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Zeca Baleiro
Pet Shop Mundo Cão
O
cantor das multidões ou de multidões. Zeca Baleiro não é, mas
bem que poderia ser. Sua linguagem é popular, ele quer assim. Mas
sua música, ainda, não chega para tanta gente. O recado fácil está
lá, em todas as composições. Mas o que fazer se a estrutura
musical e as composições são bem elaboradas? Será que isso
assusta? Mesmo assim ele ainda diz: “eu despedi o meu patrão”...
“quando a barra aperta/eu faço um bico”... “em Juazeiro
Salgueiro e Petrolina/a noite é uma menina”... “cato no chão
migalhas do banquete dos que comem”... e por aí vai. Mas tudo
bem, ele trouxe as multidões para o seu CD. Tem muita gente, a começar
por mais três produtores além dele. Como o próprio diz: “É um
disco que transita por muitos territórios sem pertencer a
nenhum”. Aliás, essa frase está no encarte do CD que traz um
release a prova de cópia dos piratas. Ou será que eles achariam
importante também vender a “palavra” do artista? O CD começa
quente, com Minha tribo sou eu,
só de Zeca. Um samba-enredo com letra anarquista. Quer mensagem
mais popular? Além dos excelentes músicos que o acompanham por
todo o CD, aqui também tem a participação especial do grupo vocal
de samba As Gatas. Depois vem Eu
despedi o meu patrão, de Zeca e Capinan. Isso mesmo, o
compositor que fez Ponteio,
com Edu Lobo e Soy loco por
ti, América, com Gil e Torquato Neto. A parceria entre os dois
foi via Fagner. A seguir, a linguagem moderniza de vez. Trata-se de
uma música mais eletrônica, “mas sem afetação”, como também
colocou Zeca no release. É O
hacker, dele só. “Malandro que é malandro vai pro
norte/enquanto os patos vão pro sul”. Genial. Também, só de
Zeca, vem Telegrama, a quarta faixa. Traz uma sonoridade absolutamente livre.
De batida pop a cello, passando por um órgão tocado por Zeca
mesmo, totalmente anos 70. Depois vem Mundo
dos negócios, de Zeca, seguida de Guru
da galera, de Zeca e Fernando Abreu. Nesta última, quase 20 músicos
estão na faixa resultando numa sonoridade incrível com muitos
instrumentos, coro, vocal, sample, cordas, duas guitarras, enfim, um
som. E bela canção. Deu certo essa idéia meio hippie de bando.
Agora, sim, foi fundo no eletrônico com Drumembêis,
dele mesmo. Só que ele colocou Elba Ramalho participando e dando
lampejos totalmente nordestinos. A participação especial não pára
aí. O grupo Karnak chega com sua linguagem universal e bem humorada
para injetar mais cor nesse quadro. A oitava faixa é Um
filho e um cachorro, também só de Zeca. Mais uma belíssima
composição, com um sensível arranjo de cordas e um piano psicodélico
de Arnaldo Baptista, o eterno genial mutante. Agora, não posso
deixar passar a frase: “loucura é quase santidade”, da letra.
Segue com a balada surfista anos 60, Fiz
esta canção, de Zeca e Mathilda Kóvak. A décima canção é As
meninas dos jardins, que vem com a densidade do rap que é. A
participação especial é de Fernandinho Beat Box, do Z’África
Brasil, que também participa do segundo rap “da parada”. A música
é Mundo cão, que Zeca
fez com Sérgio Natureza. Depois o músico desenterra Filho
da véia, de Luiz Américo e Braguinha. Sucessão de 1975. Um
estouro popular da época. A seguir Zeca Baleiro veste as roupas do
Maranhão em A serpente (outra
lenda), dele e dos parceiros poetas maranhenses Ramiro Musotto e
Celso Borges. Este último declama um fragmento de “A noiva do
cometa”, de Sousândrade, no final da canção e é também autor
de trabalho próprio. Outro baluarte da terra a declamar na faixa é
o compositor Antonio Vieira. Zeca encerra o CD com Meu
nome é Nelson Rodrigues, dele e Érico Theobaldo. Uma vinheta
de som e texto cru, que, desta forma, homenageia o escritor carioca.
Cachorrada é não curtir esse som! Lançamento MZA Music. Site: www.mzamusic.com.br.
(Sérgio
Fogaça) |