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Entrevistas > Hamilton de Holanda

Hamilton de Holanda dialoga só com mestres em seu primeiro CD

Por Rodrigo Contrera

Não é qualquer um que se mete a bambam do bandolim. A explicação é óbvia: a parada, duríssima, significa fazer frente a feras insuperáveis em suas respectivas épocas: Luperce Miranda (1904-1977), Jacob do Bandolim (1918-1969) e Joel Nascimento (1937-...), dentre outros. Hamilton de Holanda, de 26 anos, topou a
parada, ao lançar este ano seu primeiro CD solo, homônimo, pela Velas (ele tem três CDs lançados pela dupla Dois de Ouro, dele com seu irmão Fernando).

    Antes de mais nada, é bom dizer que apesar de Hamilton ser um garoto-prodígio curtindo uma estada de um ano em Paris com tudo pago (prêmio Icatu de música), nada há da chatice tão comum aos virtuosos nesse seu primeiro e cuidado CD. Virtuoso comum tende a perder-se em vapores. Já Hamilton, como bom brasileiro, meio carioca (nascimento), nordestino (raízes) e brasiliense (cidadania), parece não se esquecer um instante sequer do Brasil real do cidadão
comum. Contrariamente a conterrâneos que bolam Brasis idílicos, Hamilton pisa em solo firme.

    O Brasil de Hamilton tem timbres de jazz (Gismonti), bossa-nova (Baden e Vinícius, Tom Jobim), mpb (Chico, Marco Pereira e Aldir Blanc), choro (Jacob do
Bandolim), baião (Gonzagão), frevo (Nélson Ferreira) e tradição (Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro). A única composição própria do CD é em homenagem a Hermeto Pascoal (Menino Hermeto).

    Quem costuma ouvir sabe o quanto as mais tradicionais gravações de choro remetem a décadas passadas, principalmente aos anos 50. O tradicional "Vibrações", de Jacob do Bandolim com seu Época de Ouro, é o mais rematado exemplo. Nascido clássico, o LP (em CD pela raríssima série Acervo) está para sempre fincado na tradição e de olho no passado.

    É nisso que Hamilton de Holanda encontra o seu lugar. Todas as composições do CD (ou quase todas) são clássicos passados. Mas seu olhar é outro: mesmo
olhando para trás, percebe-se claramente seu interesse no futuro. Em parte é por isso que as 11 faixas, com raras exceções, parecem sempre acabar antes da hora. A seguir, uma pequena crônica das faixas, uma a uma.

Baião Malandro (Egberto Gismonti) - Primeiras amostras de virtuosismo em composição do todo-poderoso Gismonti, com tintes de jazzismo (certo exagero?
homenagem?) nos compassos finais. Não deixa de ser corajoso abrir o CD com alguém do porte de Egberto.

Deixa (Baden Powell e Vinícius de Moraes) - Versão quase irreconhecível do clássico de Baden e Vinícius, tornado menos intimista e mais cotidiano sem que com isso tenha perdido a leveza. Hamilton, aqui, transformou uma conversa ao pé de ouvido, como toda bossa nova, em crônica singela de cidade grande.

Samba ao Grande Amor (Chico Buarque) - Interpretação contida e meio jazzística do clássico de Chico. Pergunto-me por que teria o Hamilton escolhido esta
peça em detrimento de outras pérolas do samba de ainda maior expressão. Quem sabe tenha sido para agradar os ouvidos da galera. Desagradar não desagrada.

Menino Hermeto (Hamilton de Holanda) - Curioso é como esta peça, de autoria do intérprete, combina perfeitamente com o porte das outras escolhas, quase
todas clássicos. Não se percebe também qualquer destaque maior à peça pelo simples fato de ser própria. Outra curiosidade, quase efeméride: quem já
não percebeu o "menino" Hermeto só de ouvi-lo falar, quanto mais tocar? Hamilton não só percebeu como tocou.

O Boto (Tom Jobim e Jararaca) - A calma interpretação da parceria do Tom de todas as horas com o Jararaca do Ratinho conduz a alguns dos momentos mais etéreos do CD, apesar da simplicidade um pouco tediosa do motivo melódico da composição.

Vibrações (Jacob do Bandolim) - Talvez a melhor e mais respeitosa faixa de todo o CD. O irascível Jacob do Bandolim dificilmente resistiria a um arroubo de
sinceridade ao ouvir a versão de Hamilton a um de seus maiores clássicos. Hamilton não preenche os 40s. a mais de sua versão (em comparação com o original de Jacob) com virtuosismos efêmeros; ao contrário: sabe-se lá como, Hamilton consegue trazer o sempre clássico aos dias de hoje. Além de manter o ar de reverência ao mestre o tempo todo, agrada-o duas vezes ao não incluir peça do também grande Waldir Azevedo (desafeto mortal de Jacob) no mesmo CD. A notar, especialmente, um acorde dissonante abrindo a peça.

Santa Morena (Jacob do Bandolim) - Outro dos pontos fortes do CD. Sem exagerar no virtuosismo, Hamilton mostra aqui vários dos recursos que o transformaram na
grande promessa do bandolim dos dias de hoje. O estrepitoso final é de deixar o ouvinte preocupado com a integridade física do bandolim de dez cordas. 

Asa Branca (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira) - Difícil imaginar o que mais pode ser feito desse hino da nordestinidade. A versão aqui é longa (6min13s) e
por vezes um pouco redundante. Trejeitos vocais à la João Bosco acompanham o final dessa festa em homenagem ao homem que incorporou em si o espírito do cangaço.

Carinhoso (Pixinguinha e João de Barro) - A faixa mais claramente bolada como "homenagem". Mas a melancolia que toma conta nada tem de saudosista. Carinhoso é interpretada como um hino a uma época que, se por um lado não volta, por outro é origem de águas que vale a pena honrar.

Evocação (Evocação no. 1) (Nelson Ferreira) - A animação do frevo só se engrandece com o lirismo contido da peça de Nelson Ferreira sob a batuta de
Hamilton. Forte como a personalidade nordestina, a alegria de Evocação por pouco não se transforma em hino ecumênico: Nordeste, Brasil de todos os tempos e sofrimentos.

O Teatro da Natureza (Marco Pereira e Aldir Blanc) - Encerramento apoteótico cuja mensagem subliminar parece ser "este aqui é o Brasil, pessoal, com toda
sua alegria e suas dores, em música eternizadas".

    Fica difícil imaginar o próximo CD de Hamilton de Holanda (que venha logo). O que esperar de quem, aos 26 anos, já consagrou sua própria versão de clássicos
de quase todas as tradições musicais do território?

    No texto de apresentação do CD (de autoria de João Máximo), Hamilton diz: "O que eu quero com este disco é mostrar minha cara sem fazer nenhuma salada". Não é difícil apreender, ouvindo vezes sem conta seu primeiro trabalho, que a cara do Hamilton tem a cara do Brasil. Esperemos o próximo CD para ouvir, da mesma palheta, quão antenados andam os ouvidos de Hamilton de Holanda (e seu time de primeira) face este Brasil que só anda a passos de gigante.

Rodrigo Contrera é jornalista (rodrigocontrera@ig.com.br)

Para adquirir o CD "Hamilton de Holanda": Tel 0800-234425












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