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Paulinho
Nogueira

Por
Sérgio Fogaça
Neste dia 2 de agosto
faleceu "um dos mais importantes violonistas brasileiros –
Paulinho Nogueira – (08/10/1929 – 02/08/2003), compositor,
professor e grande humanista", como lembra seu amigo Helton
Altman. Como homenagem, reeditamos uma entrevista que o compositor
concedeu a Página da Música em agosto de 2002, ocasião em que
Paulinho estava lançando um CD só com versões instrumentais das
primeiras canções de Chico Buarque. Por isso, o leitor encontrará
nesta conversa assuntos factuais, mas queremos lembrar deste grande
artista assim: produzindo e eternizando suas belas canções. Segue
a entrevista.
No país dos violões, Paulinho
Nogueira figura como um dos instrumentistas mais importantes do
gênero. Sua carreira de honras e méritos só se compara aos
maiores nomes do instrumento. Depois de começar em Campinas, sua
cidade natal, foi para São Paulo ampliar suas possibilidades. Em
1960, grava seu primeiro LP, "A Voz do Violão". Durante
essa década figura em programas importantes de rádio e televisão,
muitas vezes ao lado de Baden Powell. Um dos marcos da época foi o
programa O Fino da Bossa, da TV Record, onde Paulinho também
aparecia ao lado de Rosinha de Valença. Ali surgiram grandes nomes
como Elis Regina, Jair Rodrigues, Edu Lobo, Zimbo Trio e Chico
Buarque, cujo início de carreira foi acompanhado por Paulinho, que
logo se encantou com a impressionante qualidade musical e poética
do artista. É dessa época o repertório que o violonista desfila
em seu mais recente trabalho, "Chico Buarque – Primeiras
Canções", lançamento da gravadora Trama. Como o próprio
nome explica, são versões instrumentais das primeiras
composições de Chico. Um novo, mas fiel olhar sobre o lado
instrumental das obras históricas do famoso letrista. Composições
como A Banda, Carolina, Olé, Olá, Rosa dos
Ventos, Olhos nos Olhos e Roda Viva são
interpretadas com maestria e rigor técnico pelas mãos de Paulinho.
Uma aula desse eterno professor que já foi mestre de excelentes
instrumentistas, como o músico Toquinho, parceiro de Vinícius de
Moraes. Mas Paulinho não ficou só no violão. A craviola,
instrumento de 12 cordas que o público não se cansa de ver nas
mãos da cantora Tetê Espíndola, foi desenhada por ele em 1969.
Esse instrumento, que mistura som de viola com cravo, foi exportado
para Estados Unidos e Europa. Sobre esses e outros assuntos Paulinho
nos conta nesta entrevista.
Página da Música – Por que a
idéia de gravar um CD só com músicas do começo da carreira de
Chico Buarque?
Paulinho Nogueira – A idéia
surgiu de repente, mas tem uma explicação. Eu tive o privilégio
de conhecer o Chico bem antes de ele ser famoso. Me lembro, por
exemplo, que tinha um show em São Paulo, onde a primeira parte era
com artistas novos, desconhecidos e depois entravam os veteranos.
Então, o Chico participava. Ele, o Toquinho o Taiguara, uma cantora
chamada Ivete participavam da primeira parte e nós, eu, Zimbo Trio
e Baden Powell, tocávamos na segunda...
PM – Isso era O Fino da Bossa?
PN – Não, isso foi antes do Fino
da Bossa. Era um show produzido pelo Walter Silva, o Pica-Pau.
PM – Foi aproximadamente em que
época?
PN – Não sei exatamente, mas foi
por volta de 1964 ou 65. Naquela época, através dos ensaios que
nós fazíamos conheci as primeiras músicas do Chico, antes dele
começar a fazer parcerias. E já gostava do que ouvia. Agora surgiu
oportunidade de eu gravar um CD. Eu já tinha conhecimento sobre a
gravadora Trama, que está fazendo um trabalho maravilhoso. Entrei
em contato com eles e eles acharam a idéia ótima.
PM – Você já foi com essa
concepção pronta, de gravar Chico Buarque?
PN – Já fui com a idéia pronta
para eles, de gravar as primeiras composições do Chico. Como diz o
título do disco.
PM – Aliás, como pude observar,
a grande maioria é de composições dos três primeiros discos do
Chico, não?
PN – Talvez sejam. Isso, Carolina,
Olé, Olá, até A Banda, por exemplo.
PM – A
Banda e Olé Olá
são do primeiro disco dele, de 1966.
PN – Ah, é? Eu nem sabia. O
Chico para mim é uma pessoa especial. Não só um artista especial,
mas também uma pessoa especial.
PM – Nesse primeiro momento você
conheceu o Chico. E depois você chegou a trabalhar com ele? Fez
algum espetáculo?
PN – Não. Eu via o Chico muito
raramente. A gente se viu um pouco mais, uma vez, em 1979, quando
ele convidou uns amigos para ir para Cuba, para Havana. Eu fui um
desses convidados. Eu, o Djavan, a Simone, o Gonzaguinha, o Walter
Franco, uma turma boa. Naquela época eu o conheci um pouco melhor.
Isso foi durante uns 10 ou 15 dias. Quase nunca mais vi o Chico. Há
uns dois anos, fui assistir um show dele. Mas aquela coisa rápida
de cumprimentar em camarim.
PM – Este seu CD foi lançado
exatamente quando?
PN – Não faz um mês ainda (a
entrevista aconteceu no dia 22 de julho)
PM – Ele já escutou esse
trabalho?
PN – Aliás, ontem eu tive uma
alegria, que há muito tempo eu não tinha. Atendo o telefone e era
ele, o Chico. Ele disse que só tinha escutado o CD ontem, porque
antes estava em Paris. Ele tem apartamento em Paris. Eu fiquei até
emocionado porque ele disse que gostou demais do disco. Para mim,
foi um "presente de Natal".
PM – Ele falou de alguma música
em especial?
PN – Não, foi de modo geral, ele
ficou muito contente. Porque, na verdade, é uma coisa inédita
alguém gravar as primeiras composições dele e instrumental. A
minha intenção foi essa: valorizar o lado musical do Chico.
PM – Em nenhuma faixa você
canta?
PN – Não, eu não ia estragar o
disco cantando (risos). Mas eu quis mesmo valorizar o lado musical
dele. Porque como poeta e letrista o Chico é super consagrado, com
muito merecimento, aliás. Mas muita gente não lembra que a música
dele também é muito boa. Olê, Olá é uma obra de arte.
Aquela coisa de sair do tom e depois voltar. Harmonicamente é uma
beleza.
PM – Já era uma vontade sua de
muito tempo, ou foi alguma circunstância do momento?
PN – Não, surgiu agora essa
idéia de eu querer gravar mais um CD. A minha gravadora estava numa
situação financeira difícil. Eu não quis perder um disco. Porque
quando a gravadora não divulga, mata o disco, mesmo que seja um
disco bom.
PM – O último foi um disco com o
Toquinho, certo?
PN – Pois é. Eu tive até
problema com a gravadora, porque foi um disco que nós achamos
maravilhoso e não teve divulgação suficiente. Apesar de que ainda
está à venda. Agora, a Trama é o contrário. Eles estão fazendo
comigo um trabalho que nunca tive em mais de 40 anos de profissão.
Estão trabalhando com o Brasil inteiro, enviando o disco, com foto
e tudo. Isso estimula melhor a divulgação. Por isso eu quis fazer
esse disco lá.
PM – Como foi escolher o
repertório dentre tantas canções, apesar de estarem mais
concentradas na primeira fase do compositor?
PN – É bom lembrar o seguinte:
tem músicas que a gente gosta, mas não cai muito bem
instrumentalmente. Por exemplo, uma das músicas mais importantes
dele foi Construção. Mas ela não serve para fazer um
instrumental solo de violão. Se tivesse uma grande orquestra,
arranjadores etc, talvez pudesse. Mas entre as músicas que eu
gostava, escolhi aquelas que serviam melhor para fazer instrumental.
E acho que deu certo.
PM – O CD tem quase que só o seu
violão, com pouquíssimas intervenções de outros instrumentos.
PN – Só em três faixas tem
participação de outro músico. Numa, a percussão de João
Parahiba e duas faixas com o Teco Cardoso na flauta. Aliás, ele fez
uma participação fantástica com a flauta, em Olhos nos Olhos.
PM – Falando agora um pouco de
suas influências no violão. Parece que uma das grandes, no seu
caso, foi o Garoto (Aníbal Augusto Sardinha, violonista carioca que
morreu em 1955). Você acha que ele foi uma das primeiras
referências do violão popular no Brasil?
PN – Olha, não tenho certeza
absoluta. Por exemplo, referência talvez anterior a dele, mas num
estilo completamente diferente, foi o Dilermando Reis. Num estilo
bem diferente, bem clássico. Tocava mais choros e valsas. Mas o
primeiro que surgiu foi o Catulo da Paixão Cearense...
PM – Ainda no final do século
retrasado...
PN – É, ele valorizou muito o
violão. Colocou o violão nas altas esferas da sociedade. Porque
antes o violão era um instrumento considerado "perigoso".
Quem tocava violão era visto como malandro. Então, ele ajudou
muito a quebrar esse conceito, ou melhor, preconceito. E a música Abismo
de Rosas, do Américo Jacomino (Canhoto), contribuiu muito para
isso. Eu digo: violonista que não toca Abismo de Rosas não
é violonista.
PM – Você ainda dá aula de
violão?
PN – Ainda, sim, mas para quem
já tem uma boa base.
PM – Já que estamos falando do
violão, eu gostaria também de lembrar que você inventou a
craviola...
PN - É, eu não tenho a pretensão
de dizer que descobri um instrumento novo. Eu fiz, de certa forma,
um violão diferente. Um formato diferente e com uma afinação
diferente. Quem fez foi um funcionário do Giannini, ele chamava-se
Rômulo. Mas quando levei a idéia para o Giannini, ele achou
fantástica e me fez assinar um contrato. Em seguida, a craviola foi
exportada para a Alemanha e Estados Unidos. O Luís Bonfá, por
exemplo, gravou um LP naquela época, só com a craviola. Isso me
deu muita satisfação.
PM – O Bonfá gravou um disco que
usou exclusivamente a craviola ou que também incluiu o instrumento?
PN - O disco inteiro é com
craviola.
PM – Bem interessante. Pouca
gente deve conhecer esse disco, não?
PN – Ele deve ser raro.
PM – Como você teve a idéia de
criar esse instrumento?
PN – Eu sempre gostei muito de
desenhar. Acho que a craviola nasceu daí. De eu fazer alguma coisa
que envolvesse a área das artes plásticas.
PM – Curioso. Quer dizer que o
instrumento nasceu através do estímulo da arte gráfica e não
exatamente pela sonoridade?
PN – Fiz vários modelos e
mostrei para o Giannini. Ele achou que esse projeto era viável. Aí
surgiu a craviola. Tem um sobrinho meu, chamado Stênio Mendes, que
se especializou bastante na craviola. Já fiz shows com ele. Ele é
um craviolista mesmo.
PM – Ele tem disco gravado?
PN – Gravou, no tempo da
Phillips. Hoje nem sei mais qual é. As gravadoras vão se
misturando muito, a gente nem sabe mais quantas existem.
PM – Dos músicos brasileiros,
quem você lembra que usa a craviola com mais freqüência?
PN – A Tetê Espíndola fez a
carreira dela toda com a craviola. E ela se acompanha lindamente.
Para mim é uma honra que ela use a craviola, porque gosto muito
dela. É uma linda composição da voz dela com a craviola.
PM – Você já tinha idéia do
tipo de som que ela produziria?
PN – Eu só fui ter essa noção
mesmo depois que ela ficou pronta. Como parecia um pouco do som de
cravo e um pouco de viola, nasceu o nome evidente. Nos Estados
Unidos eles gostaram muito desse nome, caiu bem para eles. A
princípio, eles compraram muitas craviolas. Mas a craviola não é
um instrumento fácil de tocar, precisa conhecer um pouco. Então
não é um instrumento comerciável. Mas durante uma certa época
foi.
PM – Antes desta atual fase,
desse trabalho mais recente, você vinha se apresentando bastante?
PN – Muito pouco. Sabe por quê?
Não é um problema meu, é da própria época que o Brasil
atravessa. Aqui prevalece a música de consumo. Infelizmente está
assim. Inclusive, patrocinado pelas próprias TVs. Eles geralmente
só apresentam música para entretenimento, música para dançar...
tem até aquelas mulheres que apelam para um tipo de atração
sexual. Então, a música de bom gosto, a música instrumental,
principalmente, ficou muito marginalizada. Quer dizer, existe um
público certo. Mas a mídia prejudicou muito a música. A própria
bossa nova você não ouve mais. Tom Jobim, por exemplo. Graças a
Deus ainda tocam muito Elis Regina, que para mim é uma
satisfação. É uma pessoa pela qual tive uma admiração especial.
Mas você vê: Tom Jobim, Carlos Lira, aquele pessoal fantástico
daquela época quase não se ouve mais. Os trios, Zimbo Trio, Tamba
Trio, não se ouve. Nesse aspecto, o mercado de trabalho para mim,
como para todo esse pessoal, caiu demais. Às vezes parece até que
tem uma questão social do país. Eles dizem que o Brasil precisa de
divertimento, porque o povo está sofrendo muito. Colocam música
para dançar, para divertir, para dar risada. Os programas
humorísticos, então, são horrorosos, deprimentes, com raríssimas
exceções. Por isso eu não estava quase trabalhando. Agora, após
esse disco, está surgindo uma série de oportunidades boas.
Inclusive fora daqui.
PM – Além desses dois dias de
shows, agora no Sesc Pompéia, tem mais espetáculos agendados?
PN – Tem, mas como não estão
confirmados, prefiro não antecipar. Mas as perspectivas são muito
boas. Para mim, o ano passado foi muito bom, por um lado. Estive na
França e na Suíça. Na França, tive a satisfação de ver vários
violonistas franceses que tocavam uma música minha: a Bachianinha
nº 1. Por isso, a gente sente que a música brasileira está
melhor situada fora do Brasil do que aqui. Mas não é culpa do
povo. O que eles ouvem é isso, o que se vai fazer? Eles não
conhecem, então não podem participar.
PM – Quer dizer, tem grandes
possibilidades de você fazer mais shows, além do Brasil?
PN – Por exemplo, gravei um disco
nos Estados Unidos, chamado "Reflections". Só saiu lá.
Muito provavelmente devo me apresentar no país. Não digo este ano,
porque essas coisas têm de ser feitas com bastante antecedência.
Mas no próximo ano está quase certo de eu ir para lá trabalhar
esse disco, que está indo muito bem em terras americanas, por
sinal.
PM – Esse CD foi lançado quando?
PN – Já faz mais de um ano.
PM – Como surgiu a oportunidade
de gravar esse trabalho?
PN – Foi um amigo americano que
mora aqui, Rick Udler, foi meu aluno. A idéia partiu dele, que
produziu o CD. É muito amigo meu. Acho que foi um dos melhores
discos que fiz até hoje. Fizeram um trabalho maravilhoso no
encarte, com uma vasta biografia... vou te mostrar (Paulinho mostra
um lindo trabalho gráfico com uma gravura de sua autoria na capa e
uma extensa biografia com fotos de acervo pessoal do violonista). Ou
seja, fizeram um negócio que nunca foi feito no Brasil.
PM – Encontra-se esse CD aqui no
país?
PN – Não, só saiu lá. Por isso
que depois que passar essa fase do disco com as músicas do Chico eu
estou entrando em contato com eles. Mas também estou vendo se a
Trama quer lançar esse disco no Brasil.
PM – O pessoal da gravadora Trama
é formado por filhos de músicos que você conheceu, conviveu e
trabalhou junto, não?
PN – O João Marcelo, filho da
Elis, a menina que está cantando agora, também filha da Elis...
PM – A Maria Rita...
PN – Isso, a Maria Rita, também
o Pedro Camargo Mariano, filho do César Camargo. Eu queria muito
ver a Maria Rita cantar, mas ainda não consegui.
PM – Quantos discos, mais ou
menos você tem, Paulinho?
PN – LP tem 26. CD, com este que
saiu agora, é o sexto.
PM – Você está compondo?
PN – Eu toco muito, mas estou
compondo pouco.
PM – Você toca todos os dias?
PN – Às vezes, não. Não como
um cara como o Sebastião Tapajós, por exemplo. Eu ganhei agora uns
discos dele onde ele está tocando Radamés (Gnattali) e
Guerra-Peixe. Ele deve estudar, sei lá, umas dez horas por dia. Ou
o Paulo Belinatti. Eu, não. Faço bem menos que isso. Mas quando
tenho uma responsabilidade, como um show ou um disco... se tenho um
disco novo, então, eu me atiro.
PM – Você está bastante feliz
com esse trabalho?
PN – Estou achando esse disco com
músicas do Chico Buarque uma coisa extremamente gratificante. E é
um disco simples. Eu procurei não enfeitar o disco. Eu respeitei o
jeito que o Chico fez as músicas. Pensei: quero um disco do Chico
com a cara dele. E acho que consegui.
CD: www.lojatrama.com.br |