"Quero divulgar Minas Gerais no exterior"
"Selo de Artista" traz este mês o músico Toninho Horta, reconhecido internacionalmente como um dos maiores guitarristas dos últimos tempos. Na entrevista, Toninho fala da experiência, dos projetos e lançamentos previstos do seu selo Minas Records, com sede em Belo Horizonte.
Por Evanize Sydow
Áustria, Coréia, Inglaterra, Itália, Holanda, Bélgica, Rússia, Japão, Finlândia, Tailândia, Estados Unidos. Toninho Horta já se apresentou em todos esses países. O mercado exterior o acolheu como um dos melhores guitarristas de sua geração. Elogiado por virtuoses como Pat Metheny, Toninho, mineiro de Belo Horizonte nascido em berço musical, tem 20 CDs na bagagem. O mais recente, "From Ton To Tom", é uma bela homenagem ao Maestro Soberano, Tom Jobim, influência forte e lembrança carinhosa na vida de Toninho. Abaixo você lê trechos da entrevista onde o artista conta sobre o seu selo "Minas Records" – que, inicialmente, se chamaria "Aqui Oh" – e os projetos atuais.
PM - Por quê você decidiu montar o seu próprio selo?
TH - Depois de 30 anos de carreira, com prestígio no Brasil e no exterior, achei que era hora. Morei dez anos em Nova York. Quando cheguei ao Brasil, senti que as gravadoras não estavam abertas para absorver um trabalho como o meu. Isso também acontece com Wagner Tiso, Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal. Mostrei o trabalho do Tributo a Tom Jobim, que é uma produção de mais de US$ 100 mil e não tive retorno à altura. Então, eu disse: "Vou partir para o meu próprio selo". Porque, assim, eu teria controle do que ia acontecer. Tenho controle maior da obra e liberdade de colocar no selo o que eu quiser. Por enquanto, estou fazendo sem parceria. Estamos formando o pessoal. Acredito que em um ano e meio ou dois anos já teremos entre 8 e 10 títulos no mercado. Então, resolvi montar o selo também pelo descaso das grandes gravadoras. E quero divulgar Minas Gerais no exterior.
PM - Há quanto tempo a Minas Records está no mercado?
TH - Há menos de um ano.
PM - Qual é a maior dificuldade nessa empreitada?
TH - O fato de ainda só ter esse meu disco "From Ton To Tom" às vezes faz com que algum lojista de fora do eixo Rio-São Paulo reclame. "Só tem esse disco? Queremos trabalhar com mais...". Mas já estamos trabalhando em várias licenças de outros discos meus e agora de Nicola Stilo, flauta, violão e voz, e Jack Lee, um coreano. A prioridade é o relançamento de meus trabalhos lançados fora do Brasil. Em segundo, gosto muito de música instrumental. Estamos começando a distribuir alguns títulos de intérpretes como Juarez Moreira – um relançamento –, Yuri Poppoff – quase um lançamento pois saiu por um selo independente – e Ezequiel Lima. Em agosto sai o "Quadros Modernos". Quero distribuir os trabalhos do pessoal mineiro instrumental. Distribuir como faz a Eldorado, com o controle de direitos autorais. Para isso, temos feito vários contatos, mas uns dão certo e outros não.
PM - Vocês estão se dedicando ao resgate da obra de seu avô, João Horta, compositor mineiro barroco.
TH - Também estamos fazendo o resgate da música mineira. O da obra de João Horta – para o qual já estamos começando a pesquisar – e um trabalho muito ligado às festas folclóricas. Vamos ter pelo menos seis CDs nessa história da memória. Por exemplo, Sivuca, Raphael Rabello, Altamiro Carrilho, Zimbo Trio.
PM - E o projeto do Livrão da Música Brasileira?
TH - Está quase pronto. São 500 partituras escolhidas a dedo de cerca de 200 compositores brasileiros, pessoas desacreditadas. Estamos fechando esse trabalho para o final desse ano. E o que eu vejo é que poderia fazer mais uns 50 livros como esse.
PM - Qual período compreende?
TH - De Chiquinha Gonzaga para cá. Mais ou menos os últimos cem anos.
PM - E quando surgiu o projeto?
TH - Tive a idéia em 86, mesmo antes de fazer o seminário de música em Ouro Preto. Só em 88 consegui a primeira verba para fazer a pesquisa, as transcrições.
PM - Quantas pessoas estão envolvidas nele?
TH - São sete pessoas mais a estrutura do meu escritório. temos os transcritores, os revisores. Ficamos parados dez anos por falta de verba. depois, no final de 99, com recursos do Fundo Nacional de Cultura, continuamos. O Livrão terá um livro anexo com todas as letras.
PM - Qual é a vantagem em ser artista na hora de abrir um selo?
TH - Ter liberdade para gravar. Quando você faz um selo e tem uma carreira, parte do seu tempo fica para desenvolver o projeto. Você tem que manter um objetivo e isso dá um desgaste. No último ano, me dediquei muito ao selo.
PM - Quais os seus próximos projetos?
TH - São dois CDs. Um de músicas totalmente inéditas e o outro, um álbum duplo. Mas quero me concentrar no "From Ton To Tom". Agora vem um cantor brasileiro que mora na Espanha, Leo Minax, para a gente gravar. "Leo Minax Convida Toninho Horta". E em outubro a TV italiana Rai vem ao Brasil para fazer um especial sobre Tom Jobim e eu vou fazer a intermediação com os artistas ligados ao Tom.
PM - Você pretende gravar outros artistas na Minas Records?
TH - Não. Eu recebo muita fita. Como o cenário da mídia brasileira não representa o melhor da nossa música, talvez eu possa vir a produzir alguns projetos especiais, algumas compilações. De repente, de cantores mineiros que cantem a música dos mineiros como o Clube da Esquina. Mas se eu parar para começar a produzir gente, o meu tempo se esgota.
PM - Como nasceu a idéia dessa homenagem ao Tom Jobim?
TH - A minha amizade com o Tom não era uma coisa tão constante, mas muito carinhosa. Quando ele ia para a América, a gente se via lá. E nos respeitávamos muito. Ele gostava das minhas harmonias. Quando ele morreu, eu estava em Nova York, vindo para o Brasil. Eu vim num avião na frente daquele que trazia o corpo do Tom, mas sem saber que ele havia morrido. Quando cheguei ao Brasil é que eu soube. Quinze dias depois, eu estava em Belo Horizonte, era época de Natal, e eu fiz a música De Ton para Tom. Mas nessa época não tinha intenção de gravar disco. Depois, vários artistas estavam fazendo a sua homenagem a ele. Eu estava no Japão, fiz a proposta de homenagear o Tom para um produtor e fiz o CD. E a Gal adorou participar.
PM - Você participou do Clube da Esquina e, no entanto, parece que a bossa nova tem mais peso em sua carreira.
TH - A bossa nova foi mais uma formação. O Clube da Esquina não foi exatamente uma influência. Foi um canal para veicular Toninho Horta como compositor. Foi uma troca. Eu conhecia o Milton (Nascimento) sete anos antes do Clube da Esquina. Nos anos 70 eu fiz bailes, toquei baião, rumba, bolero. Fiz parte do primeiro show que o Milton fez no Rio com o Som Imaginário. O Milton era uma força ali. E em termos de harmonia eu e o pessoal sempre fomos diferentes. Lô e Beto eram 80% beatlemaníacos. Eu era 80% bossa nova. E antes eu já tinha música gravada por Alaíde Costa, MPB 4, Joyce, Nan Caymmi. Eu sou ideológico. Quero sempre reunir o pessoal do Clube da Esquina, Flavinho, Lô, Beto. É uma pena que não aconteça. Cada um tem seus compromissos e a gente acaba não se reunindo. Mas nós nos damos muito bem.
PM - O Flávio (Venturini) já comentou que 'Beijo partido' foi praticamente feita na garagem da casa dele e que foi uma aula.
TH - É verdade. Flavinho, Beto, Lô... Cheguei a dar aula de música para eles. Eu era mais velho. Sempre ouvi muito jazz. Minha harmonia sempre foi muito avançada, faz uma sofisticação.
PM - E os workshops? Você esteve em Bonito recentemente ministrando aula.
TH - Tenho feito sempre. Aliás, da segunda quinzena de agosto à primeira de setembro eu vou dar um curso aqui em Belo Horizonte. Dependendo da procura, vou fazer de tempos em tempos. Em Bonito foi muito bom. Ali estavam desde roqueiro até... E todo o mundo ficou deslumbrado. Eu conto muito das minhas experiências musicais. Quem foi estava a fim de evoluir musicalmente.
Informações sobre os cursos ministrados por Toninho Horta pelos telefones (31) 3463-6374 e (31) 3461-8623
Toninho Horta acompanhado por Lena Horta (flauta), Yuri Poppof (baixo) e Robertinho Silva (percussão)
7/8, às 20h30
Lona Cultural João Bosco - Rua São Félix, 651, Vista Alegre
R$ 5,00