Selo de
Artista > Cláudio Jorge
"A produção independente é a verdadeira indústria
nacional do disco"
Por Sérgio
Fogaça

O samba é ou não a nossa nobreza? E por que será que ele recebe
tão pouca atenção em nosso país? Cansado de só tentar responder
a essa e outras perguntas, um grupo de apaixonados pelo samba
resolveu colocar a mão na massa. Com ingredientes da melhor
qualidade, nasceu o selo Carioca Discos, que dedica sua produção
exclusivamente ao samba carioca. Fundado, entre outros, pelo grande
violonista e compositor Cláudio Jorge, o selo vem lançando no
mercado especiarias dignas dos melhores exemplos do samba. Primeiro
foi lançado "Coisa de Chefe", do próprio Cláudio, que
foi indicado ao Grammy Latino de 2002 como melhor disco de samba. Depois,
um verdadeiro tratado, o CD "Os Meninos do Rio", com nomes
fundamentais para a história do samba, como Dona Ivone Lara,
Monarco, Elton Medeiros, Baianinho e Nelson Sargento, só para citar
alguns. Esse também foi reconhecido como Melhor Projeto Especial do
Prêmio Caras de 2002, logo após o seu lançamento. Mas eles não
pararam por aí. Já em catálogo tem "O Samba das Rodas",
com Gallotti, "Primeira Dama", com o pianista, compositor
e arranjador Leandro Braga interpretando – e valorizando – as
possibilidades harmônicas oferecidas pela obra de Dona Ivone Lara.
Mais recentemente, neste último mês de maio, foram lançadas ainda
duas reedições de discos de Nei Lopes, "Negro Mesmo" e
"Canto Banto", além do "Trio Calafrio", que faz
justiça gravando os grandes sambistas Luiz Grande, Barbeirinho e
Marcos Diniz. Para este ano ainda a gravadora promete pelo menos
mais dois títulos, um com Luiz Carlos da Vila e o novo CD de
Cláudio Jorge. Foi exatamente Cláudio que conversou com a gente
sobre o selo. Um dos mais requisitados violonistas do samba, o
músico é também excelente compositor e tem parcerias com artistas
como Martinho da Vila, Cartola, João Nogueira, Nei Lopes, Ivan Lins
e Aldir Blanc, entre outros. O gingado e a precisão de seu violão
já acompanharam nomes como Ismael Silva, Clementina de Jesus e
Sivuca, com quem viajou por países da Europa, além de Japão,
Estados Unidos e África. Com o músico Sérgio Mendes, gravou o
disco "Brasileiro", que levou um Grammy em 1993. Um
verdadeiro bamba, ou seja, uma autoridade quando se fala em samba.
Acompanhe a entrevista em que Cláudio Jorge fala do selo, de samba
e do mercado da música brasileira.
Página da Música –
Como e por que nasceu o selo Carioca Discos?
Cláudio Jorge – Esse era um
sonho que eu alimentava há algum tempo de ter um selo próprio. E
esse pensamento coincidiu com o de outros parceiros. Na época em
que o selo foi fundado, há uns três anos, os fundadores eram o
Marcelinho Moreira, Anderson Martins, Paulinho Albuquerque,
Guilherme Reis e eu. Mas agora, desse grupo, estamos eu, Paulinho e
Guilherme.
PM – Quais foram os primeiros
lançamentos?
CJ – O primeiro CD que lançamos
foi o "Os Meninos do Rio" e depois o meu. Eu já havia
gravado numa multinacional, na EMI-Odeon em 1980, tinha feito dois
discos lá. Mas eu não fiquei muito satisfeito com o que era o
mercado na época. Naquele tempo você tinha que gravar nos
estúdios da gravadora mesmo. Se você não tivesse contrato, não
tinha como fazer disco. A tecnologia ainda não tinha avançado. Ou
seja, juntando o desenvolvimento da tecnologia e o desejo que a
gente tinha de participar desse processo da produção independente,
que cresceu muito, mobilizou a gente para fazer um selo dedicado,
muito especificamente, ao assunto do samba no Rio de Janeiro.
PM – O selo nasceu mesmo sobre
esse signo do samba carioca, certo? E essa idéia permanece?
CJ – Essa idéia permanece. O
Carioca Discos dedica-se exclusivamente a gravar os sambas
produzidos no Rio de Janeiro. Agora, temos planos para futuramente
abrir outros selos paralelos para outros assuntos. Isso era uma
coisa que a gente tinha vontade de fazer porque estávamos sempre
discutindo sobre o tratamento normalmente dado aos discos de samba
pelas multinacionais. Eram tratamentos que não satisfaziam. Ou eram
coisas mal acabadas, ou tinham acabamentos que fugiam, até, da
naturalidade das coisas, dos estilos do samba, da levada etc.
PM – A que você atribui isso?
CJ – Acho até que pode ser por
uma questão de falta de intimidade ou paixão pelo assunto. Por
acaso nós, eu, Paulinho e Guilherme, somos completamente
apaixonados pelo samba. Temos uma coisa muito atávica ligada ao
samba e ao mundo do samba, das rodas, das casas das pessoas, lugares
etc. Nós somos fãs do samba. Então, uma das coisas que a gente
pensou em fazer, e que estava mais ao nosso alcance, era justamente
o selo. Mas a gente pensa que existem milhares de outras coisas a
fazer. O tratamento dos shows de samba não é legal. O samba não
tem acesso aos palcos. O samba está muito, ultimamente, relegado
aos botequins. O artista do samba não goza do prestigio que
artistas de outros estilos gozam. A gente sempre teve essa
preocupação.
PM – Daí a idéia do selo mesmo.
Nada mais justo que apaixonados pelo samba comecem a fazer as
coisas?
CJ – Exato. E nós, por acaso,
percebemos que estamos com uma certa tendência a privilegiar muito
o lado autoral. Quer dizer, a partir do disco "Os Meninos do
Rio" a idéia era dar visibilidade aos autores do samba que as
pessoas não conheciam. E muitos deles são grandes intérpretes. O
mercado de disco de samba é muito pequeno. Você pode identificar
dois, três, no máximo cinco cantores de samba fazendo sucesso ao
mesmo tempo. Num país onde o samba é a música mais conhecida do
mundo, é muito pouco. A quantidade de gente que existe compondo e
cantando legal o samba é muito grande. É uma coisa que não tem
fim. Por isso temos muito essa preocupação. "Os Meninos do
Rio" foi a primeira bola que a gente levantou. E tem artistas
fantásticos ali, que muita gente nunca ouviu falar...
PM – Ou que não identificava a
obra ao autor, por exemplo?
CJ – Exatamente. Estamos
procurando produzir um tratamento gráfico privilegiado. Um padrão
de alto nível, com fotos bem feitas, projetos gráficos bem
cuidados, porque a gente também acha que o samba merece esse tipo
de coisa. Sem ter aquela capa do cara rindo o tempo todo, ou um
pandeiro rodando no dedo. Acho que não pode ser mais assim. Tem que
ter uma postura de respeitabilidade que o assunto merece.
PM – Até agora vocês lançaram
quantos discos?
CJ – Lançamos "Os Meninos
do Rio", o "Coisa de Chefe", Gallotti, o Leandro
Braga tocando a obra de D. Ivone Lara. Recentemente, este mês
(maio), lançamos o Trio Calafrio e também gravações em CD de
dois LPs que o Nei Lopes havia gravado no passado. No total são
sete lançamentos.
PM – Quem é o Trio Calafrio?
CJ – São os compositores Luiz
Grande, Barbeirinho e o Marquinho Diniz, que são artistas que
compõem muito para o Zeca Pagodinho. Tem vários sucessos do Zeca
que são de autoria deles. O Luiz Grande é compositor de vários
sucessos, como Maria Rita, que foi gravada pelo João
Nogueira. O Marquinho Diniz é filho do Monarco, irmão do Mauro. O
Barbeirinho também tem vários sucessos. E esses caras não tinham
gravado ainda. Trio Calafrio foi um nome dado pelo Zeca Pagodinho
já que os três sempre compõem juntos. O Zeca colocou esse nome
que acabou pegando.
PM – Os outros dois títulos são
relançamentos do Nei Lopes?
CJ – Isso, são o "Negro
Mesmo" e "Canto Banto". São discos temáticos onde o
Nei aborda a questão da negritude, das raízes do samba. Discos que
ele fez no passado, que saiu em LP e agora a gente lança em CD.
Títulos da Carioca
Discos
   
PM – Como vocês selecionam o que
vão gravar?
CJ – Geralmente quem faz essa
parte sou eu e o Paulinho. Agora, como temos essa idéia há muito
tempo, a gente já tem assim um certo roteiro do que gostaríamos de
fazer. Por exemplo, costumo dizer que a Carioca Discos é uma
gravadora artesanal. Nossa grande preocupação mesmo é uma
questão ideológica. O lucro na produção independente é uma
coisa que pode acontecer ou não um dia. Nunca se sabe. Mas a gente
já tinha uma idéia do que gostaria de fazer. Essas coisas pintam
normalmente nas conversas. Às vezes, num lugar que a gente vai. O
disco do Gallotti, por exemplo, nós fomos numa roda de samba no
Museu de Arte Moderna, e o Gallotti estava lá fazendo a roda. Teve
uma hora que um olhou para a cara do outro, os sócios, e sacamos
que tínhamos que gravá-lo. Porque o Gallotti é o grande
responsável pela divulgação do samba na zona sul do Rio de
Janeiro, no meio universitário, essa coisa toda.
PM – Há muito tempo ele faz
rodas de samba por aí, não é?
CJ – Há muito tempo. Ele já
tinha uma estrada e então merecia um registro dentro do estilo. É
um tipo de roda de samba carioca que é essa de zona sul, agora da
Lapa, de universitários que privilegiam muito aquele repertório
antigo, do samba lá de trás, de Noel Rosa, eles cantam muito essa
linha. São absolutamente jovens e vão descobrindo isso. Merecia um
registro. "Os Meninos do Rio" foi o primeiro trabalho que
a gente pensou, em termos dessa visibilidade dos autores. Naquele
ali, a gente teve uma possibilidade de balão de ensaio. Quer dizer,
daquele disco a gente ainda tem muita coisa para fazer. Pessoas que
estão ali e tem a possibilidade de fazer seus próprios discos
individuais, com repertórios fantásticos. Por isso a gente não
tem muita dificuldade de assunto. A nossa vontade é gravar todo
mundo do samba no Carioca.
PM – Além de vocês, também tem
outras pessoas com a mesma preocupação?
CJ – Tem. A Acari também está
se dedicando ao samba. Vai gravar Elton Medeiros, Wilson das Neves e
outros.
PM – Como é composta a equipe do
selo?
CJ – Como eu estava lhe falando
sobre a nossa maneira de produzir artesanalmente, a gente não pega,
por exemplo, outras produções para lançar pelo nosso selo. Tudo
que a gente lança, nós mesmos produzimos. Um trabalho bem próprio
e pessoal. Todo trabalho tem a marca da gente. Até agora, a maior
parte das produções foi feita pelo Paulinho Alburqueque. O
Gallotti nós fizemos em parceria, eu, ele e o Felipe Lima. E agora
vamos produzir um disco com o Luiz Carlos da Vila. Vamos começar a
gravar agora e eu vou fazer essa produção. Então essa parte é
mais comigo e com o Paulinho. O Guilherme é um dos donos do
estúdio Discover, que é justamente o estúdio onde a gente grava
tudo. Então, a gente tem aquele padrão técnico de linha de
trabalho do Guilherme. Um padrão que eu já conhecia desde a época
que gravei pela Odeon, já que ele trabalhava lá. Toda essa parte
técnica é cuidada por ele. A parte gráfica normalmente é
trabalhada com o Bruno Veiga fazendo as fotos. A distribuição dos
nossos discos é feita pela Rob Digital.
PM – A distribuição sempre foi
feita pela Rob Digital?
CJ – Não. Nossos dois primeiros
discos foram distribuídos pela Velas/Caravelas, daí de São Paulo.
Eles tinham uma parceria com a Sony. Por um bom período eles foram
distribuídos pela Caravelas, via Sony. Mas, depois de um tempo, a
gente percebeu que estava muito complicado ter um núcleo de
produção e geração das coisas aqui no Rio e a distribuição
estar em São Paulo. Por isso a gente preferia fazer essa parceria
com a Rob Digital daqui.
PM – A distribuição acontece em
todo Brasil?
CJ – Sim, acontece em todo o
Brasil. Agora, essa distribuição independente ainda é muito
aquém das nossas necessidades.
PM – De que maneira você imagina
que isso pode melhorar?
CJ – Ainda não sei exatamente de
como isso vai mudar. Mas acho que para mudar tem que mexer em outras
coisas. Por exemplo, a gente tem um respaldo bom de imprensa aqui no
Rio e em outros lugares do Brasil dos produtos que a gente lança.
Sempre uma boa recepção. Por exemplo, agora, sobre o lançamento
do Trio Calafrio, teve boas matérias por aqui. Aí o cara se anima
e vai procurar o disco para comprar numa determinada loja e não
encontra. Agora isso está se tornando cada vez mais complicado,
porque as lojas estão acabando. Hoje tem muita mega store, grandes
shoppings, grandes redes...
PM – Que acabam privilegiando só
grandes negócios com as poucas grandes gravadoras, não é?
CJ – Exatamente. E para você
entrar no mercado dessas grandes redes é muito complicado. Por isso
acho que essa questão da distribuição da produção independente,
que eu estou começando a insistir a chamar de indústria nacional
do disco – eu acho que a produção independente é que é a
verdadeira indústria nacional do disco – para mudar tem que mexer
em outras coisas. Tem que mexer na história da execução na
rádio, na historia do jabá. Tem que mexer na história do
fortalecimento das rádios estaduais e federais. No fortalecimento
das televisões públicas. Na abertura desses canais como canais de
competição mesmo, de mercado. Ser uma coisa ostensiva que facilite
a divulgação de todo esse material da produção independente.
PM – Mostrar que a cultura
brasileira é composta de pluralidade. Porque, às vezes, parece que
ela é feita de meia dúzia de músicos. Pelo menos quando você
assiste a TV aberta. E não é isso. Tem muita gente produzindo e
que não aparece.
CJ - É verdade. A gente sempre
discute essa história aqui no eixo Rio-São Paulo e eu fico
imaginando ainda nos outros estados, de como é que essa produção
independente está andando. Como eles estão fazendo? Porque estão
fazendo, com certeza. Mesmo que a indústria fonográfica pense
exclusivamente no lucro, o artista não vai deixar de ser artista
por causa disso, ele vai dar um jeito. A necessidade é que faz o
sapo pular. E o artista brasileiro está dando um jeito. Ele vende
na padaria, no jornaleiro, de mão em mão, de alguma maneira. Eu
acho que o Estado tinha que observar mais isso, ver a música mais
como um setor estratégico mesmo de segurança nacional e bolar
políticas que facilitassem a introdução de mais variedade musical
no mercado.
PM – Isso me fez lembrar aquela
iniciativa do Lobão, que depois outros artistas, como a Beth
Carvalho, também adotaram, de vender o disco em banca de jornal,
por exemplo. O que você acha dessa idéia?
CJ – Isso é muito bom. Mas para
isso é preciso ter um certo capital. Não é para todo mundo. Você
precisa ter um capital de giro para poder colocar para vender uma
certa quantidade. Os preços precisam ser baratos. Depois ainda tem
que esperar um retorno de não sei quantos meses. Então, se não
tiver um certo capital para investir nisso fica complicado. Agora,
se tiver, é ótimo, é uma alternativa boa.
PM – Os sócios do Carioca Discos
são todos músicos?
CJ – Nesse momento agora o único
músico sou eu.
PM – Você acha que ser músico
pode ajudar ou atrapalhar na hora dos negócios?
CJ – Olha, essa é uma coisa que
estou experimentando ainda. Como lhe disse, temos uma relação
muito de gravadora artesanal. As relações sobre negócios, a gente
vem levando do nosso jeito até aqui. Mas agora, com o nosso novo
sócio, o José Luis de Souza, acho até que ainda não havia citado
o nome dele... ele é um cara mais da área empresarial, embora seja
também um músico amador, ele foi pianista. Foi até, por acaso, o
cara que me ensinou música, meu amigo de juventude. Enfim, ele é
um executivo que tem mais prática sobre essas coisas. Então, a
gente tem um pouco se afastado dessas coisas e ele tem cuidado mais
dessa parte.
PM – A divisão de tarefas acaba
acontecendo de forma bem natural então?
CJ – Exatamente. Agora, a gente
já tem uma certa, vamos dizer assim, felicidade com relação à
vida. Não fizemos o negócio do Carioca Discos para dar dor de
cabeça para a gente, e sim prazer. É uma coisa que permanentemente
está dando prazer. A gente brinca muito. Nosso escritório, a gente
diz, está ali na praia.
PM – Onde tiver uma roda de
samba...
CJ – Exatamente. Às vezes, a
gente decide como vai ser gravada alguma coisa no meio de uma roda
de samba. Então, é um trabalho muito ligado ao prazer também.
PM – Quais são os próximos
projetos do selo? Que trabalhos serão lançados?
CJ – Tem dois discos que vamos
começar a gravar agora. O do Luiz Carlos da Vila e o meu segundo
CD.
PM – Isso é agora para o segundo
semestre?
CJ – Isso é para o segundo
semestre. A gente lança este ano ainda.
PM – Cláudio, você tem
confiança de que o mercado da música brasileira pode se expandir,
levando em consideração, inclusive, que estamos num novo governo?
CJ – Eu estou muito otimista com
essa nova visão sobre a cultura brasileira. E acho que isso é
muito em função do novo governo. Outro dia estava pensando o
seguinte: todas as dificuldades que nós temos já foram debatidas
nas últimas décadas. Mas nunca houve um governo que tivesse, vamos
dizer assim, uma identificação tão clara com a cultura. O PT
sempre teve muita identificação com as demandas sociais e
nacionais. Então, agora acho que não tem mais essa história de
ficar reunindo para discutir "num sei o que lá". A gente
já sabe o que tem de ser feito. É uma questão de atitude do
governo. Eu tenho esperança, estou otimista de que esse governo
possa fazer isso. Não vai ser da noite para o dia, mas pode fazer.
E acho que tem coisas que podem ser feitas que não dependem de
dinheiro. Acho que se o Ministro da Cultura chegar um dia e disser:
"gente, vamos dar força para a produção independente,
comprem discos da produção independente", acho que isso ajuda
e não precisa de dinheiro para fazer isso. É uma questão de
atitude.
PM – Por acaso, o Gilberto Gil
já mencionou alguma coisa nesse sentido, dizendo que a produção
independente merecia mais atenção. Nesse caso, já estamos vivendo
tempos diferentes para a música.
CJ – Claro. Mas acho que como
nós temos, com certeza, quatro anos, e a gente não sabe o que vai
acontecer depois, penso que precisamos ser mais agressivos agora.
Acho que esse governo precisa ser muito agressivo nessas coisas. E
acho que a gente tem que aproveitar o ambiente desse governo para
colocarmos esses programas todos aí.
PM – Embora a produção do samba
nunca tenha parado e sempre tenha tido gente compondo e tocando
samba, muitas vezes ele fica circulando só entre pequenas rodas ou
bares. De uns anos para cá, parece que o samba vem ganhando um novo
fôlego nos bares da Lapa, no Rio, através de nomes como o de
Teresa Cristina, ou mesmo em rodas de samba em lugares menos
convencionais, em São Paulo, como no bairro do Itaim, com a roda
Traço de União. Você concorda que o samba está vivendo uma nova
fase, pelo menos nessas capitais?
CJ – Isso sempre existiu. De
tempos em tempos sempre acontece um novo sopro para o samba. Porque
o samba é de uma vitalidade muito grande. Eu tenho até um samba
com o Wilson das Neves chamado Fonte de Prazer, que ele vai
gravar no próximo disco dele, que fala justamente sobre isso. É
uma fonte inesgotável. Esse papo de que o samba morreu, ou vai
morrer, isso não tem a menor possibilidade de acontecer. Pelo menos
pelos próximos 100 anos.
PM – Ou como diz Paulinho da
Viola, "só se for quando o dia clarear...".
CJ – É isso mesmo. Esses sopros
vivem acontecendo, apesar dos pesares. Apesar de não haver um
mercado específico, dirigido, aberto e tranqüilo para o samba.
Parece que sempre aparece uma idéia de que tem que misturar o samba
com alguma coisa para poder ser moderno, atualizado. Mas isso não
é assim. Você pega o primeiro samba gravado, o Pelo Telefone,
e pega um do Arlindo Cruz, a gente percebe que avançou. É um
avanço natural que o próprio samba vai tendo. Essa coisa da
modernidade, necessariamente, não precisa ter elementos
estrangeiros, na música brasileira, para ela ser moderna. Ela pode
ser moderna com os elementos de casa mesmo. O samba está sempre
renovando e está sempre gerando artistas. Foi muito legal ter
pintado esse sopro agora com Teresa Cristina e tantos outros, porque
é gente nova demonstrando que samba não é coisa de velho.
PM – Por isso a pergunta. Parece
que mais gente jovem vem se interessando pelo samba e freqüentando
as rodas, como já aconteceu em outras épocas.
CJ – É muito bacana isso. São
jovens de classe média, pessoal da zona sul, universitários que
apontaram para isso, como já aconteceu em outras épocas. Lá na
época do Zé Kéti, quando tinha o show Opinião (anos 60), também
os universitários começaram a se interessar mais pelo samba.
PM – Essa nossa conversa me faz
pensar um pouco sobre a história do rap. Muito mais jovens poderiam
estar se expressando através do samba, no lugar do rap, embora eu
respeite também esse gênero musical. Teoricamente isso pareceria
mais natural, se não fosse tanta influência externa, por exemplo.
O que você pensa sobre isso?
CJ – Outro dia estava conversando
com um pessoal que faz Sociologia e eles estavam exatamente fazendo
um paralelo entre o hip hop e o samba. E eu, apressadamente, falei
um negócio, que estou tentando amadurecer, mas que acho que talvez
seja por aí. Talvez a realidade do brasileiro tenha ficado tão
violenta, tão barra pesada, que o samba não suporta a linguagem
que os caras usam no hip hop, que é muito objetiva, tem palavras
agressivas, palavrão, coisas que no suporte do samba não sustente,
talvez.
PM – O que eles estão querendo
transmitir sobre o que vivem na periferia, talvez precise daquele
peso, daquele tipo de batida...
CJ – Exatamente, fica mais
compatível com a mensagem. E eu também respeito muito. Tem coisas
ruins assim como também tem no samba, mas os caras escrevem poesias
boas e abordam assuntos que o samba não teve coragem de abordar,
inclusive, durante um tempão.
PM – O próprio exercício da
escrita, quando estão construindo os versos, já é bem legal,
não?
CJ – Isso mesmo. Essas coisas, no
plano da estética, fica tudo bem. Mas o que complica é na hora da
mão-de-obra, do mercado de trabalho, da produção, aí o samba se
ferra totalmente. Sambista ainda morre pobre, de modo geral.
PM – Mas vamos lá, a idéia da
Carioca Discos é essa mesmo, de propagar pessoas que querem gravar
e tocar mais.
CJ – A nossa intenção, a nossa
ação é de reverência, de homenagem ao samba e tentar colaborar
como for possível.
Site Carioca Discos:
www.cariocadiscos.com.br |