e Gastão Vianna. Confirma a predominância da dupla abordar temas afro-brasileiros, como lembra o encarte do CD. A penúltima é Gavião calçudo, de Pixinguinha e Cícero de Almeida, seguida de Patrão prenda seu gado, com a célebre parceria de Pixinguinha, Donga e João da Baiana. Um alegre partido alto, típico do início do século passado. A participação aqui, para fechar o CD com chave de ouro, é da inesquecível voz de João Nogueira. Salve a família Pixinguinha! Lançamento Biscoito Fino. Distribuição Kuarup. Adquira o CD pela parceria Página da Música - Gravadora Kuarup: clique na capa do disco e entre diretamente no site da gravadora. (Por Sérgio Fogaça)
Renato Braz - "Outro Quilombo"
A cativante interpretação do cantor Renato Braz acaba de ganhar mais um importante reconhecimento. Em noite de consagração absoluta de crítica e público, ele conquistou o 5º Prêmio Visa de MPB – edição vocal, no mês passado. Na verdade, Renato já tem uma carreira sólida e coerentíssima apoiada em seus três trabalhos lançados. Sua interpretação é muito maior do que qualquer prêmio que enquadre algum tipo de classificação. De qualquer forma, fica um recado ainda mais explícito para que muito mais gente conheça seu canto. Assim como Dori Caymmi, Edu Lobo e o maestro Nelson Ayres, todos encantados com a expressividade interpretativa de Renato. "Outro Quilombo" é o terceiro trabalho do músico, lançado também pela Atração Fonográfica, como os dois anteriores. Tem Dori, Dorival, Ivan Lins, Chico César, Caetano Veloso e seu grande parceiro, o violonista e compositor Mário Gil, também reconhecido com o 3º lugar na versão compositores do Visa de 2000. Além disso, Renato surpreende e empresta seu canto para Dulcinea, do musical da Broadway "Man of La Mancha" e L’Internacionale, o imponente hino socialista. Mas o CD começa mesmo com a parceria entre Mário Gil e Paulo César Pinheiro, que compuseram justamente Outro Quilombo. O berimbau de Bré anuncia o que está por vir. Na "roda" também estão Sizão Machado, no contrabaixo, Mário Gil, no violão, e o próprio Renato tocando bongô, moringa e caixas. Isso mesmo, ele ainda toca, e muito bem. Para completar o nome dos músicos que costumam acompanhar o cantor, a segunda faixa traz Gerson Oikawa, o China, no violão. A música é Okolofe, um jongo de Wilson Moreira. Renato dedica a canção para Grande Otelo e a poetisa Elisa Lucinda. Segue com Frutos da Terra, de Jurandy da Feira. A brejeira canção traz o acompanhamento das meninas Pâmela Campos e Dayane Karoline, ambas da favela Monte Azul, de São Paulo, onde Renato costuma participar de projetos sociais. Depois vem Crença, de Chico César e Paquito. Purinha, só com violão e voz. O canto em si. A quinta é Quero ficar com você, de Caetano Veloso. Renato colocou sua marca pessoal e inconfundível em canção que antes já havia sido interpretada por Maria Bethânia. A seguir o cantor surpreende e interpreta em francês Dulcinea, de Mitch Leigh e Jacques Brel. A flauta aqui é do virtuoso Teco Cardoso. L’Internationale, de Pierre Degeyter e Eugene Pottier, é a próxima canção. O inebriante vocalise de Renato, fazendo o tema da canção, conversa com o clarinete de outro virtuoso, o grande Nailor "Proveta" Azevedo. De volta às sólidas raízes brasileiras, Renato canta Na ribeira deste rio, de Dori Caymmi e Fernando Pessoa. Mas, claro, a universalidade está em tudo, seja nas palavras de Fernando Pessoa, seja na introdução ainda de Proveta, que faz lembrar o tema anterior. Dori Caymmi participa também cantando e tocando violão. De Ivan Lins e Marina Colasanti, Renato interpreta Acqua Marcia, seguida de Fiz uma viagem, que Dorival Caymmi compôs recolhendo do folclore brasileiro. Aqui, Renato ganha a companhia de Bré, o percussionista, nos vocais. Num dos momentos mais sublimes do CD, Renato canta Segue o teu destino, de Sueli Costa e Ricardo Reis. Emocionante, no mínimo. Como a beleza é recorrente no disco, agora vem a bonita Cruzeiro do sul, dos irmãos Jean e Paulo Garfunkel. "Quem dera as luzes da Via-Láctea/Iluminassem as cabeças/E acendesse um sol em cada pessoa". Para encerrar o trabalho, Renato evoca Gilberto Gil com a música Casinha feliz. Um canto caboclo, de amor e alento, visão e paz: viagem cercada de luz. Renato Braz! Lançamento Atração Fonográfica. Tel. (11) 3872-3553 ou www.atracao.com.br ou atracao@atracao.com.br (Por Sérgio Fogaça)
Rosa Passos - "Azul"
Rosa Passos tem sua importância assegurada pela interpretação e voz. Seu canto é reconhecido mundo afora. Por exemplo, em algum momento, durante este mês, ela estará ou gravando duas faixas no CD do violoncelista Yo-Yo Ma, a convite do próprio, ou participando do Brasil Fest 2002, em Nova York, durante um tributo a Elis Regina, no Lincoln Center. Foi nos Estados Unidos também que ela gravou um álbum em português, "Me and My Heart", especialmente para o mercado americano. Sem contar a paixão que os japoneses nutrem por ela. Pois é, reconhecimentos externos. Mas vamos aumentar as chances do reconhecimento por aqui mesmo. A grande cantora acaba de lançar o disco "Azul", onde gravou canções dos músicos Gilberto Gil, Djavan e João Bosco. Supimpa. Rosa, sempre bastante identificada com o universo mais intimista da bossa nova, expande a voz em músicas, às vezes, mais extrovertidas do universo desses compositores. O CD abre com a, pelo menos aqui, abolerada Desenho de giz, de João Bosco e Abel Silva. Um incrível instrumental acompanha a intérprete. O arranjo desta e de outras faixas é de Proveta, da banda Mantiqueira, cujo naipe de sopros está também em várias músicas. Segue com Djavan. Samurai é a segunda canção, agora com arranjos de Lula Galvão, que também o faz em outras faixas. Depois, o arranjo em Aliás, de Djavan, é da própria Rosa, que divide essa função também em outras faixas, junto com os dois outros arranjadores já citados anteriormente. Suavidade e solo de guitarra de Marcus Teixeira, do quarteto que sempre acompanha Rosa, marcam a canção. Aliás, sempre que pode, Rosa elogia e destaca seus músicos que são bons mesmo. O romantismo ainda impera em Papel machê, de João Bosco e Capinam, seguida de Mancada, de Gilberto Gil, que aparece aqui trazendo a cadência do samba. A sexta música é Ladeira da preguiça, também de Gil. Além do repertório de bossa nova, Rosa também se consagrou cantando músicas de Elis Regina como esta. Fez uma temporada em São Paulo e vai participar desse tributo, no Licoln Center. A seguir vem a faixa título do CD. Em Azul, de Djavan, Lula Galvão concebeu um arranjo mais jazzístico. A oitava canção é Quando o amor acontece, da dupla João Bosco e Abel Silva, uma sinfonia seguida de Açaí, de Djavan. Ainda do mesmo autor, A ilha é para dançar junto, de olhos fechados. O tempo ajuda, são mais de sete minutos de puro deleite. Adiante com Mar de Copacabana, de Gilberto Gil, e Dois pra lá dois pra cá, de João Bosco e Aldir Blanc, outro sucesso eternizado na voz de Elis que Rosa não deixou por menos. Os arranjos de base e de metais são de Proveta e o solo de trompete ficou com Walmir Gil. O CD termina com a oportuna Amor até o fim, de Gilberto Gil. Realmente, uma fase tudo azul de Rosa Passos. Lançamento Velas/Caravelas. Distribuição Sony Music - Tel. 0800-234425. (Por Sérgio Fogaça)
Waldir Azevedo - "Sempre Waldir"
Waldir Azevedo e cavaquinho são sinônimos, como bem lembra Henrique Cazes na apresentação deste CD, que ele também produziu, além de ser um dos solistas. O instrumentista e compositor foi responsável por elevar o cavaquinho à categoria de solista, depois da gravação de Brasileirinho, em 1949. "Sempre Waldir" faz parte da série Sempre, da gravadora Kuarup, que vem mapeando grandes nomes da música brasileira, como Pixinguinha, Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga. O CD traz várias gerações interpretando obras imortais de Waldir Azevedo e provando a sua contemporaneidade e influência sobre os grandes músicos que participam deste trabalho. O disco começa já com a emoção de poder ouvir o violão do genial Rafael Rabello, além do solo de cavaquinho de Henrique Cazes, em gravação de 1987, da música Vê se gostas, de Waldir Azevedo e Otaviano Pitanga. Segue com Carioquinha, só de Waldir, com a dupla mais que perfeita Zé da Velha e Silvério Pontes. Os solos de cavaquinho são divididos entre Márcio Almeida e Ronaldo do Bandolim. A terceira faixa é de um choro não muito conhecido de Waldir, chamado Não há de ser nada, com interpretação de Déo Rian. A próxima é a mais melodiosa Mágoas de cavaquinho, de Waldir Azevedo e Fernando Ribeiro, que foi violonista do conjunto de Jacob do Bandolim. Quase um bolero. Segue com um amigo e contemporâneo de Waldir solando seu acordeon na música Delicado, maior sucesso internacional do instrumentista. Trata-se de Chiquinho do Acordeon, que deu nome a esta música lançada em dezembro de 1950. A sexta faixa traz a "rainha do chorinho" Ademilde Fonseca interpretando Pedacinhos do céu, também em gravação dos anos 50. A música é de Waldir com letra de Miguel Lima. Cinema mudo é a sétima canção do CD. Uma das últimas criações de Waldir, feita em parceria com Klécius Caldas. A interpretação irrepreensível ficou com Valmar Amorim, que chegou a gravar com Waldir. A próxima é Quitandinha, de Waldir Azevedo e Salvador Miceli, com interpretação do jovem Bruno Rian, filho de Déo, intérprete da faixa três. Segue com Choro novo em dó, só de Waldir, excelentemente bem interpretada pelo produtor do CD, Henrique Cazes. Ele já havia gravado este choro no disco "Tocando Waldir Azevedo", de 1990, como parte das homenagens que lembravam os dez anos de morte do autor. Valmar Amorim volta a mostrar sua técnica e sensibilidade em Você, carinho e amor, também só de Waldir. A décima primeira é Sentido, de Waldir, interpretada pelo grande cavaquinista Márcio Almeida. A penúltima canção vem com arranjo arrojado e intempestivo do competente grupo Rabo de Lagartixa. A música é Arrasta pé, em gravação de 1998. Como não poderia deixar de ser, o CD termina com o maior sucesso popular de Waldir Azevedo. Brasileirinho, composta só por ele, ganha dois solos aqui, de Bruno Rian, que depois passa a bola para Márcio Almeida, consagrando a união de gerações em torno do chorinho. Grande reverência ao cavaquinho e a seu maior expoente. Lançamento Kuarup. Adquira o CD pela parceria Página da Música - Gravadora Kuarup: clique na capa do disco e entre diretamente no site da gravadora. (Por Sérgio Fogaça)