Na carreira - do canto - e do divino
Por Sérgio Fogaça
O "trem bão" de Minas não se cansa de mandar diamantes para a música brasileira. De Pratápolis, sudoeste mineiro, o Estado fez brotar mais um. Lapidada no berço de uma família na qual reinava grande inquietude cultural, cresceu Consuelo de Paula, cantora, compositora, instrumentista e produtora de seu próprio trabalho. Sua infância foi povoada de festas populares, onde ela pôde acompanhar os congadeiros e as Folias de Reis. Não deu outra. Logo ela mesma já era agente de seu destino musical. Fruto de grande inspiração e muita transpiração, o primeiro CD, "Samba, Seresta e Baião", foi lançado com selo independente em 1998 e relançado pela Dabliú no ano passado. É considerado pela crítica especializada, e principalmente por quem o escuta, como um dos melhores discos de música brasileira da década de 90. Primoroso! Agora, Consuelo prepara seu próximo trabalho, o segundo de uma trilogia que ela pretende apresentar com sua marca pessoal. Um belo exemplo de união cultural urbana e rural. Conheça melhor a cantora nas próximas linhas.
Onde você nasceu?
Pratápolis, uma cidade do sudoeste mineiro. É uma região que fica no interior de Minas, próxima de São Paulo. Perto de Franca e Ribeirão Preto. Uma cidade pequena, com cerca de 10 mil habitantes.
Como foi sua infância em Pratápolis?
Sou filha de Luiz Gonzaga de Paula e Zélia de Paula. Minha família sempre foi muito ligada à cultura brasileira, de uma maneira geral. Minha avó era uma senhora extremamente culta e minha bisavó mais ainda. Ela era uma daquelas pessoas que todo mundo da cidade visitava para aprender alguma coisa. Foram professoras e diretoras de colégio. Todas superbatalhadoras. Minha avó ficou viúva e criou seis filhos homens sozinha. Tinha uma altivez quando falava da cultura brasileira que me encantava muito. Bordava vestidos de bailarina para eu sair em festas da cidade.
Você é filha única?
Não, sou a mais velha. Tenho um irmão e uma irmã. Meu pai era repentista. Reunia-se à noite com as pessoas e ia brincando de fazer repente. Sabe aquelas disputas de versos... Mas era diferente do repente nordestino. Era um repente em cima de canções como Meu limão, meu limoeiro e Vem cabelo loiro, meio parecido com congada, porque o congadeiro também improvisa. Passei minha infância ouvindo essas caixas de congo passando na rua. A cultura popular é muito rica na região inteira. Tem muita congada, moçambique, Folia de Reis. Quando eu era pequena, morria de medo do palhaço da Folia de Reis que vinha assustar as crianças e brincar com elas. Eu era muito ligada a tudo isso. Qualquer manifestação que tinha, fosse na escola ou em qualquer possibilidade que surgia de estar exercendo alguma atividade musical, eu estava participando.
Qual é a origem de sua família?
Tem bastante mistura. Tem espanhol, português, brasileiro, tem um negro na família do meu pai, acho que era meu tataravô. Uma mistura bem brasileira.
Você começou a tocar já na infância?
Lá não havia professor de música. Mas quando eu tinha 6 anos, uma professora de violão se mudou para a cidade e eu chorava de vontade de aprender. Aí eu tive aula com ela por um mês, mas ela foi embora da cidade. Depois disso, aos 13 anos, ganhei um violão de presente dos meus pais. Aliás, meus pais são dançarinos até hoje. Quer dizer, o ritmo está na veia da família. O pai do meu pai é puxador de quadrilha e minha avó era cantora, tinha uma voz muito forte. Enfim, tive um mês de aula de violão com outra pessoa e depois fui tocando sozinha mesmo.
Você também começou a participar de eventos musicais na cidade?
Eu fundei um bloco de Carnaval com 50 mulheres.
Na adolescência?
É, lá pelos 15, 16 anos. Assumi a liderança do bloco e dizia, meio que da minha cabeça, como as meninas deveriam tocar os instrumentos. Chamei um cara para segurar no surdão e eu e a minha irmã no repenique, que era mais difícil de ensinar, é mais intuitivo.
Você se lembra do nome desse bloco?
Chamava-se "Lá vêm elas".
Você se lembra de outro bloco feminino de lá?
Não. Foi o primeiro e único.
Você foi uma Chiquinha Gonzaga de Patrápolis.
Minha mãe dizia: "Aí minha filha, sempre tem que ter as pioneiras". Existiam os blocos de Carnaval, mas eram compostos de pessoas mais velhas. Acho que saímos durante uns quatro anos no Carnaval de lá.
Você morou até que idade em Pratápolis?
Depois que me formei no colegial, saí para estudar farmácia, na Universidade Federal de Ouro Preto. Isso foi por volta de 1981, e fiquei lá até março de 1986. Em Ouro Preto, cantei no teatro e fiz shows em alguns barzinhos. Comecei a ter um certo retorno de como eu era como artista. Coisa que em Pratápolis eu não tinha. Nesses primeiros contatos, principalmente na primeira vez em que cantei no teatro da cidade, sentia até vergonha quando as pessoas vinham falar comigo sobre a minha música.
Nessa época você cantava coisas suas ou de outras pessoas?
Sempre de outras pessoas. Tinha coisas minhas, mas eu só cantava na república em que eu morava. Eu ainda não tinha coragem de mostrar para ninguém. Mas eu levava muito a sério esse namoro com a música, mesmo que ainda não fosse nada muito profissional. Eu me envolvi muito com o Carnaval de lá também. Toco até hoje no "Bloco do Caixão". Sempre fui apaixonada pelo Carnaval de Ouro Preto.
E depois de Ouro Preto?
Depois que me formei, fui morar em Ribeirão Preto e trabalhar com farmácia. Mas não era aquilo que eu queria. Eu achava que não sabia o que eu queria naquela época, mas inconscientemente penso que era estar num lugar onde pudesse ir abandonando a farmácia e me aproximando da música. Enfim, me profissionalizar. Mas aí quando eu cheguei a São Paulo foi uma bênção. Só me acalmei quando cheguei aqui. No final de 1987, mais ou menos.
Como você decidiu vir para São Paulo?
Foi muito intuitivo, mas foi bem legal logo de cara. Quando cheguei, fui para a Praça da Sé, tinha um comício do PT e encontrei muita gente. Depois passei pelo Bixiga, que tinha um clima entre as pessoas que lembrava um pouco o de Ouro Preto. Enfim, senti mais liberdade com tantas opções que a cidade oferece e percebi que poderia ter mais possibilidades sobre o que eu iria fazer. Intuitivamente eu achava que era aqui. Hoje em dia tenho certeza. Não tenho vontade de sair de São Paulo. Comecei a trabalhar com farmácia para poder ir me sustentando aqui. Já em 88, montei um show com Wagner Brandão, Roberto Alves e o Bré ou o Zé Gaspar na percussão. Então, uma vez por ano parecia um parto, ficava preparando um show durante um tempão. Apresentava a cada ano num espaço, como no Vou Vivendo e no Teatro Hall, entre outros.
E a profissão de farmácia, continuava?
Continuava paralelamente. Resolvi largar em 1995, quando fui para Madri. Fiquei um tempo lá, e quando voltei no ano seguinte já comecei a pensar no CD e a definir a questão da estética que eu queria. Nessa altura já estava percebendo que eu tinha algo para ser registrado. Passei um ano fazendo um show com o Mineiro e o Cláudio Duarte, chamado "Samba e Baião". Foi quando comecei a descobrir o que eu queria registrar. Depois entrou o Elson Fernandes. Fui percebendo, enfim, que já tinha algo da minha linguagem para registrar. E nessa altura já estava ficando com a cara final do "Samba, Seresta e Baião". Mas, um pouco antes disso, aqui em São Paulo, fui tendo contato com teatro, canto, um pouco de percussão. Tive muitas trocas que me ajudaram a crescer. As opções de assistir a vários tipos de espetáculos e filmes do mundo todo é uma experiência muito rica. Apesar de que encontrar a minha linguagem foi fincar os pés nas minhas raízes. Só que o fato de estar aqui, já estimula um olhar diferente.
Essa parece ser uma busca fundamental para o artista. Olhar para as suas raízes, não?
É, eu acho. O artista tem de buscar o que é dele. O que ele pode trazer de diferente quando ele olha para o seu ambiente de origem. Isso é universal também.
Como é a formação da banda que toca com você? Os componentes são fixos ou variam?
Assim que eu fiz o disco, tinha uma formação mais próxima daquele trabalho. Chamei o Dino Barioni para fazer os violões comigo. Tinha o Ebster Santos e em alguns shows o Swami Júnior também participou. Isso no início. Depois fiz outra formação com dois músicos de cordas e duas percussões. Para o segundo CD, estou pensando muito no violão de náilon. Então mudei para uma formação que traz um violão de náilon e uma percussão.
Qual a diferença de sonoridade de antes e de agora, quando você está incluindo um violão de náilon?
Na verdade, desde o primeiro CD eu tinha uma trilogia em mente. Trabalhos com estéticas parecidas, com o mesmo olhar e sonoridade. Mas para o segundo eu gostaria de mais transparência ainda, mais sutileza. E, para isso, a sonoridade só do náilon deixa tudo mais transparente. Acho o náilon uma cama ideal para a voz. É o que menos briga com a voz. E a vontade é essa, de fazer um disco mais enxuto e mais assinado ainda. Então, o trabalho deve ser feito com um violonista, eu e a percussão.
Você se considera mais intérprete, compositora ou instrumentista? O que você pensa disso?
Eu não consigo me considerar nada disso em separado. Eu me vejo mais como uma produtora e diretora do meu primeiro trabalho. Houve um momento, no começo, em que eu pensava até em chamar uma cantora para fazer determinadas coisas. Acho que cada pessoa tem seu talento e eu sempre repito que devemos respeitar o talento individual de cada um. Mas existe também as pessoas que têm um talento mais geral, que não são especialistas em nenhum ponto específico. Sou uma pessoa que brinca com a percussão, com o violão, com a letra, com a melodia, que pensa o trabalho, produz, dirige e canta esse trabalho. Mas isso acontece por eu ser uma pessoa que pensa o trabalho como um todo.
Isso deve ser bem instigante para o artista. Pensar e executar o trabalho como um todo é mais completo, não?
Acho muito bom. Facilmente fica uma apropriação autoral, nesse sentido. Mas também tem muito sofrimento, porque é claro que não vou ter tanta facilidade em cada um desses pontos. Eu sou muito exigente comigo mesma. O que achei mais difícil, por exemplo, nesse primeiro disco, foi o momento de estar colocando a minha voz e dirigindo ao mesmo tempo. Às vezes eu queria um olhar de fora. Mas ao mesmo tempo eu gosto de fazer. Tanto é que, quando acabou esse primeiro CD, houve momentos em que eu pensava em não mais fazer sozinha e nem ser independente o segundo trabalho. O fato é que o primeiro foi relançado pela Dabliú e achei que o segundo eu também faria por lá. Mas quando chegou a hora de fazer o segundo, novamente me deu vontade de fazer de forma independente.
Só para relembrar, então, e depois entrarmos no assunto do segundo trabalho: você fez independente o primeiro CD, que foi lançado em 1998, e em 2000 ele foi relançando pela Dabliú? Foi legal para você esse relançamento? Foi um novo "sopro" para o CD?
Foi muito legal para mim esse interesse da parte deles. Foi um gás maior no disco, que sozinho não aconteceria novamente. Possibilitou ao CD viver por mais tempo ainda. É um disco que me dá muita alegria, todo dia tem um contato novo de alguém que escutou pela primeira vez. Diariamente recebo e-mails, uma coisa muito bacana. O disco anda sozinho.
Depois do primeiro você já foi pensando no segundo, já que você havia decidido fazer uma trilogia...
Com o tempo, fui pensando no repertório e ao mesmo tempo também compondo. As composições, na verdade, começaram a surgir mais por causa do primeiro CD. Tem lá, por exemplo, aquela introdução para Portela na avenida, Fitas, que está junto com Folia, aquela adaptação do canto dos congadeiros em Riacho de areia. Enfim, tudo isso já era um começo de composições. O estímulo foi o disco.
O seu próximo CD é mais autoral, no sentido de ter composições suas?
Em princípio, a idéia era fazer um terço de composições minhas, um terço de domínio público e um terço de outros autores. Mas as minhas composições estão tomando um pouco mais de espaço. De outros autores serão duas, eu acho, mais três de domínio público e outras seis minhas.
De qualquer forma é um trabalho que tem uma certa unidade, já que o som que você faz tem inspiração nessas músicas de domínio público?
Sem dúvida. Sinto o trabalho muito ligado a temas, símbolos ou a estética muito ligada a esses tipos de canções. No primeiro CD já se notam coisas do universo da cultura popular, sejam coisas tradicionais, sejam coisas ditas da nossa cultura industrial. Não há diferença quando se escuta o todo, porque a harmonia, a interpretação trazem a música para um universo único. Ou mesmo quando se compara, por exemplo, serestas do início do século com canções contemporâneas de colegas como o Mário Gil. Está provado mesmo que música não tem tempo nem idade, só depende da maneira como você está apresentando.
Qual o seu principal "alimento" para compor?
No começo era sempre uma viagem a Minas. Chegava lá em Minas para descansar no sítio dos meus pais e tinha inspiração para compor. E o outro grande estímulo são as madrugadas, na minha própria casa, em São Paulo mesmo, sozinha, em silêncio. Acontece de sentir uma inquietação, ando para lá e para cá, não sei direito o que é, mas quando me sento para escrever percebo que era uma inspiração. E recentemente os estímulos também acontecem quando vou assistir a alguma coisa muito bacana e que me emociona, acaba sendo um estopim para escrever.
Música e letra, geralmente?
Para esse próximo CD tem duas composições minhas que são música e letra, tem duas parcerias com o Elson Fernandes, em que eu faço só a letra, mais duas em parceria de Cássia Maria, na quais eu participo um pouquinho da melodia e faço a letra. O que vai estar entrando no disco é basicamente isso. Mas tenho umas parcerias com o Ney Couteiro, que inclusive uma ele vai estar colocando num CD que ele vai lançar pelo selo CPC-Umes. Mas também tenho escrito poemas, que futuramente eu penso em lançar.
Como está a produção do CD novo?
Puxa, você pegou um momento bem importante, porque acabei de fechar toda a história. Nesta semana já marquei a pré-produção e estou até emocionada. Hoje ouvi uma canção que era a que faltava e foi superemocionante encontrar a canção.
Você pode adiantar e dizer de quem é a canção?
É de Mário Gil. É quase certo que ela vai estar no CD, pois foi uma canção que chegou agora.
Canções de quem mais você vai ter nesse novo trabalho, embora você já tenha adiantado alguns nomes?
Já faz um tempo que eu já tinha decidido as canções para o disco. Mas tinha espaço para mais duas canções, que eu ficava procurando. É uma canção inédita do Mário. A letra é linda. Tem também três músicas de domínio público.
Canções de onde, por exemplo?
Uma de Alagoas, uma do Maranhão e outra do Rio de Janeiro. Tem uma canção de autores do Pará, além das que eu já citei.
Por ser uma trilogia, você vai dar o mesmo título?
Não. Eu quero achar outro título. Já pensei em vários, mas ainda não decidi qual será.
E vai ser independente?
É engraçado, fico pensando que deve ser igual à gravidez, quando a pessoa acha que não vai ter nunca mais. Eu pensava depois do primeiro que não queria mais fazer sozinha, mas agora já estou louca para fazer assim. Aliás, já fiz a pré-produção de algumas coisas. Já estou vendo foto, arte gráfica, a concepção de alguns arranjos já estão na minha cabeça. Eu chamei o Mário Gil para fazer os violões. A Cássia Maria vai estar nas percussões comigo. E ainda vou convidar mais alguém para participar na percussão. E a Tuca Fernandes vai estar fazendo vocais.
Já está planejado quando entra em estúdio e quando lança o CD?
Na semana que vem eu me reúno com o Mário para fazer um plano de gravação. As canções todas já estão com ele. Se tudo rolar dentro do que estamos pensando, poderíamos até lançar em novembro. Mas é difícil precisar essas coisas. Se não for novembro, deve ficar para março do ano que vem o lançamento oficial.
Você estará fazendo shows neste semestre que se inicia?
O Gereba me chamou para as serestas da Umes, que vão retornar, mas não sei se é em agosto ou setembro. Em 29 de agosto, vou fazer um encontro com o Guelo, no Água Benta. Gosto bastante do trabalho dele e essa vai ser uma oportunidade de a gente conhecer melhor o trabalho um do outro. Estou curiosa.
Consuelo, você sabe me dizer qual foi o ou um dos momentos mais importantes de sua carreira?
Difícil, porque cada um tem um significado diferente. Mas eu acho que simbolicamente o lançamento do primeiro CD foi um momento muito importante. Porque do CD para cá minha carreira mudou. Foi um lançamento no Sesc Ipiranga, em agosto de 1998. Pouco tempo atrás também teve um momento bem especial. Tem uma cidadezinha do sertão da Bahia, chamada São Gabriel, que todo ano faz uma festa e que queria a minha presença. Eles não tinham muita estrutura, mas foram viabilizando a coisa. Você percebe que é um lugar de muita pobreza, de vida dura mesmo. Mas na hora em que eu subi para cantar, eles cantaram comigo todas as músicas, a praça estava cheia, foi muito emocionante. Eles tinham gravado fitas das minhas canções e foram passando um para o outro. Foi lindo. Quer dizer, no meio da dificuldade eu encontrei a esperança. Era um povo de uma cultura musical riquíssima. Porque não eram só músicas do meu CD que eles sabiam, eu cantava coisas que não eram gravadas por mim, de outras pessoas, e eles cantavam tudo. Impressionante. Fiquei emocionada. Que força de vontade desse povo! Eles têm uma fundação cultural que trabalha com as crianças, que canta com as crianças. O nome da Fundação é Culturarte de São Gabriel. Para você ter uma idéia, eles não tinham carro e nem, telefone. Uma fundação sem recursos, numa cidade bem pequenininha e faz uma festa que lota, com rua cheia, um supersom e todo mundo cantando. Eles já fazem esta festa há doze anos e só levam música excelente para aquelas pessoas. Eles têm uma alma cantante viva. Parece que o lugar é um reduto de oposição a ACM. Embora seja mais a força deles de produzir aquilo tudo, eles têm um leve apoio do pessoal de esquerda da Bahia. Fiquei impressionada com a cultura musical deles.
Pulando para um assunto mais abrangente sobre a música, como você está vendo o mercado e a produção de música brasileira no país?
Eu me sinto fazendo parte de uma revolução cultural. Muita gente está fazendo coisas lindas. Nós estamos produzindo à revelia de qualquer coisa. Ninguém tem certeza de espaço, de nada, pelo contrário. Acho que estamos fazendo porque temos de fazer, nós temos esse ofício. O próprio trabalho de vocês é assim, você sabe bem do que estou falando. Infelizmente eu vejo hoje o mundo da seguinte maneira. Não só na minha profissão, mas eu vejo que o sistema em que a gente vive, o capitalista, chegou ao seu máximo no sentido de que o único valor é o próprio capital. Sem nenhum equilíbrio. Isso se reflete na nossa profissão também, claro. A gente só vai ouvir, quando se paga muito para ouvir. É um massacre cultural que a gente vive. Há poucos dias eu estava escutando o Cacá Diegues falar que mais de 90% dos filmes cinematográficos que são vistos no mundo são norte-americanos. E acho que 90% das músicas também. Mesmo nas brasileiras, quando fazem um investimento grande, de jabá em tudo, para que todo mundo ouça, às vezes você percebe um certo domínio norte-americano. Claro que eu adoro um monte de música deles. Acho que tudo tem de ser feito. As influências verdadeiras são bem-vindas, só as impostas me incomodam. Então eu vejo que nós estamos à margem, mas no bom sentido. Pelo menos estamos verdadeiramente fazendo as coisas. A gente faz música que vai crescendo na base do boca-a-boca. Acho que estamos tendo de descobrir esses espaços, por isso que acho que é meio revolução cultural. Estamos tendo de recriar alguma coisa que foi perdida, redescobrir as maneiras e os espaços para a gente poder realmente ser profissional e exercer nosso ofício. Descobrir como viver disso também. Esse é um desafio de todos nós. Acredito que só pelo fato de não estarmos desistindo e estarmos fazendo é uma força que vai andando e que acaba resultando em crescimento. A gente vai encontrando esse público que quer um trabalho legal. Tem um público imenso que vamos encontrando devagar. Mas é um público verdadeiro. Eu costumo dizer que é o caminho do meio, que é difícil. Ninguém quer ficar debaixo da ponte tocando e recolhendo dinheiro com um chapeuzinho, mas também não precisa ter uma agenda de trinta shows por mês. O melhor é poder ser profissional, melhorar a qualidade do que eu faço e do que se faz. Mas estamos reconstruindo esse caminho do meio. Ainda não temos uma estrutura real para isso, mas estamos construindo. Precisa de uma intuição muito clara, uma intuição de coração para que ela vire razão.
Site Consuelo de Paula: www.consuelodepaula.com.br
Consuelo de Paula
29/8, às 21h
Bar Água Benta - Rua Mourato Coelho, 740, São Paulo
Tel (11) 3031-0048
Couvert R$ 10,00