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Entrevistas > Cordel do Fogo Encantado

Profetas de sons e imagens

"Antes dos mouros os trov es j faziam um som. Permitam que a gente fa a um som que n o seja necessariamente o bai o, permitam que a gente fa a um som que n o seja necessariamente o xaxado, o xote, a m sica tradicional sertaneja. Que a gente tenha liberdade de fazer uma m sica que nas a da cabe a, do sentimento que a gente tem. Claro, evidente que vai vir carregada desses c digos, porque foi o que mais escutamos, mas, mesmo assim, permitam que a gente aplique uma m sica mais inventiva e menos celebrativa dessas j existentes"


Por S rgio Foga a

"Antes dos mouros, os trov es j faziam um som" e ent o nascia o Cordel do Fogo Encantado. Se n o, como explicar esse batuque primitivo, prematuro at , vindo das cordas, vocal e percuss o do grupo? E a fala po tica, prof tica, vision ria que salta das letras? Sua mensagem ou seria miss o? vem carregada de sentidos antag nicos, hist ria e vis es. Se primitiva, tamb m contempor nea. Pulsante acima de tudo. Poderosa e carregada de imagens. O grupo lan a seu segundo trabalho, "O Palha o do Circo Sem Futuro". Promete repetir o sucesso do primeiro. Tem poesia, batuque, cordas e, principalmente, paix o. No tempero, as cordas criativas de Clayton Barros, a orat ria visceral de Lirinha e as percuss es espont neas e precisas de Emerson Calado, Nego Henrique e Rafa Almeida. Ali s, a percuss o, garantem, tem o mesmo peso que todos os outros elementos do grupo. Coisa dif cil de se ver por a . Por isso, o mesmo Cordel quebrando paradigmas, mas tamb m outro Cordel, mais maduro e aberto a novas experi ncias. Um verdadeiro prisma de id ias. O grupo gravou seu primeiro CD, hom nimo e independente, em 2000, produzido por Nan Vasconcelos. Vindo de Arcoverde, a primeira cidade do sert o de Pernambuco, o Cordel j arrebentou em shows hom ricos pelo Brasil e exterior. Da pra a da S , centro de S o Paulo, passando pelo Free Jazz, tamb m por aqui, a Palmengarten, uma esp cie de jardim bot nico de Frankfurt, na Alemanha. A turn europ ia ainda incluiu lugares como Paris e B lgica, sempre impressionando as plat ias. Com o CD mais recente pronto, registrado, a banda agora volta s turn s. Primeiro cumprindo agenda com um projeto da Petrobr s, rodando por cidades como Fortaleza, Aracaj e Salvador e j mostrando o novo trabalho. Depois, lan ando efetivamente o CD em capitais como S o Paulo, Recife, Belo Horizonte, al m de algumas cidades do interior. Para eles, a vida parece mesmo feita de som e f ria, mas sem perder a ternura. Talvez sejam anjos ca dos, lembrando a composi o que abre o segundo CD. Composi es todas feitas por eles. Letras, m sicas e arranjos. Malditos e benditos. A palavra de volta, o verbo carregado de som e imagem. Acompanhe a conversa que o site P gina da M sica teve com dois de seus integrantes, Lirinha e Clayton Barros.

P gina da M sica O primeiro ato da hist ria de voc s corresponde ao primeiro CD, onde voc s, como j disseram outras vezes, mostraram o cen rio de onde vieram, as influ ncias etc. O que podemos esperar deste pr ximo trabalho que ser lan ado agora em novembro?

Lirinha A continuidade da liberdade da composi o, que foi a caracter stica principal do primeiro trabalho. Com essa liberdade a gente atinge uma contradi o. Explico. Se voc entende a ess ncia como a liberdade na composi o e n o a ess ncia como os ritmos que n s traz amos do primeiro disco, esse segundo continua sendo uma vis o de sentimentos dos cinco integrantes, no momento em que est o vivendo. Naquele primeiro registro, ficou claro a id ia de coisas ligadas terra de origem, terra natal, ou seja, a Arcoverde, o cen rio vivido pela gente ali. Nesse segundo j aparece a vis o da nossa sa da, da viagem, de se desterrar, do xodo, dessa retirada que, de qualquer forma, n o uma retirada opcional, uma retirada ocasionada por uma necessidade dentro daquilo que foi escolhido e a regi o n o possibilitava isso. A gente sai com a inten o de que aquilo j encheu, mas de qualquer forma uma sa da violenta. Esse segundo registro, ou segundo ato, cheio dessa vis o de fora, dessa vis o saudosa. Em tr s m sicas, pelo menos, esse tema vem muito forte, al m de outros sentimentos, sentimentos at de conviv ncia no exterior.

Clayton Barros Para mim ele mostra muitas caracter sticas que a gente foi processando no decorrer do tempo e das id ias que debat amos na cabe a. Absorvendo influ ncias, digerindo e processando outras id ias atrav s disso. Acho que um ciclo natural do ser humano, que estar em constante transforma o.

Lirinha Uma das coisas mais complicadas que, voc sabe, existe uma press o psicol gica muito forte em todos os artistas no seu segundo trabalho. Existe at um nome que se d a isso que s ndrome do segundo disco . As pessoas comentavam muito, os artistas que j tinham passado por essa fase, quando a gente estava viajando. Repetiam bastante esses coment rios com a gente, de que seria um momento bastante dif cil. Eu ficava, s vezes, sem entender porque seria dif cil, mas agora entendo o que na verdade essa s ndrome do primeiro disco. justamente uma grande discuss o que a sua cabe a faz em rela o a qual a sua ess ncia. Porque uma das coisas que a gente mais escuta por onde a gente vai passando "N o percam as suas ra zes. Por favor, pessoal, n o percam a sua ess ncia". O pessoal tem uma liga o muito forte com a gente nesse sentido, de medo de que o mundo, vamos dizer, engula a gente. Principalmente sobre aquele trabalho que a gente fazia no primeiro disco. E isso a grande discuss o desse segundo trabalho. Internamente foi o maior papo e at hoje o que mais rola quando os cinco se encontram, que o que seria se descaracterizar? O que seria nossa maior caracter stica, o que seria tamb m a nossa raiz, o que seria a nossa ess ncia?

PM Essa discuss o foi acontecendo durante o trabalho, ou voc s foram fazendo o trabalho pelo trabalho meio desencanados disso?

L Como o grupo vem de uma origem c nica, de teatro, ent o a gente trabalha em cima de um tema. O espet culo, de qualquer forma, nasceria dentro desse tema, que posteriormente foi intitulado de "O Palha o do Circo Sem Futuro". Mas todas as m sicas j estavam nascendo de uma composi o ligada a esse tema. Depois a gente ter oportunidade de explicar porque o tema. Ent o, come amos esses questionamentos desde a sa da de Arcoverde, depois a sa da de S o Paulo, quando fomos em turn para o exterior, num momento em que as influ ncias come aram a ser mais claras do que a gente estava fazendo, influ ncias externas, n o s de Arcoverde. Pens vamos: "O que est rolando? Ser que a gente est se descaracterizando?" E dentro desse papo, dessa d vida surgida na banda, que v rios assuntos foram sendo resolvidos na cabe a da gente. Um deles sobre a tradi o, a ess ncia. A gente foi percebendo que, na verdade, a nossa ess ncia seria mais na forma de composi o do que na f rmula de composi o.

PM Ali s, o disco abre com uma fala meio indecifr vel, acho que numa outra l ngua. Ou seja, logo de cara a gente j percebe um certo tom de universalidade, n o?

CB uma percep o de passeio pelo mundo. Utilizando coisas externas, encarando como sendo coisas naturais do ser humano e trazendo para o nosso trabalho de uma forma livre, espont nea. Essa vinheta de abertura de uma mulher que fala em flamengo. Ela recita um poema de Pablo Neruda, na mesma l ngua. Ou seja, Pablo Neruda, que chileno, sendo recitado em flamengo l na B lgica. Essas liga es das dist ncias dos mapas, mas com id ias t o perto circulando ali.

L No primeiro disco a gente fez uma m sica chamada Antes dos mouros, que j era uma tentativa de jogar essa discuss o. Principalmente na m sica e no teatro. Quando come amos a fazer m sica em Arcoverde, por ser do sert o, o grupo come ou a ser logo ligado aos ritmos tradicionais do sert o nordestino. Principalmente s figuras de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. Era inevit vel esse tipo de id ia para poderem comparar a gente, j que s o nomes muito fortes, at em mbito mundial. E n s v nhamos de uma regi o pr xima deles. O Cordel vem de muito perto de Exu, a terra de Luiz Gonzaga. Ou seja, o mesmo cen rio, a mesma temperatura, talvez a mesma forma o geogr fica. Quando come ou com isso, a gente at escreveu uma m sica chamada Antes dos mouros, que era para pedir permiss o, poeticamente, para poder fazer uma m sica que n o fosse necessariamente filha da m sica moura ou rabe, que a grande formadora da musicalidade nordestina. Isso muito pr ximo daquele discurso de Ariano Suassuna e Antonio N brega, que a gente j na adolesc ncia escutava muito. E foi bem importante esse toque que Ariano deu com rela o a valores culturais, sobre dar valor nossa cultura. Embora importante, ao mesmo tempo criava tamb m uma determinada pris o proporcionada por essa id ia de que a forma o brasileira de negro, ndios e portugueses... M sica moura era isso, essas tr s forma es, qualquer coisa inserida a iria sujar a imagem, como a m sica americana e tudo isso que Ariano at hoje debate. Por isso a gente pediu permiss o com essa m sica Antes dos mouros, dizendo que antes dos mouros os trov es j faziam um som. Permitam que a gente fa a um som que n o seja necessariamente o bai o, permitam que a gente fa a um som que n o seja necessariamente o xaxado, o xote, a m sica tradicional sertaneja. Que a gente tenha liberdade de fazer uma m sica que nas a da cabe a, do sentimento que a gente tem. Claro, evidente que vai vir carregada desses c digos, porque foi o que mais escutamos, mas, mesmo assim, permitam que a gente aplique uma m sica mais inventiva e menos celebrativa dessas j existentes. Uma composi o, vamos dizer, menos preocupada em celebrar e reproduzir, resgatar. Isso uma coisa que o Cordel tem id ia desde o in cio, de que n o precisava de resgate, por ser muito forte j na gente.

PM A carga regional j estava a , era ir dali para frente...

CB Isso inevit vel. Rola um mergulho nas nossas bases, nas nossas id ias desde o princ pio, al m de um olhar no presente, nas coisas que a gente v do mundo e que a gente sente dele hoje. Ou seja, ter sa do de Arcoverde, no Recife, vir para S o Paulo, andar pelo Brasil, ter sa do do Brasil tamb m, ter trocado id ias com outras pessoas. Rola esse mergulho das bases que vem do primeiro disco, da nossa influ ncia musical, mas com olhar do presente.

L A id ia dessa abertura, por exemplo, porque o primeiro disco e este de agora se complementam. Em v rios momentos um fala do outro. O primeiro disco abre com um aboio. Um aboiador tangendo o gado l da regi o da gente, da nossa terra, l em Alagoinha, no agreste de Pernambuco. E nesse segundo a gente brinca um pouco com essa possibilidade. A gente abre com uma coisa gravada pelo grupo, que estava andando no metr de Berlim, e um cara pedindo esmola, em alem o...

PM Voc s gravaram?

L Do mesmo jeito que gravamos o aboiador. Da mesma forma, sem nenhuma diferen a.

PM A j fica bem claro essa diferen a e, ao mesmo tempo, essa liga o que h entre os dois trabalhos. No primeiro, onde voc s mostraram o cen rio de onde vieram, e no segundo, como o regionalismo j estava embutido, voc s v o adiante. Quer dizer, a coisa inventiva, criativa, a absor o das coisas do mundo feita at da mesma forma, evidente, porque registro, s que de lugares bem distantes onde voc s alcan aram, at de outro continente.

CB um sentimento que temos do presente. Ou seja, no momento em que voc est criando, rola um sentimento que n o s olha para o passado, mas tamb m para os dias de hoje, no momento em que se est realizando aquilo.

PM Sobre a organiza o musical dos discos, no primeiro voc s tiveram o Nan Vasconcelos como produtor musical e neste segundo n o. De alguma forma, se ele estava l , pode ter influ do um pouco. Como voc s comparam esses dois trabalhos, um com a presen a dele e outro sem?

L Sabe que aproveito para dizer que justamente isso tenha sido uma das caracter sticas da genialidade de Nan , que foi ter conseguido influenciar o m nimo poss vel. Foi o primeiro disco produzido por Nan , da vida dele...

CB E ele n o mexeu. Mesmo como primeira experi ncia, ele n o modificou o nosso som. Ou seja, ele procurou ao m ximo deixar como estava. S nos guiou com rela o s t cnicas de est dio.

L Para fazer isso, necessitava de uma certa genialidade. ramos um grupo muito imaturo na poca. ramos um grupo que tinha experi ncia em teatro, mas com som, microfone, essas coisas era um grupo muito imaturo. Qualquer outro menos experiente que Nan teria metido a m o. Porque era tudo t o poss vel de meter a m o, sabe? A gente estava esperando, inclusive, refer ncias para poder chegar no mundo. Se uma pessoa dissesse: "Olha, voc s s v o conseguir se fizessem isso", talvez naquele momento a gente acatasse. E Nan disse: "Os meninos s o o que s o". J chegou com esse papo e deixou a gente muito vontade. Nunca faltou um dia. Passou todos os dias da grava o junto com a gente. Era o primeiro a chegar, ficava o tempo todo com a gente, e a interfer ncia foi m nima. Quando fazia uma participa o, era de uma forma que n o engolia nem nada, que se encaixava, como na faixa Antes dos mouros.

PM De qualquer forma, agora voc s sentiram mais liberdade, ou n o necessariamente? A produ o do pr prio Cordel, certo?

L Isso. E por que a gente decidiu isso? Primeiro porque a gente n o encontra refer ncias do som da gente em outros discos. A caracter stica da forma o com percuss o e viol o e a tentativa de uma presen a mais agressiva da percuss o, com influ ncias punk tamb m, na postura, fez com que a gente se sentisse um pouco s , isolado nesse ambiente de outros discos como refer ncia. Eu sei que, como a gente n o tem essa refer ncia, fizemos essa op o. T nhamos muito claro o som de percuss o ao qual a gente queria chegar. Como n o t o f cil isso, resolvemos apostar todo o dinheiro que tinha destinado a um produtor musical no nosso plano, para t cnicos de som que v o l captar. Porque naquele momento nosso problema n o era mais sobre a id ia art stica, mas de capta o.

CB Um dos t cnicos j trabalhava com a gente, inclusive percorrendo as turn s, j estava em constante discuss o sobre o som, de como seria a capta o e a coloca o desse som no disco. A gente utilizou muito do que aprendeu com Nan , em rela o s coisas de est dio, da sala, a situa o t cnica, e a situa o tamb m de n o se agarrar tanto s m quinas e dar uma respirada com sentimentos e atitudes menos racionais. Ou seja, n o produzir um produto, mas sim uma obra.

PM As composi es continuam sendo do grupo, maci amente. Tem alguma m sica que n o do Cordel?

L Tem uma poesia que de Jo o Cabral de Mello Neto...

CB Tem um refr o popular...

PM S o refer ncias, mas m sicas inteiras tem?

L A gente chegou a gravar uma de Nan . Mas n o se encaixou no conceito final do disco. A gente est com ela, bel ssima, mas para um terceiro trabalho.

PM Com rela o mensagem entre os trabalhos,o CD de agora traz o mesmo tipo de mensagem, se ela existe especificamente, ou a gente volta para essa id ia de universalidade? Voc s tinham uma inten o quanto mensagem no primeiro, que mudou um pouco no segundo?

L O nome do primeiro disco Cordel do Fogo Encantado, que a hist ria do fogo encantado. O cordel surge a como sin nimo de hist ria e n o como uma homenagem literatura. Muita gente percebeu como uma homenagem porque coincidiu com o momento em que se comemorava os cem anos da literatura de cordel, exposi es no pa s inteiro, e tal. Mas o t tulo n o surgiu nessa id ia, n o. Em 1997, quando a gente fez esse t tulo para um espet culo, em Arcoverde, antes mesmo de ir para Recife, antes de virar o nome da banda, inclusive, a id ia de cordel era sin nimo de hist ria, a hist ria do fogo encantado, o cordel do fogo encantado. E que hist ria essa? A hist ria da vida da gente, no caso. O s mbolo fogo, o mais representativo da nossa vida. E no encantado a vis o, que at hoje o Cordel tem na sua estrutura art stica. Uma vis o prof tica, apocal ptica, de liga o m stica, dessas coisas que t m poderes abstratos.

CB A gente se utilizou muito desses tr s elementos, dessa for a l dica para compor as m sicas. Algumas com car ter bem claros, ditas nas letras e na musicalidade. Em outras, a gente passeou pelo l dico, procurando causar climas e deslocamentos.

PM E nesse CD de agora?

L O primeiro tema que nos veio em mente, para este CD de agora, era a guerra. Mais a guerra dial tica, do conflito. Era uma id ia filos fica de a guerra rainha e m e de todas as coisas.

PM Por que primeiro surgiu esse tema?

L Talvez por uma situa o de vis o naquele momento que a banda estava vivendo. Um conflito de sair da cidade, um conflito dessa chegada em S o Paulo.

PM Voc s j estavam com o CD?

CB A gente saiu daqui para gravar o CD.

L V rias coisas levavam a gente para esse tema da guerra. A pr pria situa o na virada do mil nio, no mundo ocidental, no caso, que a gente estava presenciando e estava vivendo. Inclusive quando a gente gravou esse cara pedindo esmola em Berlim, ainda esse tema era o que estava vigorando. Ia ser "A guerra do fim do mundo", um livro de M rio Vargas Llosa a respeito da guerra de Canudos. A gente ia usar esse fim do mundo, que tem uma vis o apocal ptica. Inclusive, sobre esse cara que estava pedindo esmola, ele dizia que os pais dele haviam morrido na guerra, e pedia a esmolinha. A a gente ficou achando bastante interessante todo esse tema. S que aconteceu o atentado ao World Trade Center, a achamos que o tema guerra traria um s mbolo muito forte naquele momento...

CB - ... e limita es tamb m...

L Essa coisa de Bin Laden, Afeganist o, Estados Unidos.

CB Como aconteceu nos Estados Unidos de um compositor que tinha um disco todo fundamentado em cima dos atentados, ou seja, uma informa o que ele trouxe e resumiu a um nico tema o disco dele. A gente n o queria esse tipo de associa o.

PM A voc s ampliaram, vamos dizer, a id ia do tema?

L A guerra caiu como tema. Mas o tema teria que ser esse. A banda estava vivendo esse determinado conflito, esse determinado olhar ligado a esse cheiro de guerra, essa condi o que a humanidade estava vivendo na virada do mil nio. Depois disso a gente partiu para uma id ia de tempestade. Porque na tempestade estaria presente essa id ia do conflito, da guerra, a guerra dos trov es. Tamb m um ambiente extremamente turbulento e confuso. E tamb m bastante poderoso. Poderoso no sentido de, quando uma tempestade passa, assim como uma guerra, nada fica igual. As coisas se modificam, ou para o bem ou para o mal, n o cabe aqui um julgamento. Mas varre aquele ambiente, muda aquilo tudo. E como a m sica est no trov o, a gente resolveu ir modificando.

CB Eu vejo um tipo de evoca o revolta dos elementos, da natureza. A jun o do ar com a gua, os trov es um causador de transforma es. A tempestade tira as coisas de um lugar e coloca no outro.

PM Essa linguagem cinematogr fica ou cenogr fica, enfim, figurativa, muito forte em voc s. Talvez uma linguagem que venha do teatro mesmo, isso muito evidente. A m sica de voc s bastante visual. Como voc s conseguem transmitir musicalmente essa emo o entre quatro paredes, ou seja, dentro de um est dio?

CB Algumas composi es foram feitas em est dio. A gente foi compondo no decorrer da turn e dos nossos shows. Quando a gente pensa em cria o, n o s o quatro paredes que v o fechar a sua imagina o, o seu olhar atravessa essas paredes. Uma das coisas que Nan passou muito para mim foi esse desprendimento. N o ficar preso por estar no est dio, n o seguir o rigor do est dio. Porque existe uma certa frieza, uma certa l gica com aquelas m quinas todas ali presentes, aqueles n meros, aquelas luzes piscando. a descoberta de um certo desprendimento seu, de n o se agarrar quele ambiente e falar das coisas externas, ou seja, do mundo rodando l fora.

L Nan foi fundamental nesse aspecto. Lembro que na primeira vez que estivemos num est dio a escolha de Nan foi muito por isso mesmo. Porque um show do Cordel n o s udio, ele tamb m o que se v , visual. E o que fazer num disco, j que s udio? Esse tema que voc tocou foi o motivo principal da escolha de Nan . Porque a gente percebia que a m sica dele n o era apenas auditiva. Uma chuva na Amaz nia Nan realiza. Voc v o rio, o trov o. E muitos toques foram dados no primeiro disco em rela o a isso a . E olha que a gente n o conseguiu passar da mesma forma. Ainda n o conseguimos passar, mas uma busca incessante.

PM Essa busca d para perceber na m sica de voc s.

CB A gente comp e e se inquieta com aquilo, fazendo com que essa inquieta o gere a produ o de outras e n o o agarramento de sugar daquilo at o fim, aquilo morre e voc pode ficar sem ter onde buscar. Ou seja, olhar para a amplitude do mundo e dar a sua imagem, a sua interpreta o, o que voc acha daquilo, como voc reage sobre aquilo.

L Tem mais: o teatro muito t cnico, feito entre quatro paredes e s o concebidas coisas maluqu ssimas. No show, isso tamb m pode ser uma pris o. Acho que voc deve carregar a emo o junto com voc . A mesma coisa, talvez, voc dizer que se sente bem em Recife, enquanto que em S o Paulo eu n o sou nada. muita transfer ncia para o lugar, de um sentimento seu...

CB - ... que est guardado em voc ...

L - ...por onde voc anda. Se voc est bem, voc estar bem em qualquer lugar que voc andar no mundo. Isso uma coisa que todo mundo sabe. s vezes voc est bem em qualquer lugar, como s vezes est mal tamb m em qualquer lugar, mesmo que seja uma praia, por exemplo. Ent o, o que acontece em est dio, se voc esperar emo o s do p blico, voc n o vai ter emo o l , n o.

PM Musicalmente tamb m observa-se uma sonoridade um pouco diferente nesse CD, como o toque do seu viol o, por exemplo Clayton?

CB O primeiro disco praticamente todo feito em cima de um viol o ac stico. Foi at uma caracter stica do primeiro disco, uma certa inoc ncia, ou simplicidade. Mas neste segundo CD procuramos dar timbres diferentes ao viol o a cada m sica e com uma percuss o tamb m agressiva, forte, presente, n o sendo coadjuvante ou estando em segundo plano, mas, sim, todos individual e coletivamente juntos. Tem a apari o individual dos m sicos e tem a apari o coletiva.

PM No primeiro voc s tinham aquelas interfer ncias do Nan , inclusive com esses efeitos da natureza que a gente estava falando. Nesse segundo voc s j n o tinham a presen a dele.

CB F sica, n ? Porque a influ ncia dele j est dentro da gente e ele nos influenciou pra caramba...

PM - ...e voc s, ao mesmo tempo buscam, como j estavam falando, essa maneira de trazer esses elementos todos. Por isso, voc "sujou" um pouco mais as cordas, trazendo outras sonoridades?

CB Era uma certa f ria, al m de que o disco j vem carregado dessas id ias. As m sicas trazem muito essa rela o do riso com a tristeza. Do amor como irm o da dor, e proporcionador do cansa o tamb m. Ent o, para mim, influenciou muito colocar essas cordas mais "sujas". Era um sentimento meu tamb m.

L Tamb m para sair daquela tradi o do que o viol o e do que guitarra. O Cordel provoca muito esses tipos de quebras. Por exemplo, a percuss o tem uma tradi o de ficar l atr s, tanto na coloca o c nica, como na coloca o de um disco, de um udio. A percuss o tamb m tem uma liga o muito forte com o terceiro mundo, dentro dessa divis o capitalista. Na Europa e nos Estados Unidos, a percuss o praticamente n o estudada para microfonar, por exemplo...

CB Acho que isso acontece mais nos Estados Unidos, porque na Europa, at por conta dos africanos estarem mais perto, tem um pouco mais diversidade quanto percuss o e at pessoas que trabalham mais com isso. Agora, nos Estados Unidos ela vista mais como base ou fundo.

L Aquilo que os Beatles imortalizaram. A pr pria ind stria estimula s guitarra, baixo e bateria. A pr pria ind stria n o dedicou o mesmo tempo de estudo de capta o de percuss o que dedicou para capta o de baixo, guitarra e bateria. Por isso hoje temos essa defici ncia. Estamos anos atrasados. A gente usa microfones de outras coisas, pegando emprestado, para captar percuss o. Esse viol o de Clayton, por exemplo, eu percebo muito parecido com as percuss es tamb m. O que as pessoas dizem: "N o, viol o n o se distorce". Enfim, coisas ligadas tradi o apenas, que s o extremamente question veis, fr geis e t m muita mentira por tr s dessas coisas de tradi o.

PM Se identifica isso como uma proposta da banda, ou seja, a quebra das tradi es, como na sonoridade de cada instrumento?

L A gente sempre come a dizendo que, com isso, n o significa que a banda se sinta superior. E n o conversa pol tica. A banda n o se sente superior, nenhum degrau a mais de outro grupo. apenas a nossa forma de trabalho, de compor e de executar. Quer dizer, tem grupos que s o amigos nossos e trabalham no caminho inverso. Vou citar o nome: O Mestre Ambr sio, por exemplo. Eles trabalham em cima de pesquisa. E uma pesquisa bel ssima, inclusive, al m deles serem nossos amigos, todos eles, e j debatemos v rias coisas. S que o Cordel n o faz pesquisa musical. A gente n o vai, vamos dizer, numa aldeia ind gena gravar para depois fazer uma interpreta o disso. Isso n o bem o que o Cordel do Fogo Encantado pretende realizar na m sica brasileira. N o isso. Na m sica mundial, no caso. A gente pede licen a para uma cria o, uma continuidade. Luiz Gonzaga n o fazia aquele som? Ent o, pedimos para que a gente continue o som. J escutamos aquilo e vamos continuar. E n o pegar as m sicas de Luiz Gonzaga e reinterpretar. N o bem essa id ia, a continuidade. Um som que saia o m ximo poss vel da cabe a da gente e do m nimo poss vel de refer ncias, de f rmulas, de nomes, de ritmos. tanto que vivemos problemas com esse segundo disco, com rela o a dan ar, por exemplo. Qual seria o ritmo? meio confuso isso. Nesse segundo disco, qual o ritmo dessas m sicas? Talvez seja dif cil dar nomes. Se maracatu? N o . Se uma cantiga de terreiro? N o estou sentindo isso. Se um coco? Ah, n o sei. Nem a gente sabe mais. Estamos com o maior problema para fazer release. Sabe, quando vai colocar tipo, a banda que mistura coco, maracatu ... uma grande mentira, a gente pode at colocar, mas uma grande mentira.

PM verdade, n o se consegue exatamente identificar o que tem em cada faixa. Voc sente alguns ritmos j estabelecidos, mas a verve de voc s em tocar e produzir acaba criando mesmo outros ritmos que na mistura voc se perde mesmo, n o consegue definir. O que super legal tamb m.

CB S o coisas que o ouvido capta pelo mundo e a mente reprocessa. Voc domina coisas que te influenciaram e coloca a sua interpreta o, sua forma de pensar.

PM Voltando s cordas, na faixa 11, chamada Matadeira (ou No balan o da justi a), tem umas cordas bem pesadas, que podem ser confundidas com guitarra ou uma certa amplifica o.

CB Ali o viol o mesmo, n o guitarra, n o tem over drive. Foi uma grava o que a gente fez com caixa de baixo e um amplificador de guitarra, e eu toquei muito perto do alto falante. Ou seja, aquilo proporcionava uma sobra suja que vazava pelos microfones e ia para a grava o.

PM Parece, inclusive, que a m sica pedia isso. uma m sica pauleira, em id ia e som.

CB Os pr prios acordes, a melodia dela traz essa carga pesada, essa postura agressiva, forte. A gente tenta causar impacto.

PM Qual a id ia dessa m sica, a Matadeira?

L Matadeira era o apelido dado a um canh o alem o utilizado na Guerra de Canudos. Esse apelido era dado tanto pelos que morriam como pelos que atiravam. Esse canh o vinha de navio e era muito festejado pelo governo, essa id ia de ter comprado o canh o alem o para ser utilizado na Guerra de Canudos. E o pessoal sabia e dizia: a matadeira vem chegando, a matadeira ta . Foram v rias juntas de bois para levar essa matadeira pelo sert o, chegando at a um morro para bombardear Canudos. E a gente fala sobre essa matadeira, dizendo: "a matadeira vem chegando/no alto da favela", que bom lembrar que era o nome do lugar onde se fez o arraial de Canudos.

PM Interessante. Remete ao passado e presente ao mesmo tempo?

L Veja que coisa ainda mais interessante que eu n o sabia. Quando fiz a frase, no alto da favela , porque era o nome onde se fez o arraial de Canudos, eu descobri que, por coincid ncia, em 1897 foi quando acabou Canudos. As favelas come am a surgir em 1900 e pouquinho. Justamente com os descendentes, n o s de Canudos, mas com o pessoal do nordeste. E uma avalia o do governo, com rela o quela forma o l nos morros do Rio de Janeiro. N o eram ruas retas, mas uma forma o labir ntica. Forma o confusa, as cores, geralmente de barro e madeira, semelhante favela de Canudos. A aplica o, denomina o de favela, possivelmente, vem por conta de Canudos. Porque Euclides da Cunha, atrav s dos jornais, falava muito: do alto da favela . E Euclides de Cunha era um correspondente de guerra. Mas eu n o tenho muito certo isso, uma interpreta o minha. Ent o, l por 1920 se via muito na imprensa a palavra favela, que uma vegeta o emaranhada, confusa, muito parecida forma o de Canudos com as favelas. Outra semelhan a o acesso que temos sobre favela pelos jornais. Isso faz levantar uma quest o em nossa cabe a: "Ser que a gente sabe realmente o que est acontecendo? Ou s depois que a gente matar todo mundo que vamos saber a verdadeira hist ria?" Como Euclides colocou no final de sua obra, dizendo "Canudos foi um erro".

CB As not cias dele sobre a guerra eram parciais, e no desenrolar dela j para o final ele come a a mudar de posi o, ver problemas, perceber que n o foi t o interessante a provoca o dessa guerra.

L E come a  ver tamb m o quanto o restante do Brasil n o se comunicou com aquela turma, para saber o que estava acontecendo.

CB A justi a de m os tr mulas, a composi o da destrui o...

L O nome da m sica A matadeira ou No balan o da justi a. mais ou menos uma liga o tamb m musical com isso. No balan o da justi a, seria as suas balan as. Ent o, a matadeira vem chegando/l no alto da favela/no balan o da justi a/do seu criador.../salitre, p lvora, enxofre, chumbo/o banquete da terra/o teatro do c u/diz a quem vem l /o velho soldado/o que traz no seu peito/a vida e a morte/o que traz na cabe a/a matadeira/o que veio falar/fogo.

CB O homem exercendo seu segundo exterm nio.

PM Para a gente fechar a id ia dos temas desse CD, quais s o eles, de modo geral?

L Como a gente tinha falado, t nhamos terminado em tempestade, mas tem s mais uma id ia. Tinha passado pela guerra e caiu devido ao World Trade Center. Tempestade, quando a gente j tinha praticamente escolhido, soubemos que foi o t tulo de um disco do Legi o Urbana. Ent o, n o quisemos repetir esse t tulo devido s quest es de j ter sido t tulo de outro disco. Ficamos pensando em qual seria o t tulo. Tinha essa m sica, O palha o do circo sem futuro. A capa estava sendo feita e o cara, dentro do tema tempestade, fez um palha o todo molhado, um circo furado, tipo decadente. Quando a gente viu aquilo, pensamos, "n o, o t tulo esse mesmo: O Palha o do Circo Sem Futuro". Esse t tulo foi o primeiro que surgiu, o primeiro tema. S que a gente n o colocou como t tulo logo de cara porque muitas pessoas come aram a questionar sobre o tamanho dele, de ser muito grande. E outras pessoas, da produ o, tiveram a vis o de que a express o "sem futuro" n o seria muito legal para gente. S que depois, analisando, pensamos: isso a cara do Cordel. Nosso nome j grande, Cordel do Fogo Encantado. Ficou quase que a mesma m trica.

PM O t tulo, como muitas vezes acontece em coisas criativas, traz id ias antag nicas. O palha o, que remete alegria, seguida de uma mensagem negativa, o que estimula v rias id ias ao mesmo tempo.

L E a est presente a guerra e a tempestade, sem d vida alguma. Totalmente dentro do tema, sem for ar...

CB Eu vejo no palha o o fim como resultado do come o. E causador de transforma es.

L Engra ado, no primeiro disco, por exemplo, a gente resolveu que a banda teria reuni es para definir o que falar sobre o Cordel do Fogo Encantado, para dar uma resposta homog nea. E nesse segundo a gente decidiu fazer o contr rio. Fizemos uma reuni o e decidimos que cada um conversar sobre o Palha o do Circo Sem Futuro sua maneira. Porque um tema muito amplo, que se a gente fechar em um assunto deixar outros de fora. Como, por exemplo, na minha vis o, que compus a letra dessa m sica. uma met fora, uma liberdade po tica, no caso, da utiliza o dessa imagem, para uma id ia do seguinte: O circo, esse circo, o mundo que a gente vive. O palha o o ser atuante, o ator desse circo, uma pessoa que segura o circo, que conduz o espet culo. E o sorriso pintado noite inteira para mim era fant stico, devido s m scaras sociais. Quer dizer, voc pinta para poder acontecer essa atua o, essa transforma o de voc como um ser atuante. E o "sem futuro" surge por duas coisas. Uma a situa o que a gente realmente percebe da falta de perspectiva, principalmente da gera o da gente. Na nossa cidade incr vel como isso percept vel. A turma da idade da gente n o tem id ia do que vai fazer. Isso a gera o do meu pai n o viveu. A gera o de 60 n o viveu. Tinha aquele neg cio de querer mudar o mundo etc. A gente veio numa hora em que n o sabe o que vai rolar. um mundo sem futuro, sem perspectiva. E tamb m porque no momento em que estava compondo essa m sica eu estava muito ligado ao estudo da trag dia grega. Na trag dia grega o ser humano come a a expor seus sentimentos. Mas n o tem jeito, porque os deuses definem tudo. Mas o come o da express o dos sentimentos, na literatura, est na trag dia. Embora o homem ainda n o resolva o final, quem resolve o deus. Ent o, o palha o do circo sem futuro tinha uma vis o dentro dessa condi o mortal, tr gica da nossa vida. Pode voc espernear, ter planos e tal, mas voc tem um determinado fim, uma determinada coisa sem futuro. tanto que no meio da m sica diz: e essa trag dia que viver/e essa trag dia. J o Clayton viajou em outras id ias.

PM Para o Clayton como ?

CB Eu vejo a vida caminhando para o fim. E o fim, como resultado do come o. E o fim tamb m causador das transforma es, que provocam um novo come o.

PM uma id ia de ciclo?

CB N o vejo como ciclo, porque o ciclo pode remeter a uma coisa que sempre gira e passa pelo mesmo lugar. Ali tem situa es e pocas diferentes.

PM O disco deve sair at meados de novembro?

L Pode ser que saia j no come o de novembro.

PM Voc s j t m shows marcados para mostrar esse novo trabalho?

L Vamos come ar agora em Fortaleza, no dia 18 de outubro. a estr ia nacional. Dois shows no Centro Cultural Drag o do Mar, dias 18 e 19.

PM Algum motivo espec fico para terem escolhido l ?

L Foi por conta de um incentivo da Petrobr s. S o eles que est o fazendo essa turn com a gente agora. uma turn que vai circular s teatros. As pessoas sentadas, outro espet culo.

CB Eu vejo e acho que podemos conseguir montar dois repert rios. Um mais ligado ao teatro, ou seja, com respira es mais longas, e um de mais instiga o, espet culos voltados mais para a rua.

L Depois de Fortaleza a gente vai para Aracaju e depois para Salvador. Isso tudo em outubro. uma turn da Petrobr s h muito tempo combinada e coincidiu com o lan amento do disco. Mas n o para lan ar o disco, ela j iria rolar. S o oito apresenta es nessas cidades. A gente vai fazer essa turn , sem o disco na m o, infelizmente, mas j O Palha o do Circo Sem Futuro. Quando a gente voltar que come a por Bras lia, Belo Horizonte, interior de Alagoas, Rio de Janeiro, S o Paulo e Recife.

CB Vamos tamb m fazer apresenta es no Sul do pa s. A gente j tem um p blico l : Porto Alegre, Santa Catarina, em Florian polis, Curitiba. Procuramos andar por lugares que a gente j foi, e outros onde ainda n o estivemos. Esse ano a gente foi a Bel m, quer dizer, o primeiro passo da gente no Norte.

L O ltimo espet culo, do primeiro ato, foi em Bel m do Par . Muito legal porque era a primeira vez que a gente estava indo ao Norte, e existia uma vontade muito grande. Quer dizer, fechamos uma coisa abrindo outra.

PM Falando em fechar, o primeiro disco termina com uma porta se fechando. Agora voc s est o abrindo outra, n o?

CB Eu vejo isso como quando voc est lendo um livro. Ou quando voc muda de cap tulo ou quando muda de volume. Volume um, volume dois. a continuidade da sua id ia.

L Esse disco se complementa em v rios momentos. Tem uma profecia que diz: a rvore dos encantados/vim aqui outra vez pra tua sombra.

PM Tem id ia de trilogia?

L N o abertamente. Meio inconsciente.

PM Voc s dizem que eles est o interligados, certo?

L A maior prova de tudo isso aqui. (Lirinha aponta para a ltima folha trazida pela produtora com as letras do disco, j que ainda n o t nhamos o encarte, mostrando o nome da vinheta que encerra o CD: O fim do segundo ato). Essa vinheta deixa claro sobre a liga o de que isso o segundo ato. Na m sica A rvore dos encantados (ou Recado da Ororub ), ela fala: "veja, escuta", ou seja, uma continua o de quando a gente disse, no primeiro disco: "na cumeeira da serra Ororub ". Isso um recado da Ororub novamente. Veja na letra: "vim aqui outra vez pra tua sombra/tenho medo mas estou aqui". Que era o medo do segundo disco, tudo isso, mas estou aqui: "aqui m e/aqui meu pai".

CB Ela estimula a rea o. um recado para for a pr pria. A aceita o de batalha. De estar aqui no mundo batalhando. De desconstru o e ressurgimento.

PM Saindo um pouco do foco do grupo, gostaria de perguntar qual a opini o de voc s sobre o mercado da m sica brasileira neste momento?

CB A produ o est bem constante. Agora o mercado demonstra-se dif cil. Com alguns pontos abertos e outros muito fechados. A depende muito da forma que voc encara isso, n o abaixando a cabe a e sim tentando tirar solu es dessas portas fechadas. Tentando se alargar. Procurando mais intensidade. Mas a produ o musical brasileira continua muito forte. Id ias surgindo de v rios lugares. Muito bons artistas compondo. Que dizer, as id ias est o acontecendo. Acredito que o mercado tenha suas dificuldades, sinto isso na pele. Dificuldades de voc fazer shows em outros lugares. Andar no Norte, fazer shows no Norte. Quer dizer, desde 1997 estamos na estrada e s agora, em 2002, que pisamos no Norte pela primeira vez. Isso para mim demonstra uma certa dificuldade. S o coisas dif ceis que o mercado tamb m gera.

L Eu entendo que a nossa condi o, quando a gente analisa a m sica do lado art stico, eu entendo m sica e poesia como express o, como comunica o. Ent o, n o consigo entender que isso passa por momentos ruins ou momentos bons. N o consigo ver dessa forma. Acho que enquanto existir ser humano ser composto m sica, poesia, pintar o quadros, far o arte. Porque entendo isso como uma manifesta o, como uma comunica o humana. Agora, tem a divulga o disso, ou se isso chega s outras pessoas. Existe tudo isso que a gente chama de ind stria e a gente tamb m est usando muito essa a palavra hoje: mercado. Ind stria alguma coisa que gera produ o em s rie. Mercado , vamos dizer, o que vende. O que acontece que a gente vive num pa s capitalista, num sistema mundial capitalista, dominado hoje pelo imp rio norte americano. Vivemos os efeitos dessa condi o. Sem d vida alguma o problema de uma m sica que atinge poucas pessoas colocado de forma inferior no mercado. E o que interessa uma venda cada vez maior, disso n o se tem d vida, n o se discute at . O que interessa hoje para a ind stria e para esse mercado vender cada vez mais um produto. N o se importa muito com a qualidade, a condi o ou mensagem desse produto. Na verdade o que interessa a vendagem. Isso provoca hoje nos artistas uma s rie de confus es. E uma delas essa l gica do mercado, que n o tem nada a ver com a l gica art stica. Por exemplo, um grupo que vende 1.500.000 c pias tem um determinado tratamento no mercado e na ind stria. J aquele que vende 20.000 c pias, como o caso do Cordel do Fogo Encantado, tem outro tipo de tratamento. Agora, se for entrar numa discuss o art stica desse que vende 1.500.000 e do Cordel que vende 20.000, voc nota que s o outros termos, com outras an lises totalmente diferentes. Acho que a condi o essa.

PM Voc s venderam mais ou menos isso, ent o?

L Estamos em 21.000.

CB Isso das nossas m os. Mas teve a divulga o em um CD da revista Trip, que saiu com 10 m sicas nossas e a tiragem deles foi de 60 mil.

L Foram 70 mil e voltaram 8 mil. Ent o, eles dizem que foram 62 mil vendidas naquela promo o.

PM O repert rio basicamente do primeiro CD?

L basicamente o primeiro CD. Agora a gente n o pode bem afirmar porque tem uma m sica do Chico Science tamb m. E tamb m n o podemos afirmar que todo mundo que comprou a revista vai escutar o disco etc.

PM Como est a distribui o do primeiro disco do Cordel? Lembro que numa determinada poca n o se achava por a ?

L Tem em alguns lugares, sim. Naquela galeria do rock (na Rua 24 de maio, em S o Paulo), na Fnac e outros lugares.

PM Como vai ser a distribui o deste segundo disco? Da mesma forma?

CB Vamos continuar independente, distribuindo em algumas lojas que representam o nosso trabalho. Tem algumas pessoas que querem se unir a n s com milit ncia de estar em campo.

PM Forma bem pr pria mesmo.

CB . Andar com as pr prias pernas.

L As propostas que a gente recebeu de gravadoras n o modificavam muito a condi o da nossa independ ncia, sabe? Na verdade, as pessoas que vendem a quantia que a gente vendeu no primeiro disco s o at bem recebidas nas gravadoras. Mas tamb m a falta de clareza nessa coisa da liberdade da gravadora muito... na verdade as gravadoras tamb m est o passando por um momento um pouco delicado. Todas elas est o reavaliando suas condi es. Est o com um modelo muito antigo de trabalho que n o est mais cabendo dentro da diversidade que tem hoje, devido revolu o da comunica o, nesses ltimos tempos, o uso da internet e tal. As gravadoras est o fragilizadas, num certo sentido. Ou se vende muito ou n o interessa.

PM Para a gente fechar, voc s est o felizes com esse trabalho? Existe muita expectativa para mostr -lo?

CB Quando est vamos na expectativa da elabora o do disco, aconteceu comigo uma certa crise de aus ncia de palco. De aus ncia de estrada. Tanto que hoje em dia n o conseguiria trabalhar s dentro de um est dio. Sentiria uma necessidade tremenda de estar na estrada, de tra ar id ias e perceber a aceita o do meu trabalho das pessoas na rua, diretamente. N o com quem difunde id ias, concentra id ias e divulga, como um jornalista que v escrever algo, como um cr tico, um m sico ou um artista. Mas ver a rea o mesmo de pessoas que n o t m tanto interesse em se aprofundar, em digerir, abrir as v sceras daquilo. Quero ver aquela rea o imediata. Isso tamb m bom para ver a quantas anda o seu trabalho.

L E o Cordel do Fogo Encantado um grupo que tem muitas d vidas das coisas, mais do que afirma es e certezas. tanto que todas as entrevistas s o um pouco assim. Se tivessem outros do grupo aqui, a gente ficava mais confuso ainda (risos). Era um dizendo uma coisa e outro lembrando outra id ia. Mas sobre o contato com o p blico, eu entendo tudo isso como comunica o. A comunica o s acontece quando existe a rea o, vamos dizer, dial tica. N o s mandar mensagem, tamb m receber. Ent o, acontece quando a gente entra em turn , quando a gente est na estrada. Somos um grupo que toca muito, que viaja muito, tem essas caracter sticas desde o come o. Quando n o tem show, a gente produz o show, quando n o tem convite a gente mesmo futuca at conseguir tocar. A gente come a a fechar muitas m sicas da gente, inclusive, colocadas no disco. Muito, eu sei, desse "O palha o do Circo Sem Futuro" a gente vai aprender com o p blico.

PM Muito obrigado pela entrevista e bons shows!

L e CB Valeu tamb m, boa sorte para o site!

 

Cordel do Fogo Encantado

Outubro - Turn MPB Petrobras:

Dias 18 e 19, s 21h30 - Fortaleza 

Anfiteatro Drag o do Mar - Rua Drag o do Mar, 81, Praia de Iracema
Tel. (85) 488-8600

Dias 22 e 23 - Aracaju 

Teatro Tobias Barreto

Distrito Industrial de Aracaju - Tel 241-4635

Dias 24, 25, 25, 26, s 21h e dia 27, s 20h - Salvador 

Teatro Casa do Com rcio - Av. Tancredo Neves, 1109, Pituba
Tel. (71) 341-8700

Novembro

Dia 8 - Belo Horizonte

Lapa Multishow - Rua lvares Maciel, 312, Sta. Efig nia

Dia 15 - S o Paulo 

Sesc Santo Andr - Rua Tamarutaca, 302, Vila Guiomar

Tel (11) 4469-1250

Dia 17 - Marechal Deodoro/Alagoas

Dia 28 - Recife 

Teatro da UFPE - Campus Universit rio UFPE, Cidade Universit ria 

Tel 3271-1066

Dias 29 e 30 - S o Paulo

Sesc Pomp ia - Rua Cl lia, 93 - Tel (11) 3871-7700

 












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