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Vanessa Bumagny De
Papel
Vanessa
Bumagny não começa do começo. Prefere esbanjar maturidade e
personalidade já no primeiro disco: assina todas as composições,
algumas em parceria, trabalha com músicos de excelente qualidade,
investe no visual da capa e do encarte e ainda recebe convidados do
naipe de Zeca Baleiro e Chico César. Logo na primeira audição de
De Papel, temos vontade de perguntar onde estavam essas canções
antes do lançamento do disco. Como podem ser originais e familiares
ao mesmo tempo? Isso decorre de uma consciência
precisa da sonoridade global do CD. Percebe-se que as escolhas do
recurso musical apropriado, tanto no plano estético como técnico,
obedecem bem mais a um critério auditivo – ou seja, ao que
realmente soa – que ao fator "invenção" pura e
simples. Embora seja uma ouvinte contumaz de
músicas artisticamente elaboradas e, portanto, conhecedora de
formas alternativas de composição e arranjo, Vanessa soube
calibrar o ímpeto criador na direção de um repertório acima de
tudo atraente. Não há dúvida de que, para isso, contou com o
auxílio imprescindível de Aê Siqueira e Dante Ozzetti, músicos e
produtores especialistas em extrair boa sonoridade das canções,
mas essa atitude da intérprete manifesta-se desde o estágio da
composição. As canções Árido, Não
quero nada, Sede, Radiografia, Tranquilamente
e Tá começando, que trazem melodia e letra de Vanessa já
anunciam o estilo da compositora que extrai gêneros – sempre
híbridos – do modo de dizer os versos. Em Árido, por
exemplo, o ritmo das melodias ascendentes da primeira estrofe
engendra uma levada de reggai na segunda e cai, por fim, num balão
pouco ortodoxo, de modo que entramos sem sentir num universo
suficientemente familiar para dar apoio ao conteúdo inusitado que a
autora desenvolve na letra. Em Não quero nada, contraria o
elo habitual que há entre recorrência melódica e boa disposição
de espírito, produzindo assim uma certa comicidade: a alegria de um
quase-forró acompanhando, na letra, a falta de desejo diante da
perspectiva de uma separação amorosa. O contrário se dá em Sede.
A melodia cadenciada, típica das situações de abandono, festeja o
encontro amoroso e a dor que "cede" (fazendo um jogo desta
palavra com o título da música). Outra faceta
explorada pela artista é a matéria: a aridez, o cimento, a
consistência do papel – que, aliás, dá nome ao CD e está
presente em suas parcerias com Zeca Baleiro e Chico César –, mas
também o corpo, as pernas e o sangue que se descongela. Em Radiografia,
um quase-tango e quase-bolero, a protagonista surge gravada na
espinha dorsal do parceiro. Em Tranquilamente, uma das
canções mais perfeitas do disco, enquanto passeia sobre as
próprias pernas, que lhe asseguram um ritmo aparentemente
tranquilo, o resto do corpo da personagem abriga um furor que
ninguém se dá conta. Esses efeitos reacendem o humor sutil que é
também uma das marcas de Vanessa. Por fim, não há
como não admirar a realização bem sucedida da difícil arte de
musicar poesias consagradas. Em Plenilúnio de Fernando
Pessoa e Corridinho de Adélia Prado, a compositora extrai
maneiras de dizer (melodias) convincentes, inspiradas em soluções
musicais tradicionalmente brasileiras. Já em Es verdad, de
Garcia Lorca, envereda pela dicção folclórica da música
hispano-americana que esteve presente na produção de Violetta
Parra ou Mercedes Sosa para conceber uma música realmente adequada.
O resultado, como sempre, é original e familiar. Faltou
dizer que Vanessa Bumagny ainda dispõe de um belo timbre de voz
associado a uma afinação muito precisa. É que, diante da força
criadora do disco, isso é o de menos. Luiz Tatit Website:
www.vanessabumagny.com.br
Músicas:
Tá
começando (Vanessa Bumagny)
Árido
(Vanessa
Bumagny)
Radiografia
(Vanessa
Bumagny)
Corridinho
(Vanessa
Bumagny/Adélia Prado)
Sede
(Vanessa
Bumagny)
Não
quero nada (Vanessa
Bumagny)
De papel (Zeca Baleiro/Vanessa Bumagny)
Plenilúnio (Vanessa Bumagny/Fernando Pessoa)
Tranquilamente (Vanessa Bumagny)
Se der pra ser (Marcio Faraco/Vanessa Bumagny)
Borboleta de papel (Chico César/Vanessa Bumagny)
Es verdad (Vanessa Bumagny/Federico Garcia Lorca)
Flor da idade (Chico Buarque de Holanda)
Happy ending (Vanessa Bumagny/Jaime Gil de Biedmo)
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