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Itamar
Assumpção

Por Luis Fragoso, de Oxford
(Inglaterra)
Não sou supersticioso, mas foi numa
manhã de sexta-feira 13 que acessei o jornal pela internet e soube da
partida do Nego Dito. A intenção inicial era ler as tirinhas de Laerte
e cia. na Folha, dar umas risadas e começar bem o dia, ritual que venho
cumprindo desde que cheguei a essa ilha. Não tinha como eu fazer isso
dessa vez. Lá estava a notícia sobre Itamar nos deixando. Fiquei ali,
paralisado, uns bons minutos, sem poder conter o choro.
Dentre as inúmeras virtudes que esse
artista tinha, uma me conquistava em particular: não havia um show
sequer (e eu não perdia nenhum) em que ele repetisse a mesma
performance do show anterior, ou mesmo da noite passada, na mesma
temporada! Era obcecado pelo novo, pela não-repetição, demonstrando
assim um respeito profundo ao público que ali esperava ver algo que
não fosse uma mera reprodução do trabalho em estúdio. Ao gravar o
disco com canções de Ataulfo Alves, declarou numa entrevista:
"Regravar Ataulfo e cantar em ritmo de samba não acrescentaria
nada à obra dele." Numa época em que "acústicos" e
re-re-re-gravações no estilo café requentado são a regra, e em que
artistas cedem facilmente à pressão de gravadoras que precisam faturar
(e em momentos de crise apelam a qualquer estratégia), Itamar fará
muita, muita falta.
Talvez por sua intransigência, tenha
gravado somente sete álbuns. A primeira vez que o vi no palco foi em
1983, no Festival de Águas Claras. De cara me conquistou, tinha algo de
magnético, na voz e/ou na sua presença em palco, que atraía os fãs.
Lembro que saí de lá com a mochila às costas e com o álbum
vermelhão "Às proprias custas S/A", todo orgulhoso pela
aquisição – é nesse disco que está registrada uma das mais
originais regravações de nossa música: Você está sumindo, de
Geraldo Pereira, a linha melódica do baixo deixando ali (bem como em
boa parte da obra de Itamar; não é à toa que Paulinho Le Petit é
tão importante ao lado do Nego Dito) seu papel de simples base
harmônica e virando protagonista.
Itamar nos deixou com um álbum (terá
sido concluído?) realizado com Naná Vasconcelos. Disse ele uma vez que
teria o título de "Naná Vasconcelos e Itamar Assumpção – tem
que ter repercussão". Ironizava o desprezo que a mídia tinha por
ele, provavelmente com um pingo de ressentimento – lembro de quando
mencionou a possibilidade de vir de vez para a Europa – pois,
ironicamente, alemães e japoneses, via de regra, valorizam seu trabalho
muito mais que em várias partes do Brasil! Talvez agora as gravadoras,
tomadas pela culpa, coloquem os álbuns de Itamar para tocar no rádio.
Deve vir por aí a habitual enxurrada de homenagens, especiais de tevê
etc. Pobre país em que um artista precisa morrer primeiro para depois
ter seu valor reconhecido. Bem, se isso fizer, dessa vez, com que as
pessoas passem a ouvir um dos maiores poetas e artistas de nossa
música, tanto melhor.
Luis Fragoso é mestrando em English
Language, Literature and Culture, na Oxford Brookes University, Oxford,
Inglaterra
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