CD's Agosto 2001

Paulo Padilha - "Certeza"

Depois do festejado primeiro trabalho "Cara Legal", Paulo Padilha lança agora o CD "Certeza". A primeira faixa, justamente Certeza é ilusão, é boa de festivais. Alcançou o 2º lugar no Festival de Avaré e o 3º no Festival de Ilha Solteira. Depois vem Mágica. Preste atenção na voz e maneira de cantar de Padilha. É único. Como diz a canção, "é como se jorrasse uma fonte de mel". Vigor e sensibilidade. A fome, a seguir, tem participação de Ivan Vilela na viola caipira. O compositor teve muita habilidade no trato de um tema tão espinhoso. A quarta canção Padilha dedicou a Luiz Melodia. Aquela ginga é um tremendo som. O cantor e arranjador segue de mão dada com a música negra o tempo todo. É sair dançando aos sobressaltos do trompete de Cláudio Faria e a precisão das congas de Ari Colares. A seguir vem a única música do CD que não é de autoria de Padilha: Não vou ficar, de Tim Maia. E por falar em suingue, minha nossa! Bela introdução do baixo acústico de Clara Bastos. Valorizou o alto astral da música. Em Nada sei, a música pedia uma certa singeleza. Pois bem, ganhou. Belo violão de 12 cordas de Webster Santos. Cachorro, a sétima música, tem estrutura de repente e humor guardado em belo arranjo. A marcação do pandeiro é de Guilherme Kastrup. Deverei partir é quase um mantra valorizado pelo berimbau de Ari Colares. A próxima canção, Rasguei o papel, chama a atenção pela letra e a participação especial de Oswaldinho do Acordeon. Juçara, 2º lugar no Festival de Avaré (o homem é bom de Festival mesmo), é Jorge Ben Jor na veia. Aliás, o próprio já admitiu que o trabalho de Paulo Padilha é semelhante ao seu. A nave é a penúltima música. Anuncia a vinda deles... só que a visão do fato "marceânico" é super positiva e brasileira, bem diferente do fatalismo americano. Novela fecha o CD. O final da novela eu não sei, mas o CD é uma festa que não tem hora para terminar. Lançamento Dabliú, Tel (11) 3079-1843 ou www.eldoradodiscos.com.br (Por Sérgio Fogaça)

 

Iva Rothe - "Aluguel de Flores"

O primeiro CD da compositora, cantora e tecladista paraense Iva Rothe vem mostrar o quanto é importante prestarmos atenção em trabalhos fora do eixo Rio-São Paulo. O CD "Aluguel de Flores" é um trabalho estimulante e criativo, cheio de referências universais e autênticas da região da cantora. O disco abre com Ad-Infinitum, de Iva. Fortíssimo, um tremendo batuque africano anuncia o que está por vir. Um octeto vocal resguarda a harmonia. Na primeira manhã, de Alceu Valença, é a próxima canção, marcada por berimbau e guitarra. Todos os instrumentos têm bastante liberdade. Ponto para o arranjo de Iva em parceria com Adelbert. Uma participação especial também é bastante marcante nessa música: a rabeca de Arthur Alves. Depois de mais duas composição também da própria Iva, ela interpreta Um girassol da cor do seu cabelo, de Lô Borges e Marcio Borges. Tudo tem leitura bem própria e a música termina em samba. A percussão de samba é de Bruno Mendes e Feijão. A próxima música composta por Iva, Umatinta, é um dos pontos altos do CD. Aqui a cantora traz uma lenda da sua região, com climas fantásticos no arranjo. Uma linda introdução anuncia Tum-Tá-Tá, de Walter Freitas. O toque do berimbau permeia mais essa canção. Aluguel de flores, também de Iva, é mais "quebradeira", com trompete e bateria saltando da melodia. Depois, a intérprete regravou Curumim, de Djavan, e duas canções dela em parceria com Rui Rothe-Neves, O caminho das pedras e Carrossel. Antes da última música, outro belo momento do disco: Só coração. Um arranjo bem cheio, com marcação de berimbau, marca já registrada das várias canções do CD, e participação do Quarteto da Amazônia. Muito prazer! Lançamento APCE Music. Site Iva Rothe - www.ivarothe.com.br . (Por Sérgio Fogaça)

 

Aggeu Marques - "Quer Saber"

Aqueles que se interessarem por esse CD primeiramente pela participação do cantor Flávio Venturini na música Luz dos meus sonhos, a segunda do disco, vão encontrar aqui muito boas surpresas. De fato, a bonita voz de Venturini dá um colorido especial à letra e música de Aggeu. Mas canções como Numa noite em Liverpool, que tem a bateria forte de Mário Castelo, os teclados de Will Motta e a nunca dispensável participação de Paulinho Carvalho no baixo, é outra que faz muito bem aos ouvidos. Ou então Paz, amor e violão, a homenagem do artista a John Lennon. É bom lembrar que Aggeu Marques é um destacado intérprete de Beatles em Liverpool e também recebe influência direta do Clube da Esquina de Minas Gerais – ele, aliás, é mineiro e conviveu em sua adolescência diretamente com Beto Guedes. Ainda que estas influências estejam claras, pode-se dizer que "Quer Saber" tem cara singular. É o primeiro CD solo de Aggeu, e ele começou muito bem. A música título, primeira faixa, faz a gente querer ouvir mais. Depois vêm Desatando um nó, Manguaça – com todas as características de um hit –, Empty Life, letra e música de Aggeu – o CD, inclusive, é todo de composições dele –, Os três patetas, Renascer e Alma de vinil. Quem gosta de Beatles e Clube da Esquina terá aqui um ótimo representante. Que tem tudo para ganhar o sul. Mais informações sobre o disco www.aggeumarques.com.br (Por Renata Pires

 

Suzana Salles - "As Sílabas"

Nada mais justo que o CD começar com uma composição de Luiz Tatit, que fica sempre muito bem na voz de Suzana. Ela o entende. Sua música e suas sutilezas estão em As sílabas, faixa que também dá título ao CD. Xangô é a segunda, dela e Chico César. Uma fusão e profusão de culturas, na letra e na música. O arranjo é da grande trinca que compõe o CD com a cantora. Trata-se de Chico Saraiva, Lincoln Antonio e André Magalhães. Três excelentes instrumentistas com trabalhos individuais importantíssimos para a música brasileira. O sempre bem-vindo Chico Buarque aparece na terceira faixa, O velho Francisco, que ganha uma bela interpretação de Suzana. Foi boto, sinhá, de Waldemar Henrique e Antonio Tavernard, é um clássico da música brasileira. Como de costume, Suzana mostra a sua versatilidade na língua alemã cantando Kurt Weill e Bertolt Brecht, através da canção Die sieben todsünden. No encarte, a letra está em duas versões, alemão e português. Deliciosa a interpretação de 50 ways to leave your lover, de Paul Simon, que vem a seguir. O CD segue com a inédita Paraíso eu, de Arnaldo Antunes. Na música, Suzana faz da sua voz literalmente um instrumento. A próxima canção é das amigas de som e de fé, Ná Ozzetti e Suzana Salles. La luna è bella brinca com a linguagem, as culturas e os sonhos. O balanço de Paulo Padilha, também comentado nesta seção, está na canção Certeza é ilusão. Depois Suzana faz uma bela leitura de Para ver as meninas, de Paulinho da Viola. O samba passa bem leve. Pianinho. Aliás, pianão se considerarmos a interpretação de Lincoln Antonio. Um leve sopro da vanguarda paulista do início dos anos 80 aparece em Valsa dos olhos costurados, de Lincoln em parceria com Marcelo Mota Monteiro. Suzana vem exatamente dessa estirpe vanguardista. Helena, de Galvão Frade, é para terminar o CD agradecendo tanto bom astral através dessa música carnavalesca. Lançamento Dabliú, Tel (11) 3079-1843/0372 ou www.eldoradodiscos.com.br (Por Sérgio Fogaça)

 

Geraldo Vianna - "...era madrugada "

Violão, contrabaixo e bateria: o suficiente para fazer soar a beleza da música apresentada. "...era madrugada", gravado e mixado no Estúdio Via Sonora, chega ao mercado trazendo a suavidade, sutileza, delicadeza e arte sentimental do violonista e compositor Geraldo Vianna. Recheado de composições próprias, o disco constrói, através dos temas apresentados, um notório espaço que nos transporta ao imaginário. Em Grilos no Campo, uma alegria saltita sob as notas, na medida exata - sentimentos têm seu tempo justo para acontecer. Vamo Vê o Congo convida: é a alma de Minas nas veias de um Geraldo universal. Na faixa título ...era madrugada, gotas de orvalho transcendem as madrugadas, etéreos timbres alcançam o brilho da criação. Geraldo ainda interpreta Ary Barroso, Baden Powell e Vinícius – visivelmente, por suas mãos. (Por Márcia Francisco, contatos mfrancis@uai.com.br. Mais informações sobre o disco www.geraldovianna.com )

 

"Los Trepa & Zomba"

É difícil levar a sério uma banda de blues com esse nome. A propósito, o bom humor norteia as letras deste álbum (todas em português) e a postura desses paulistas, para os quais o blues não precisa ser carrancudo para agradar aos bluseiros que habitam os quatro cantos do planeta. E foi com esta concepção que trabalhou-se todo o processo do CD dos "Los Trepa & Zomba", que se intitulam "o sotaque português do blues". O CD, que soma 12 faixas - todas contendo músicas próprias - traz canções caprichadas com dose cavalar de balanço para nenhum bluseiro de Chicago, Texas ou New Orleans botar defeito. Com tempero especial e muita brasilidade, não abrem mão da boa e velha percussão. Trabalham bem os arranjos, com ênfase na variação de timbres e texturas. Não por acaso são seis instrumentistas (duas guitarras, sax, percussão, baixo e bateria), algo não muito comum no blues nacional. A primeira faixa é a música Difícil, que explora bem todas as variantes instrumentais do blues tradicional. A cara da banda, no entanto, fica entre o blues-rock, o Chicago blues e o rhythm & blues, mas algumas faixas experimentam outras viagens como MPB, por exemplo. Beija flor, a música número oito, é um exemplo. Aliás, uma das cinco faixas do álbum que são instrumentais. O CD ainda traz outras gratas surpresas. Pode-se ainda encontrar nitidamente um toque de latinidade. Esta façanha fica por conta da música Malagueta, sexta faixa do disco, que é instrumental também. Já na segunda música do CD, a guitarra grita. É a vez da música Só pessoas, que conta com uma letra profunda, com apelo à igualdade e a reflexão. No entanto, as coisas não são tão sérias assim, apesar do "papo cabeça", o clima não perde a química de festa e, de novo, a musicalidade da banda arrasta todos que se deixarem levar para o clima festivo e dançante. O CD "Los Trepa & Zomba" finalmente saiu e é digno de figurar em todas as estantes dos aficionados por boa música. É só ter ouvidos para ouvir. O CD já está disponível: Loja Baratos & Afins, na galeria da 24 de Maio ou pelo site da banda, onde, inclusive, pode-se baixar várias músicas, ler as letras e saber um pouco mais da história desses aventureiros que resolveram viver de música e pela música: http://www.lostrepaezomba.hpg.com.br. Mais informações: (11) 9758-4794, com Márcio. (Por Suseli Honório)


João Nogueira - "Através do Espelho"

Este CD é altamente recomendado para os amantes do bom e verdadeiro samba. Mas não é só a estes que "Através do Espelho", reunião da obra de João Nogueira na interpretação de grande nomes da música, vai agradar. Túlio Feliciano conta, em texto sobre o disco, que este era um sonho de João. "O último sonho de João Nogueira foi fazer um grande espetáculo com o conjunto de sua obra e transformá-lo em disco. Desde o final de 99, ele vinha me convidando para dirigir este projeto. Começamos, então, os encontros, reouvimos as canções, trocamos muitas idéias e o espetáculo tomou forma." O disco é aberto com uma bela interpretação de João Bosco para Nó na madeira. Zeca Pagodinho vem na sequência com Do jeito que o rei mandou e Sonho de bamba. A família Nogueira (Gisa, Didu e Diogo Nogueira) brinda o ouvinte com as participações em Xingu (Didu), Clube do samba (Didu  D. Ivone Lara), Meu canto sem paz (Gisa), E lá vou eu, Espelho (Diogo). A marcante voz de D. Ivone Lara volta a aparecer em Súplica (parceria de João com Paulo César Pinheiro). As belíssimas Albatrozes e Batendo a porta ficam ainda melhores na voz inconfundível de Emílio Santiago. O CD ainda conta com as presenças de Beth Carvalho (As forças da natureza e Corrente de aço), Arlindo Cruz & Sombrinha (Alô Madureirs e Mineira) e Carlinhos Vergueiro (Maria do Socorro e Negra luz). E para fechar com chave de ouro, ninguém menos que Chico Buarque emprestando sua voz e sensibilidade à O poder da criação. Lançamento Jam Music. Distribuição Caravelas/Sony - Tel. 0800-234425 (Por Evanize Sydow)

 

Marco Bosco - "Techno Roots"

Este CD é uma verdadeira reunião de constelações. Marco Bosco, após quase 11 anos morando no Japão, volta ao Brasil e reencontra suas raízes em "Techno Roots". É uma espécie de versão techno das músicas do mestre Jackson do Pandeiro. Entre as constelações estão Egberto Gismonti, Dominguinhos, Genival Lacerda, Vicente Barreto e Ulisses Rocha, entre outros. O CD é dividido em temas. Jackson e as mulheres traz a famosa Xote de Copacabana, com Genival Lacerda nos vocais. Em Jackson e os valentes tem Vicente Barreto interpretando Cabo tenório, de Rosival Cavalcanti, e Dominguinhos interpretando Forró do Zé Lagoa, também de Rosival Cavalcanti. Simoninha, filho de Wilson Simonal, também está no CD. É dele a voz em Cool bem natural, de Silvio Anastácio e Marco Bosco. A lembrança do canto indígena está em Kamigami no uta, com a participação de Marlui Miranda. Baião malandro, de Egberto Gismonti, traz a participação do próprio ao piano. Para se ter uma idéia, em gravações ao vivo, Marco já trabalhou com Airto Moreira, Flora Purim, Nina Simone, Caetano Veloso e Leila Pinheiro, entre outros. Lançamento Rainbow Records. Tel. (11) 5543.8908, rainbowcom@uol.com.br ou www.music.co.jp/~m-bosco 

 

Reco Bastos - "Antenando"

Basicamente dançante, o CD "Antenando" de Reco Bastos traz 11 faixas e um remix. Alcalino, de Luis Dillah e Lima Jr., abre o disco. Depois a saudável presença de Luis Melodia. Reco interpreta Salve linda canção sem esperança. A versão é bem dançante e não poderia mesmo ser diferente. Gente não é cor, de Vander Lee, vem com mais balanço para um tema de música negra. Belos solos na guitarra de Fernandes. A quarta música é Ta li la li la li lê, folclore recolhido pela família Alcântara, de João Monlevade. Cafuso, de Sérgio Moreira, mostra que a praia de Reco é mesmo o canto negro. A música se refere à "Angola deixada nas Minas Gerais". Um carimbó floreia Caso Verdade, de Marku Ribas, com participação especial de Chico Lobo e do próprio Marku. Também de Marku Ribas, agora em parceria com Erasmo Carlos, vem Beira D’Água, uma brincadeira com o primeiro time da música brasileira levada num tremendo ritmo caribenho. Na oitava faixa, Reco faz uma releitura de Kid Cavaquinho, de João Bosco e Aldir Blanc, com bastante instrumentação. Mercedes Benz, de Gil Amâncio e Ricardo Aleixo, foi retirada do espetáculo "Quilombos Urbanos", da Cia Será Que? Em Deixa Obá, de Marcelo Diniz e Carlos Bolão, a participação especial fica por conta do Dj "A Coisa". Sin no Brasil, de Wagner Merije, Giuliano Fernández e Reco Bastos fecha o CD, com um som bem "Jota Quest", seguida de um remix da mesma canção. Lançamento Tupiniquim Records. Para adquirir o CD - Tel. (11) 3865-2970. (Por Sérgio Fogaça)

 

Monges Beneditinos do Mosteiro de São Bento - "Cantus Selecti"

O repertório do segundo CD do Coro de Monges Beneditinos do Mosteiro de São Bento baseia-se nas orações mais elevadas da Igreja Católica e na "palavra cantada" dos cantos gregorianos. O canto gregoriano é um exercício diário de louvação do coro, formado por 35 monges. O disco tem produção da cantora Fortuna. "Cantus Selecti" apresenta, em 25 faixas, orações conhecidas, como Pai Nosso, Ave Maria, Credo e Te Deum. O repertório autêntico gregoriano formou-se na Alta Idade Média e foi, inicialmente, influenciado pela música da sinagoga e das igrejas orientais, além de ser transmitido apenas por tradição oral. Pouco a pouco, foi colocado em pergaminho, com o objetivo de ajudar a memória dos cantores, por meio de notações, hoje chamadas "semiológicas". No ano 600, o Papa São Gregório Magno reuniu e sistematizou as diferentes liturgias ocidentais, iniciando o agrupamento de melodias religiosas que, depois, receberam o nome de "canto gregoriano". Foi nos anos 1050 que o monge beneditino Guido d'Arezzo determinou os intervalos e deu nome às notas musicais, extraindo da primeira sílaba de cada verso da primeira estrofe do hino a São João Batista, cantado no dia 24 de junho. Lançamento MCD World Music. Para adquirir o CD, ligue (11) 228-3633.