Onde a MPB acontece


: Receba nossa Newsletter : Anuncie Aqui :

Página Inicial
Capa
Entrevistas
Destaques
Perfil
Selo de Artistas
Edições Anteriores
Outros Sites
Fale Conosco
Expediente

Selo de Artista > Sérgio Rossoni

"Não montei um selo visando lucro"

Por Sérgio Fogaça


Neste mês, a seção Selo de Artista da Página da Música traz a história do selo Zabumba Records. Quem conversou com a gente foi um dos sócios e principal responsável pelas atividades do selo dentro da empresa, o guitarrista Sérgio Rossoni. O músico nos fala da história de nascimento do selo, sobre distribuição, mercado fonográfico, formação de público para a música instrumental e a ABMI – Associação Brasileira da Musica Independente, da qual ele faz parte. Antes de virar selo, o Zabumba era um estúdio de muito prestígio em São Paulo. Lá já gravaram nomes como Danilo Caymmi, Naná Vasconcelos, Sizão Machado, Barbatuques, Chico César, Ná e Dante Ozzetti, Zimbo Trio, Milton Nascimento e Hermeto Pascoal. A promissora carreira do estúdio certamente contribuiu para o nascimento – de parto natural – do selo Zabumba. Outra história que se confunde com o aparecimento do selo é a fundação da ABMI, entidade que tem o objetivo de unir produtores fonográficos independentes em torno de interesses comuns e fortalecer o mercado independente através da união. Estão lá várias gravadoras e nomes importantes desse mercado, como Pena Schmidt, Benjamim Taubkin, Thomas Roth e o próprio Sérgio Rossoni. A seguir, acompanhe a conversa que tivemos com Rossoni.

Página da Música – Gostaria que você começasse contando quando vocês tiveram a idéia de abrir o selo Zabumba Records, mas parece que a história de vocês começa antes, com o estúdio Zabumba, certo?

Sérgio Rossoni – Nós éramos três sócios, eu, o André Magalhães e o José Penna. Mas a primeira idéia foi de montar um estúdio de gravação. Entrei nessa idéia motivado em poder fazer meu trabalho, ter um estúdio para poder gravar meus discos e de outros artistas também.

PM – Isso há quanto tempo?

SR – Há seis anos exatamente. Mas nasceu ainda sem a idéia de selo. Durante uns três ou quatro anos, dentro do estúdio, nunca ninguém falou sobre ter um selo. Por outro lado, já existia uma dificuldade natural, isso antes até do estúdio, de a gente gravar um disco. Antigamente era muito caro e depois que se tinha o disco pronto, vinha aquela pergunta: "E agora, o que é que eu faço?", já que não tinha distribuição, não tinha nada. Com o estúdio, foi um passo onde começamos a visualizar que já tínhamos onde gravar os nossos discos. E quando gravei meu primeiro disco aqui, o "Sérgio Rossoni Grupo", eu era independente e não tinha distribuição. Isso aconteceu junto com outras duas gravações simultâneas, meio que bancadas pelo estúdio, que foi o Dimus Goudaroulis, um cellista grego, com o CD "Introvisation", e o do Marcelo Petrália, que é um músico que constrói instrumentos, ele mora em Botucatu, tem uma oficina de instrumentos e gravou um disco, meio na praia do Uakti, um disco muito interessante. Enfim, esses três discos saíram com o nosso logotipo, do Zabumba, ainda como estúdio. E não tínhamos distribuição. Ou seja, eram três discos independentes, mas que já tinham uma logomarca do Zabumba. Acho que aquilo começou a despertar um certo interesse. Quem olhava, achava que aqueles três discos poderiam ser de um selo. Ao mesmo tempo, teve um encontro no Sesc Pompéia, organizado pelo Benjamim Taubkin. O André (Magalhães) e o Penna foram participar desse encontro, onde o Benjamim propôs, acho que pela primeira vez, uma associação de gravadoras.

PM – Esse encontro foi quando mais ou menos, você lembra o ano?

SR – Isso foi há uns três anos. O Benjamim já havia gravado a Orquestra Popular e outras coisas aqui e por isso convidou gente do estúdio para participar. Desse encontro nasceu a primeira associação, que hoje é a ABMI – Associação Brasileira da Música Independente, mas na época chamava-se AMI - Associação dos Músicos Independentes. E, de repente, o Zabumba estava ali no meio. Foi muito interessante porque o André e o Pena voltaram desse encontro dizendo: "Hente, nós viramos um selo". Porque estávamos ali no meio deles, uma associação onde estava a Dabliú, a Visom etc e o Zabumba também.

PM – E até então vocês já tinham feito vários trabalhos aqui, como estúdio...

SR – Desse encontro... o que era esse encontro? Reunir gravadoras para tentar fazer uma rede, onde as gravadoras se organizassem, se juntassem e de repente a gente começou a participar. Até então, ainda não tínhamos a idéia do que era um selo, mas fomos amadurecendo. Aí teve um encontro na CDExpo, onde a AMI comprou um estande...

PM – O que era a CDExpo.

SR – Era uma feira de CD que acontecia todos os anos no Rio de Janeiro e depois veio também para São Paulo. Daí a AMI comprou um estande e nos juntamos. Que eu lembre tinha a MCD, a Visom, a Dabliú e nós também tínhamos a nossa mesinha ali. Foi aí que comecei a curtir a idéia de o Zabumba virar um selo. Porque pensava assim: agora que eu já entendo, tenho a satisfação de ter um estúdio, posso gravar meus discos, também podemos ser um selo, para não precisar mais procurar gravadoras e tentar lançar um disco. Eu pelo menos pensei em montar um selo com essa idéia. Ou seja, poder lançar não só meu disco, mas também outras coisas que goste. Mas estaria sendo mentiroso se eu falasse para você que em primeiro lugar não vim eu como músico. Porque antes de ter um selo, já estive batendo em portas de outros selos tentando vender o meu disco. É muito complicado e hoje eu entendo melhor porquê. Com essa participação do Zabumba comecei a entender sobre distribuição, como funciona um selo, quais são as preocupações etc. Comecei a aprender com os outros também, que já eram selos e que já tinham muito mais estrutura. Foi aí que me reuni aqui no Zabumba e disse que queria virar um selo.

PM – Vocês estavam ainda em três sócios nesse momento?

SR – Três. A AMI começou a dispersar um pouco, cada um foi cuidando das suas coisas e ficou meio que na geladeira. Mesmo que já não tivesse o impulso da AMI eu já tinha me encantado com esse caminho. Achei legal que além de produzir coisas no estúdio ainda pudesse lançar CDs. Além de se auto-produzir e lançar também. Mas lembro também que conversamos sobre uma coisa muito importante: o Zabumba estúdio seria distinto do Zabumba selo. Principalmente pela questão financeira. Porque tínhamos um pouco de medo de que se somos um selo e temos um estúdio, então nós podemos gravar os artistas de graça. Existem situações de tempos atrás, de experiências de pessoas que tinham essa mesma condição que a gente e que acabaram tendo problemas. Porque se a gente colocasse artistas para gravar de graça aqui, mesmo pelo Zabumba, a gente não teria o nosso sustento. A gente vive de um estúdio de locação. Se deixamos de locar para gravar artistas... nem eu tenho essa condição mais.

PM – Teve casos, então, de selos que antes eram estúdio e a coisas se confundiram um pouco?

SR – Me parece que a Camerati era um estúdio de gravação que virou um selo e ele teve problema nesse sentido, de acabar super lotando a agenda dele com artistas da Camerati e quando tinha um cliente querendo alugar não tinha horário. Só que a situação pode se inverter. De repente, você pode ter sua agenda lotada e não está pagando seu estúdio.

PM – Como vocês conseguiram definir essa separação das coisas?

SR – Ficou decidido que eu dirigiria o selo. E acabei sendo o office boy, o diretor artístico, tudo. E o selo não vai ter absolutamente nada a ver com o estúdio. Lembrando que a gente pode lançar os artistas pelo selo, mas sem ceder hora no estúdio para esse mesmo artista. Então, como que funcionou, como a coisa deu continuidade? Gravei meu segundo disco, que foi o "Pescadores". No processo de gravação, já tinha definido que eu dirigiria o selo, que não era o estúdio. E comecei a ir atrás de distribuição. Consegui a distribuição da Eldorado. Voltei e disse que tinha fechado um contrato de distribuição com a Eldorado e que agora nós éramos um selo mesmo, porque agora a gente tinha que produzir para distribuir. Gravei o "Pescadores" e o "Miguel Briamonte". Só que, como funciona o Zabumba até hoje e como funcionou? O Miguel estava gravando aqui e ia ser um disco independente. Ele sentou comigo e disse que estava gravando de qualquer jeito, que era independente e se interessava que fosse lançado pelo Zabumba. Eu disse que interessava. É o que o Zabumba faz hoje. Eu cuido da parte burocrática do disco, ou seja, a produção executiva, e prenso o CD. Só não posso entrar com o estúdio, porque aí já entram os sócios etc. Mas quando fechei o contrato com a Eldorado, eles prensavam os discos de todo mundo. A distribuidora prensava, ela tinha a margem de porcentagem maior etc. Então isso me facilitou para que eu pudesse realmente pegar o disco do Miguel e falar: "Então eu vou lançar pelo selo, você não vai ter o custo da prensagem". Daí saiu, já pela Eldorado, o "Pescadores" e o "Miguel Briamonte". Ah, e o André Hosoi também, que estava na mesma situação do Miguel aqui, ou seja, gravando um disco independente e disse que também queria entrar nessa e lançar pelo Zabumba. Foi aí que o Zabumba realmente virou um selo. Não por ter mais três discos, mas por eu começar a ver os problemas que um selo tem no dia-a-dia.

PM – Por exemplo?

SR – Por exemplo: a distribuição. Na Eldorado tive uma série de dificuldades. Primeiro, por eu ser um selo pequeno dentro de uma empresa muito grande. Segundo, porque a Eldorado tinha lá os problemas dela, acho que tinha muito selo para ser distribuído. Além disso, eu estava começando e não sabia como funcionava, por exemplo, direitos autorais. Eu estava estudando isso tudo. Não sabia como funcionava porcentagem de venda. Tive de ir aprendendo muito sobre acerto e erro e sem o respaldo da Eldorado, porque para eu marcar uma reunião com o diretor artístico de lá demorava um mês. Então, às vezes, a Eldorado errava ali um número, para eu tirar isso a limpo, para saber se eu ou eles é que estavam errados demorava um mês, um mês e tanto. Comecei a ver algumas coisas, eu tinha de deixar um pouco também de ser músico, já que ia dirigir um selo e também tinha que ver a coisa como empresário. Eram números, artistas me cobrando. Vi que ter um selo não era só fantasia.

PM – Nesse período, houve uma certa incompatibilidade do músico com o empresário? Você sentiu que teria de ser, por exemplo, mais empresário e menos músico?

SR – Não, não. Acho que divido bem meu dia-a-dia. Venho trabalhar aqui no estúdio e trabalho muito para o selo. Quando vou para casa pego meu instrumento e estudo, das 17h às 21h. Aí eu sou músico e componho. Dirigindo um selo, estou trabalhando para viabilizar meu lado artístico. Então não vejo uma coisa atrapalhando a outra, como o artista que tem que pegar o material e levar num Sesc para marcar um show.

PM – Você sente mais como integração mesmo?

SR – Isso mesmo.

PM – Até agora, quantos títulos foram lançados pelo selo?

SR – Agora são nove, com o último do Aquilo Del Nisso. Mas ainda seguindo a história, nesse meio tempo a Eldorado rompeu contrato com as distribuídas. Eles estavam passando por problemas e o meu contrato tinha acabado. Eu não queria renovar porque tive uma série de dores de cabeça com a Eldorado. Não estava muito contente com os problemas e respostas desses problemas que tinha tido. Nesse meio tempo fundou-se a ABMI e retomou essa história que ficou congelada da AMI. Foi num encontro do Instituto Cultural Itaú. Cheguei lá e eram os mesmos da AMI e um pouco mais. Veio a proposta de reativar, só que veio com mais força mesmo. O Pena Schmidt assumiu a presidência. A idéia realmente andou, como está andando até hoje. Acho que as pessoas se conscientizaram da importância de se unir.

PM – Isso tem quanto tempo, mais ou menos?

SR – Isso tem uns dois anos e meio.

PM – É interessante que a história da ABMI com o selo Zabumba até se confunde, no bom sentido...

SR – Verdade, teve muito impulso através daí. E eu estava lá no meio novamente. Também já estava pensando em meios próprios de distribuição. Numa dessas reuniões conheci o Roberto, que é dono da Rob Digital, um selo do Rio. Ele veio me dizer que estava ampliando o sistema de distribuição e que estava chamando alguns selos. Perguntou para mim se eu gostaria de fazer parte. Eu disse que queria. Já conhecia o catálogo dele, depois fui até o Rio conhecer...

PM – Tinha identificação? Você acha importante essa identificação?

SR – Tinha e tenho, mas ainda fui descobrir o que me deixou mais contente. Fui para o Rio, até para checar se aquela proposta faria sentido pra mim depois de três meses que a gente não se falava. Me encontrei com o Roberto Carvalho, conheci a Rob e vi que era um espaço muito parecido com o meu aqui. Ele me explicou quem era, mostrou seu catálogo. Ele já é um selo maior, do porte da Vison, tem artistas de peso, como o Carlos Malta, com o Pife Muderno, que é da Rob. É um selo maior. E falou como que funcionava a distribuição dele no Rio em São Paulo, que estava ampliando isso aos poucos. Disse que a proposta dele era fazer as coisas devagar. Eu perguntei para ele quem vendia mais discos. Ele respondeu que era quem faz mais show. Mas o que eu gostei foi quando ele disse que não se preocupava que o selo produzisse disco para vender, aquela coisa de quantidade, que se preocupava com qualidade. Falava que um disco da Rob teria que ser um disco de catálogo. Tinha discos lá que o artista havia gravado há dez anos, mas continuava vendendo, porque era um disco maravilhoso. Nisso bateu comigo. Eu disse quais discos tinha, como os meus, o do Miguel Briamonte, do Dimus, que eram discos de catálogo. E a minha preocupação é um pouco essa. Eu não tenho perfil de um selo que vá produzir discos em grande quantidade, para estar lançando um por ano, por exemplo. Não sei, pode ser que eu lance, pode ser que não lance. E o meu perfil é esse. Foi uma coisa assim de bater, de simpatizar com a pessoa, com a proposta. E é assim, hoje eu sou distribuído pela Rob, meu contato com ele é direto. Formou-se até um elo de amizade. Tenho o maior respeito por eles. Quando ligo, falo direto com ele ou direto com a pessoa que me atende.

Formou-se um elo. A filosofia da Rob e da Zabumba tem muito a ver, da gente se unir. Eu não cobro ele como meu distribuidor e ele não me cobra como um distribuído. Acho que a gente tem que se unir mesmo. Nesse primeiro encontro da ABMI, o Roberto não pôde vir a São Paulo, mas mandou o estoque dele e eu coloquei na minha barraca. Vendi os discos da Rob, junto com os do Zabumba. Eu sou o distribuído, mas fui um funcionário da Rob e não vejo o menor problema nisso. Torço para que a distribuição dele dê certo. Porque sei também que uma coisa vai puxando a outra. Ele tendo uma boa distribuição, também vai ter uma coisa interessante para oferecer para os seus distribuídos. E eu sendo um selo que consigo produzir coisas de qualidade, vou fornecendo a ele trabalhos que sejam interessantes. Quando você encontra um parceiro que tem um elo de amizade, acho que a coisa fica melhor. Funciona como um time. Por exemplo, comparando com a época da Eldorado, eu não existia na Eldorado dentro daqueles corredores enormes. É aquele ditado: você pequeno numa empresa grande não é ninguém. Você pequeno numa empresa média é alguém. E também o respeito. Hoje estou muito contente com essa parceria. Porque eu tenho muito respeito pelo pessoal da Rob e sei que eles têm muito respeito por mim também.

PM – A respeito de você comentar sobre essa identificação, que é de comercializar discos de catálogo, ou seja, discos que não são feitos em grande escala e possuem um certo valor mais duradouro, diríamos assim: para quem é esse mercado? Ele existe?

SR – Existe. A maior parte da música independente hoje está dentro de um mercado que a gente chama – eu não sei se a definição é essa – de mercado cultural. E o que seria um mercado cultural? Não estou falando no sentido de merecer ou desmerecer, mas é o que a gente escuta na própria mídia. Esse tipo de música que o Zabumba produz, você não escuta no Faustão, não vê esse artista dentro da mídia. Isso não vai tocar na Jovem Pan. Por quê? Porque são músicas ou instrumental, ou MPB, ou, no caso desse disco que te falei do Zabumba, que é de um cellista. São discos que fazem parte de um outro mercado, que não é um mercado de consumo, um mercado de massa. Quando eu falo isso, quero dizer que o Miguel Briamonte é diferente de um Barão Vermelho, por exemplo. O Barão Vermelho atinge a massa, ele vai vender discos, vai lotar um estádio, enfim. Já o Miguel Briamonte é de um público que tem que conhecer um pouco de música instrumental para gostar daquilo. Gostar um pouco de jazz. Ter um perfil de gostar um pouco desse tipo de música. É um outro segmento. Então, quando falo sobre mercado mais cultural, por exemplo, citando até outros artistas, não os do Zabumba, o próprio Carlos Malta, por exemplo, é um músico muito conhecido no meio desse mercado cultural. Mas não sei se, de repente, o Carlos Malta for fazer um show no pátio do Carrefour, vai alguém. Se ele for fazer um show no Supremo vai lotar. Então a identificação é um pouco dessa forma.

PM – E de modo geral é um pessoal que tem mais longevidade nas vendas, embora em menor escala.

SR – Exatamente. É o que a gente chama de disco de catálogo. Ou seja, o disco não tem uma vida útil, ele fica existindo sempre. Por exemplo, o CD "Pescadores" é um disco que a Rob já prensou novamente. É um disco que já lancei há dois anos e vende até hoje. E não estou falando de números, lógico. Estou falando da minha realidade como artista, já que não sou conhecido. Nesse meio cultural, são pessoas que não estão buscando o consumo rápido. Quando você vai comprar um disco, sei lá, de um músico de jazz, você não está comprando por modismo, você está comprando porque gosta daquilo. E vai comprar aquele CD para escutar o resto de vida. Não é que você vai escutar esse mês e acabou a moda. É diferente de outras coisas que são mais comerciais mesmo.

PM – Como vocês escolhem os artistas para lançar no Zabumba? Vocês têm algum critério ou linha que seguem, ou acontece de outra forma, mais natural?

SR – Isso é uma coisa complicada, porque você vê, nós estamos agora com nove discos e vamos lançar mais um.

PM – De quem são os lançamentos até agora?

SR – Sérgio Rossoni são dois – "Sérgio Rossoni Grupo" e  "Pescadores" –, "Miguel Briamonte", o "Introvisation", do Dimos Goudaroulis, "O Sertão Está em Toda Parte", do Francisco João, um disco maravilhoso de um músico do Rio de Janeiro, de canções. Também lançamos um segundo dele chamado "Tempero Forró", um trabalho mais pé de serra, porque ele mora no Rio, mas é de Caruaru. São seis até aí. Aí lançamos o do Derico e do irmão dele, que chama-se "Duo Sciotti", agora no final do ano passado. E lançamos agora o do Aquilo Del Nisso, chamado "Cinco". Já está em fabricação um CD da Márcia Lopes, gravado aqui já faz bastante tempo, com produção do (Roberto) Sion. E eu a convidei.

PM – Ela é cantora ou instrumentista?

SR – Ela é cantora. É um disco de MPB, de bossa nova.

PM – Esse é o primeiro que tem letra, desses todos que você falou?

SR – Não, o primeiro é "O Sertão Está em Toda Parte". É um trabalho que acho muito interessante porque é autoral. O Chico vez um trabalho todo sobre contos de Guimarães Rosa. Um trabalho só de canção, mas é autoral. O da Márcia Lopes não é autoral, ela é intérprete. Tem Chico Buarque e Tom Jobim, entre outros. Ela canta muito bem e os arranjos são do Sion, não preciso dizer mais nada. Esse foi um disco que convidei. Quando se firmou a distribuição com a Rob, que percebi que tinha encontrado um parceiro legal, a coisa foi indo bem. Convidei a Márcia. Mas tem muita gente que já sabe que o Zabumba virou um selo e me procura. Gente que, às vezes, eu não conheço, quando tem algum encontro da ABMI, por exemplo. Comecei justamente a ver o quanto é difícil para um selo. Porque, às vezes, a gente tacha um selo como vilão, pensando: "Pó eu levo meu disco lá e o cara não lança, que sacanagem". Mas não é, porque tem isso que você falou. Às vezes o cara traz um CD que não é o perfil do seu selo e você tem que começar a pensar qual será o perfil do meu selo. Acho que agora estou começando a pensar sobre isso no Zabumba. Até então não tinha uma identidade. A maior parte é de música instrumental.

PM – Por afinidade mesmo?

SR – Por afinidade. Mas agora fico pensando, por exemplo, e esse disco "Tempero Forró", que é um disco mais comercial? A gente lançou porque o Chico é meu amigo e eu achava o trabalho interessante. Mas eu começava a pensar que talvez não seja o perfil do Zabumba ter esse tipo de produto. Por quê? O Zabumba não está financeiramente pronto e talvez nem seja a intenção investir numa coisa que é mais comercial. E um disco de forró é mais comercial.

PM – Por quê? Isso implica em outras despesas como publicidade maior ou em mídias diferentes?

SR – Para vender um disco que seja você tem dois caminhos. Se trabalha num circuito cultural, você vai ter a sua distribuição em algumas lojas que trabalham nesse segmento pelo Brasil inteiro. E um disco cultural não envolve ter um custo muito grande, porque você vai lidar justamente com veículos que estão ligados a arte, como vocês, por exemplo. Um disco comercial já envolve outra coisa. Por exemplo, se eu te mandar um disco que seja, sei lá, de rap misturado com forró, estou só dando um exemplo. Pode ser que você vire e diga, pô, esse disco eu não gostei. Como aconteceu de uma loja não querer comprar o disco do Derico, porque a pessoa achou que o Derico não era muito a cara da loja. Então, de fato, isso foi o Roberto que me falou: para você vender um disco comercial, tem que investir um dinheiro. Dinheiro em mídia, fazer esse disco rodar. Porque aí ele vai vingar. Eu fiquei pensando muito nisso, de que realmente o perfil do Zabumba não é esse, o perfil do Zabumba é ser um selo onde a gente continue fazendo as coisas mais ligadas à cultura, mais ligadas à música instrumental, MPB. Eu não quero rotular, dizer que o Zabumba é só isso, só instrumental ou só outra coisa.

PM – De alguma forma você está deixando correr meio que naturalmente as coisas?

SR – Mas procurando me ligar a artistas que tenham identificação com a que eu tenho. Tem uma coisa que repito bastante: não adianta você colocar um disco seu numa gravadora, pensar que o disco está sendo distribuído e ficar tranqüilo. Assim não vai acontecer nada. Como não adianta também uma gravadora dizer que agora tem distribuição. Acho que as coisas precisam andar juntas. Por exemplo, a distribuidora precisa de um respaldo da gravadora, de contatos que seja, de estar informando a gravadora dos shows dos artistas. E o artista precisa "cutucar" a carreira dele também. Não é só lançar um disco e ficar ali, esperando a boiada vir. Porque para você vender um disco é isso, mesmo o mercado cultural precisa ser bem trabalhado. Não é que você vai vender milhões, mas impulsiona. Como fazer um lançamento, por exemplo? Eu estou querendo fazer um lançamento com o Aquilo Del Nisso e chamar vocês, chamar a imprensa, para fazer acontecer um pouco. Essas coisas impulsionam. É como um trenzinho, um tem que ajudar o outro. A coisa vai caminhando naturalmente e vou me identificando com os artistas que têm esse perfil. Esse perfil, seja MPB, seja música instrumental, quem tem esse perfil de querer tocar o trabalho, ter uma identificação com esse mercado. Quando penso que meu mercado é instrumental, sei exatamente onde vou tocar, quais são as casas que vão aceitar que eu toque, quais são as lojas que vão comprar meus discos. E eu sei os lugares onde não vou tocar, que não vão comprar meu disco.

PM – Precisa ter uma ação mais precisa mesmo de mercado.

SR – Você vai definindo ainda sem ter uma cara. Por exemplo, agora estou com três propostas. Eu estou com três discos instrumentais, estou querendo fazer, são muito bonitos. Tem um pouco dessa coisa. As pessoas vão ouvindo falar e vão sabendo que você é um selo também de música instrumental, vão te procurando. O mais engraçado é que quase todas as pessoas do selo hoje e dos que vão entrar são que ou eu conheci aqui dentro ou já eram conhecidos meus. O Miguel, por exemplo, conheci aqui dentro. O próprio Derico conheci também aqui. O Chico já foi através de um amigo do Rio. São pessoas que, por terem um trabalho legal, tenho prazer em poder ajudar. Já que tenho a oportunidade de ter um selo e ter distribuição, acho que faço um pouco de questão de ajudar aqueles meus amigos que faziam parte daquela minha época em que eu também não tinha nada e eles também não. Eu não vou saber dizer não para um cara que tocou comigo e tem um trabalho super legal. É aí que eu falo que não montei o selo visando lucro. Montei como uma satisfação pessoal minha.

PM – Você acha que ajuda ou atrapalha ser artista na hora de montar um selo?

SR – Você já não é só um artista, você é obrigado a ser meio produtor, meio artista, tem que ser um pouco seu empresário também. Eu acho que tanto artista hoje mexe com tanta coisa. Vocês mesmos fizeram essa seção onde vários músicos falam sobre selo próprio. Vários músicos que tenham uma produtora, vários músicos que devem ter, sei lá, alguma assessoria. Porque as pessoas são todas voltadas para a música também. Eu acho que é uma necessidade hoje em dia. Porque, senão, faz o quê? Ou fica esperando alguém fazer alguma coisa ou coloca a mão na massa. Aí tem um que monta um selo, outro que monta um escritório de assessoria de imprensa, outro uma produtora e eu acho que é um pouco assim mesmo.

PM – Como é a equipe do selo? Vocês são em quantos sócios e funcionários?

SR – Nós somos todos sócios. Mas funcionário não tem nenhum. Eu sou o único funcionário. Mas uso a estrutura do estúdio também.

PM – São três sócios?

SR – São quatro. Porque depois entrou outro sócio que é o Marco Nogueira, que entrou para o estúdio.

PM – Ele é músico também?

SR – Não, ele é técnico de som. É o único dos quatro sócios que não tem atividade musical.

PM – Quando ele entrou já tinha o selo?

SR – Quase, estava um pouco naquela transição entre Eldorado e Rob Digital. Ele entrou como sócio no Zabumba... a gente não tem distinção do selo com o estúdio. Inclusive não são duas firmas, é uma firma só. Foi mais fácil reformular o contrato social para virar uma firma só que seja estúdio e selo. O estúdio tem dois funcionários. A Janaína, que é a nossa secretária, e o Guerra, que é um assistente que exerce várias atividades. E eu uso essa estrutura.

PM – A estrutura do estúdio é também utilizada para o selo e quem se dedica com exclusividade para o selo é você?

SR – Eu cuido de toda a parte burocrática. Desde estar escutando CD até sentar com o artista e ler o contrato com ele, ver a minuta. Também providenciar liberação, ligar para o Rio de Janeiro, para as editoras, ou seja, eu é que faço tudo isso. Eu uso a estrutura daqui mas também procuro não abusar muito. Assumo essas funções de ser um diretor artístico e, ao mesmo tempo, uma pessoa que cuida da parte burocrática, muitas vezes como office boy, de ir levar no correio formulários para o ECAD.

PM – Até agora vocês estão com nove títulos, mas tem algum projeto em andamento, algum CD que vocês estão para lançar?

SR – Nós vamos lançar meu terceiro CD, do Sérgio Rossini Grupo, que é o "Fogo Cerrado". Já está mixando. Tem esse que eu te falei da Márcia Lopes, que já está em fabricação. Depois nós vamos fazendo pela ordem, eu procuro seguir uma ordem para não dar nó na minha cabeça. Tem uma filinha de espera. Porque eu também não posso abusar da Rob, já que ela industrializa os CDs e tem outros distribuídos. Também não posso lotar de coisas, procuro seguir um cronograma...

PM – Tem um cronograma entre a distribuidora e o selo?

SR – Não tem um cronograma imposto pela Rob. Mas eu já entendi como eles trabalham, já entendi a estrutura deles.

PM – É meio regido pelo bom senso dentro do entendimento que vocês têm de distribuidora e selo.

SR – Exatamente. Até por conhecer essa estrutura que você quis saber do Zabumba, eu conheço a estrutura da Rob, é questão de bom senso mesmo. Eu sei que, por exemplo, não posso pegar quatro, cinco títulos e jogar todo mês. Não dou conta. Porque como tenho que fazer isso, tenho que pedir as liberações; não dou conta de fazer tudo ao mesmo tempo, trabalhar também no estúdio e ser músico. Então, prefiro fazer disco por disco. A hora que um entra na fábrica, aí eu começo a trabalhar no outro. Depois desses CDs que eu tinha te falado, virá um disco também instrumental chamado "A Vó", do percussionista Jorge Marciano. Embora já esteja pronto, entrou na fila depois do "Fogo Cerrado". Agora tive uma proposta super legal do André e do Marco, que é um CD do violonista Paulo Gusmão. Ele gravou um disco super bonito e eu escutei algumas coisas. O André falou: "Por que a gente não lança no selo?" Adorei o disco, o Paulo conversou comigo e talvez a gente faça alguma coisa com ele. Estamos com essas previsões. Eu não vou procurando coisas. Até é uma coisa que esse ano eu fiquei um pouco preocupado, porque quando acabou de lançar o CD do Derico, pensei, preocupado: eu não tenho obrigação de lançar um disco por ano. Nem sei se isso vai continuar acontecendo ou não. Mas e se um dia faltar artista? Mas não falta. Até por estar no meio da ABMI, por estar sempre no meio de músicos. Tem muita gente boa, muita gente legal que está com o trabalho ainda debaixo do braço. Eu recebo um monte de e-mails de pessoas que, sei lá, pegam até pelo site da ABMI, ou pelo site de vocês, não sei. Enviando e-mails e dizendo sobre o trabalho próprio que desenvolvem.

PM – Aproveitando o gancho de estar falando da ABMI, você até já falou alguma coisa sobre ela, inclusive na própria história do selo. Mas vamos situá-la melhor. É uma coisa que está acontecendo e pode interessar bastante aos músicos. Como está a ABMI e qual a sua ligação com ela?

SR – Minha função? Como o Thomas (Roth), da Lua Discos, brinca: nós somos meros soldados. Mas tem uma diretoria. O presidente é o Pena Schmidt, o vice-presidente é o Benjamim Taubkin. Daí tem a diretoria da qual o Eduardo, da MCD, faz parte, o J.C. Costa Netto, o Thomas, da Lua Discos também. O que está acontecendo são reuniões semanais para os sócios. Existe ali uma freqüência de selos que estão mais próximos e têm uma viabilidade maior de estar presente ali. A gente discute todas as atividades nessas reuniões. Depois, a secretária da ABMI envia um e-mail para todos os associados e isso vai sendo debatido. Mas existe uma hierarquia. Eu hoje tenho uma função lá dentro. Depois desse encontro, o Pena sugeriu que abríssemos grupos de trabalho. Existe um grupo de trabalho para discutir pirataria, outro onde se discute direitos autorais e tem um grupo de trabalho chamado ações culturais. No encontro da ABMI eu tive uma parcela legal, o Pena me colocou como palestrante, eu e o Thomas. Ele achou legal o trabalho que fiz e me convidou para dirigir esse grupo de trabalho. O que estou tentando fazer é organizar algumas palestras para debaterem o meio musical, debaterem a música independente, a cultura. Acho que isso é muito importante. Debater no sentido de pensar porque não existe nos jornais mais críticas de CDs, por exemplo. Não estou querendo dizer que o culpado é o jornalista. Mas porque é difícil hoje em dia, mesmo fazendo uma assessoria de imprensa, você conseguir boas matérias de um lançamento. Sabe? Escutar de um diretor de jornal, por exemplo, que não publica porque o mercado independente é isso ou aquilo. Acho que falta muito a gente saber o porquê das coisas. Outro exemplo: a pirataria. Como acabar com a pirataria? É importante já educar as crianças, colocar nas escolas, que a pirataria é crime. Que quando ela está comprando alguma coisa pirata, alguém está deixando de ganhar sobre aquela criação. Talvez seja alguma coisa de educação. Talvez esse momento em que estamos passando, de o mercado cultural estar tão dividido e o mercado comercial menos. Será também que não é alguma coisa de educação? Quantas pessoas que, de repente, gostam de música instrumental, mas não conhecem mais? Eu vi isso há pouco tempo num show que fizemos e que tinha pessoas que vieram depois do show e disseram: "Puxa, eu não sabia que dava para fazer isso com esses instrumentos!" E não era garoto pequeno, era cara de faculdade. Então você começa a ver que existe falta de informação. Eu não sei até que ponto música instrumental é uma coisa tão alienada ou é falta de informação. De repente, chamar um profissional da mídia que possa explicar melhor isso. Chamar um profissional da educação que possa explicar qual seria realmente a importância de educar a criança sobre isso. Estudar a música, uma criança poder saber quem foi um Tom Jobim. De repente, será que ela não vai crescer com um conceito mais lapidado? Ela não vai saber diferenciar as coisas? Porque uma criança hoje não diferencia.

PM – Embora a frase seja batida, mas é verdade que o mercado impõe, porque aparece uma, duas, três vezes e fica estipulado de que aquele é o legal, e pronto. Mas voltando à ABMI, como os músicos podem entrar em contato com a entidade? Acessar um site, ele pode participar de algum tipo de reunião?

SR – A ABMI está aberta para todos. Mas ela se voltou para sócios que sejam gravadoras, produtores, enfim... eu não sei te explicar direito, mas pelo último estatuto ficou definido que a ABMI não estaria aberta para músicos independentes, num primeiro momento. Porque para se organizar um estatuto era importante que cada um que estivesse ali tivesse uma empresa, cuja finalidade fosse produzir discos.

PM – É uma Associação Brasileira da Música Independente, mas feita por pessoas que já têm uma empresa constituída?

SR – Gravadoras. Existem categorias, você pode ser um sócio votante e existe uma mensalidade para os sócios votantes. E você pode ser um sócio não votante. Nesse caso, você tem acesso a todas as informações, mas a única diferença é que você opina ou não sobre decisões da diretoria da ABMI.

PM – Qual o melhor canal para entrar em contato com a ABMI?

SR – Pode entrar no site www.abmi.com.br . Ou também pode enviar um e-mail direto para a Michele, secretária da ABMI, michele@abmi.com.br, pedindo informações etc. Todas as segundas-feiras a gente se reúne para receber as pessoas que querem saber como funciona a entidade, fica aberto. Todas as associações ou gravadoras podem se associar. A única coisa que é importante é que depois que você se torna sócio existe critério de conduta mesmo. Uma das coisas básicas é que realmente você seja uma empresa, e que faça tudo direitinho, pague direito seus artistas etc.

PM – Depois de a gente contar um pouco a história do seu selo e também falar da ABMI, gostaria que você falasse, sobre seu ponto de vista, como você acha que vai estar o mercado para a música neste ano que começou agora?

SR – Estava conversando justamente com o pessoal da ABMI, o Pena Schmidt, e ele falava sobre a visão da música brasileira no exterior. É uma coisa quase que sem concorrente. O pessoal quer a música brasileira e, segundo ele, não importa o estilo. Eles querem música brasileira. Acho que este ano vai ser bem interessante aqui no Brasil. Talvez até pelo (Gilberto) Gil como ministro, já que ele está apoiando muito o crescimento da produção independente. Acho que mesmo vindo de encontro com a ABMI, que está crescendo mais e mais, as pessoas vão tomando conhecimento de artistas, gravadoras e discos independentes. Isso vai estar alcançando uma proporção cada vez maior. Tanto é que as majors estão muito assustadas, isso não é só no Brasil, é no mundo inteiro. Acho que a tendência indica que a coisa vai crescer. Mesmo que não ache que é de uma hora para outra. As pessoas vão tomando conhecimento aos poucos sobre produção independente. Até há um tempo ninguém sabia que existia. Hoje você já tem, até por causa do Midem, matéria com o Gil, que estava lá. Aí as pessoas começam a entender melhor, até amigos meus, quando você fala, "eu tenho um selo independente", eles já sabem o que é. Até tempos atrás eles perguntavam: "O que é um selo independente? O que é independente?" Você vê reflexos. Artistas grandes que saíram das majors e estão em gravadoras pequenas, como a Maria Bethânia, por exemplo. São reflexos que esse tipo de produção está crescendo mesmo, a coisa está tomando corpo. Falta ainda conquistar um mercado de público.

PM – Muita gente lembra ou acha que o chamado primeiro time, esses artistas já consagrados há bastante tempo, como o Chico Buarque, por exemplo, um nome sempre ligado a atitudes mais combativas etc, deveriam se posicionar de alguma forma para ajudar o mercado de modo geral, ajudar a música brasileira.

SR – Sim, com certeza. É lógico que ter um Chico Buarque no seu selo ajuda muito. Ajuda, inclusive, de modo geral a produção independente, o selo iria ajudar, outros selos também. Mas não sei se necessariamente esse seria o papel deles. O Gil está como ministro, mas está apoiando a produção independente. Eu não conheço a opinião desses artistas quanto a produção independente. A impressão que tenho é que tem muito artista que está ali na deles, fazendo o trabalho deles e está ótimo. Outros não, como a Maria Bethânia, não sei se ela teve problemas ou não com a gravadora dela e aí foi para a Biscoito Fino por opção. Porque na produção independente você tem um domínio maior das coisas. Você é um artista que senta e fala direto com o dono da gravadora. Então, é mais fácil.

PM – Mas de modo geral é isso, você percebe que existe um movimento legal e de que as coisas vão andar melhor?

SR – Eu acho que sim. Acho que a produção independente vai crescer bastante. E está crescendo. Acho também que a ABMI tem um papel fundamental nisso. Porque realmente conseguiu reunir as gravadoras do Brasil inteiro que hoje já se conhecem. E nesses encontros e palestras as pessoas também vão conhecendo isso, sabendo que existe um mercado independente, que existe um selo chamado Zabumba, um selo chamado MCD etc. O que falta ainda é espaço cultural para esses artistas se apresentarem. Porque se você não tem um show, um espaço cultural para esse artista se apresentar, a gente não tem como, por exemplo, que vocês nos divulguem, a parte de um disco. Acho que falta um pouco isso. Temos alguns bons espaços. Tem o Sesc Paulista, com o projeto de música instrumental. A rede toda dos Sescs, tem o Supremo, o All of Jazz, mas se pensar numa cidade como São Paulo, é muito pouco. Não temos uma casa grande que faça shows, por exemplo, de gravadoras independentes. Até pelo custo. Ainda falta um pouco isso. O público ainda desconhece esse tipo de músico e a mídia ainda não divulga 100%. Às vezes, quando lançamos um disco, eles são divulgados em alguns veículos que estão ligados a cultura. Mas o cara que às vezes compra o Estadão e a Folha... não sai nada ali. Ainda é difícil o cara falar sobre música instrumental, ou Márcia Lopes, enfim. Então tem esse trabalho todo de divulgação, de ter um espaço mais forte na mídia. Por exemplo, a mídia prestar um pouco mais de atenção, percebendo que as gravadoras pequenas estão se juntando e ficando mais fortes, então, vamos ver o que elas têm ali. E realmente dar mais abertura, como vocês fazem. Acho que é isso. Colocar o artista na rua. Hoje em dia a gente mal consegue sair da cidade, tocar na cidade. Principalmente no meu segmento, a música instrumental, os espaços são minúsculos, você tem milhares de grupos e as dificuldades são grandes, acho que falta intercâmbio. Do mesmo jeito que tem uma rede de gravadoras, deveria existir uma rede dos bares e casas que querem fazer um trabalho de música. Agora nós começamos um trabalho no Dinorah, na Vila Madalena, porque o dono quer fazer um trabalho com as gravadoras. Achei super legal. Ele está querendo buscar qualidade musical para a casa dele. Espero que dê certo. Acho que se tivesse um outro bar em Santana, que tivesse a mesma proposta, já tinham que se juntar. Como a ABMI foi. A ABMI não é nada mais do que isso.

PM – O Zabumba como selo está satisfeito, apesar disso tudo?

SR – Estou satisfeito. Somos um selo pequeno, a minha idéia é que a gente vá crescendo aos pouquinhos. Não estou visando ter ou não lucro, embora todo mundo espere ganhar alguma coisa, lógico. Mas a minha intenção ainda não é essa. Meu catálogo é pequeno. Acho que só vou começar a ter um resultado maior à medida que meu catálogo for aumentando e tiver mais discos para eu mostrar para o lojista, mais artistas. Mas a minha preocupação é continuar a fazer coisas de qualidade. A minha intenção é que seja um selo de qualidade. Independente de você ver um disco que seja instrumental ou não, mas olhe e saiba que aquilo é um selo de confiança. Pode até não gostar de certos estilos, mas vai saber que é um disco bem gravado, que é um trabalho musical interessante. Minha preocupação é essa, fazer um trabalho interessante.

Site do Zabumba – www.estudiozabumba.com.br










Copyright © Página da Música - Todos os direitos reservados.
Todas as fotos utilizadas neste site são de divulgação dos próprios artistas.