Um mestre da música reconhecido a tempo

        Respeitar a música brasileira é tomar contato com as obras-primas de Guinga. Daí para a frente é pura emoção poder escutar os cincos Cds já lançados e as poucas oportunidades de shows ao vivo. O compositor e exímio instrumentista acaba de lançar o quinto disco, "Cine Baronesa", sempre em boa companhia. Nas 13 faixas, além de Guinga, somam-se a sensibilidade de artistas como Fátima Guedes, Chico Buarque, Nei Lopes, Proveta, Sérgio Natureza e o inseparável parceiro Aldir Blanc.

        Os quatro Cds anteriores foram lançados ao longo de dez anos. Em 1991, o primeiro, "Simples e Absurdo", com composições de Guinga e letras de Aldir Blanc. Dois anos depois, "Delírio Carioca". Em 1996, "Cheio de Dedos", quando o compositor começou a mostrar mais o seu lado instrumentista, e, depois, "Suíte Leopoldina", todos lançados pela gravadora Velas, que sempre reforça o mérito de privilegiar música brasileira de qualidade.

        Em turnê pelo Brasil mostrando seu último trabalho, Guinga falou para a Página da Música sobre o CD, o processo de criação e as influências musicais mais importantes para a sua inspiração. Acompanhe também a agenda do artista e não perca a oportunidade de vê-lo ao vivo.

Por Sérgio Fogaça

P- Como você situa esse seu último trabalho, o Cine Baronesa, dentro da sua obra. Ele é mais ou menos instrumental que os Cds anteriores?

G- Existe uma situação circunstancial. Acho que tem uma história que venho contando, principalmente nos últimos três trabalhos, que aparecem tanto em forma de canção como instrumental. O lado instrumental, que apareceu mais forte no "Cheio de Dedos", meu terceiro CD, vinha com um propósito de música mais universal. Isso privilegia meu trabalho também no exterior.

P- Quando começa a compor, você já sabe se será um tema instrumental ou uma canção destinada para algum parceiro colocar letra?

G- Acho que 90% da minha produção é pensada para também receber letra, mas nem sempre isso acontece. Assim como o contrário já aconteceu, músicas que tinham letra e foram regravadas por instrumentistas.

P- Eu li numa entrevista que você não costuma nem escrever em partitura e nem gravar quando está compondo uma música sua. Você não acha que isso, por si só, é um incentivo para músicos intuitivos, que não sabem ler música?

G- Pode ser. Eu só fui aprender a ler música com 26 anos de idade. Já era casado, dentista formado e precisava fazer um teste para a Ordem dos Músicos do Brasil. Aí também tomei contato com a música clássica em partitura, e estudar foi muito importante para mim. Mas eu sempre começava a estudar e parava. O compositor sempre andou na frente do instrumentista. Eu compunha intuitivamente. A própria música me dava a inspiração para aprender a tocar cada vez melhor. Minha relação com partitura foi circunstancial, mas é também um bom relacionamento. Claro que quanto mais se aprende, melhor. Também é importante o cara estudar.

P- A sua notoriedade vem aumentando dia a dia no cenário musical. Isso te incentiva a produzir mais?

G- Acho que tudo na vida acontece a partir de estímulos. Quanto mais se exercita uma coisa, mais você cresce nela. Eu me sinto ainda muito bem, tenho o mesmo fogo da juventude com relação a inspiração. Sou viciado em ouvir música, ela me engravida, e o que se gera, evidentemente, é mais música.

P- Sei que as suas influências musicais são muitas, mas você poderia citar algumas?

G- Acho que a gente precisaria viver mais uns 70 anos para poder admirar toda a música boa que tem no mundo. O primeiro compositor que eu tenho que citar é Villa-Lobos. Ele é um dos maiores gênios da humanidade. É o sabor da música brasileira. Daí começa uma lista infindável de grandes nomes como Tom Jobim, Chico Buarque, Hermeto Pascoal, Pixinguinha, Hélio Delmiro, Jacó do Bandolim, os violonistas mineiros como Juarez Moreira e Toninho Horta, descendentes de uma escola que começou com o grande Chiquito Braga, que criou uma característica mineira dentro da música instrumental brasileira. Entre tantos outros ainda posso citar Dominguinhos, Paulinho da Viola, Eduardo Gudin, Lupicínio Rodrigues, Milton Nascimento. Como eu te disse, ficaríamos aqui horas. O importante é descobrir por si só; gente não falta.

P- Todos eles acabam tendo alguma ligação pra você?

G- Claro, e é fácil de perceber. Vê-se com clareza as coisas do Noel em Chico Buarque, de Villa-Lobos em Tom Jobim ou mesmo de Debussy em Tom. Agora o grande talento desenvolve um movimento próprio, como é o caso de Chico, Tom e tantos outros. Veja as composições populares do Chico. Ele é sem dúvida um dos melhores do mundo nessa habilidade.

P- Como surgiu a idéia da música título do seu último CD?

G- Essa música já existia há uns quatro anos mas não tinha título. A inspiração foi muito bonita. Certa vez estava na casa do Sérgio Mendes e vi o Thiago, filho dele, que era pequeno na época, repetir umas notas que eram tocadas no piano. Isso me emocionou. Acontece que quando compus a música eu estava assistindo a um filme, então associei essas emoções com o cinema.

Guinga

22/04 – Universidade Federal de São Carlos, SP

23/04 – Sesc Paulista, SP

24/04 – Sesc Santo Amaro, SP

25/04 – Sesc São José dos Campos, SP

26/04 – Parque das Ruínas, RJ