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O centenário de Ary Barroso
Por Sérgio Fogaça
Ary
Barroso merece tudo. Homenagens, livros, reedições de cds, matérias
e a consideração eterna por suas músicas. E é isso tudo que está
prometido para este ano, quando o autor faria 100 anos (no
dia 7 de novembro). Ary Barroso foi mais que compositor fundamental
para a história da música brasileira. Como radialista, imprimiu
estilo próprio, além de em seus programas terem revelado gente
como Ângela Maria e Elza Soares. Pouca gente lembra, mas o artista
foi o segundo candidato mais votado da União Democrática Nacional,
a UDN, em 1946. Dedicou-se a fundo para a construção do estádio
do Maracanã, no Rio de Janeiro. Seu nome está associado
intensamente à brasilidade. Seu maior sucesso, Aquarela do
Brasil, é uma das 20 músicas mais executadas no mundo. Só
para lembrar, algumas jóias de seu repertório são Na
baixa do sapateiro, No tabuleiro da baiana, Camisa
amarela, É luxo só, Morena boca de ouro, Risque
e Folha morta.
No próximo dia 23
de julho, mesmo dia da final do Prêmio Visa de MPB, edição
compositores, acontece no Rio de Janeiro a entrega do Prêmio TIM de
Música, versão 2003 do Prêmio Sharp, com homenagens a Ary
Barroso. A entrega dos prêmios, no Theatro Municipal do Rio de
Janeiro, será permeada por músicas do compositor e a direção é
de Wagner Tiso, mineiro como o homenageado, segundo lembra José
Maurício Machline, mentor da premiação. Mas isso é só o começo.
Também no Rio já foi lançado o livro "Ary Barroso – Uma
Paixão Brasileira", de Antônio Olinto. A gravadora Velas,
pelas mãos do produtor Luiz Pedreira, se prepara para lançar
uma caixa contendo gravações originais com mais de 300 músicas do
compositor. “Estamos com o projeto aprovado na Lei Rouanet. Toda a
pesquisa está pronta e o material reunido, só estamos esperando um
patrocinador para lançar a obra ainda antes da data do centenário
de Ary Barroso”, comenta Pedreira. A obra estará em ordem cronológica,
além de agregar biografia e dados de gravação. Luiz Pedreira foi
quem produziu a caixa com todas as gravações de Noel Rosa, junto
com Omar Jubran, há três anos. Quem se prepara para interpretar
canções de Ary Barroso também é a atriz Marília Pêra. Na
verdade, é um espetáculo que ela já estreou no último dia 4 de
maio, em Fortaleza. São 20 músicas do compositor agrupadas por gênero.
Tem desde as músicas de dor-de-cotovelo, como Folha Morta
e Risque, até as de samba-exaltação, como a própria Aquarela
do Brasil, passando pelas românticas Na Batucada da Vida,
e as carnavalescas como o sucesso de 1930 Dá Nela. O show
deverá ser apresentado também no Rio de Janeiro e São Paulo.
Ary Barroso – o
compositor do hino popular brasileiro
Em novembro deste ano, Ary
Barroso faria 100 anos. Mais precisamente em 7 de novembro, dia em
que nasceu na cidade de Ubá, Minas Gerais. Oito anos depois, em 1911,
sua mãe e, logo em seguida, seu pai faleceram, e ele foi adotado por
duas tias que o queriam padre. Mas já com 12 anos de idade começou
a trabalhar como pianista-auxiliar do Cinema Ideal, ainda em Ubá. Em
1920, recebe uma herança de 40 contos de um tio que havia falecido e
vai para o Rio de Janeiro estudar Direito. Só que junto com a faculdade
começou a freqüentar as rodas boêmias da cidade. Já adivinharam o
que foi mais forte?
Passou a tocar em cinemas
e orquestras, como as de Sebastião Cirino, Alarico Paes Leme, J. Tomás
e Romeu Silva. Mais adiante até voltou ao curso de direito, mas sem
nunca abandonar a música. Sua carreira como compositor de músicas para
teatro foi extensa. De 1929 a 1960 escreveu músicas para mais de 60 peças.
Em 1930, a música Dá nela alcançou o primeiro lugar no
concurso de composições carnavalescas da Casa Edison. No mesmo ano,
casou-se com Ivone Belfort Arantes e voltou para Minas Gerais. Não é
difícil imaginar a alegria da família em ver seu filho pródigo longe
da vida “mundana” da música no Rio de Janeiro, como era considerada
na época pelos mais conservadores. Na ocasião, um tio seu deputado
estadual, Inácio Barroso, conseguiu que ele fosse nomeado juiz
municipal de Nova Rezende, no mesmo estado. Mas Ary seguiu seu destino e
voltou para o Rio de Janeiro para ser músico profissional.
Em 1931, estava em plena
atividade como compositor de trilhas para teatro. Um dos destaques foi a
música Faceira, lançada por Silvio Caldas. Numa dessas
revistas, “É do Balacobaco”, estava presente Lamartine Babo que
ficou impressionado com as canções. Uma delas, que tinha especialmente
chamado sua atenção, era Este mulato vai ser meu, com o subtítulo
de Na grota funda, com letra do caricaturista J. Carlos.
Lamartine gostou da composição, mas não dos versos. O compositor
ganhou a confiança e a autorização de Ary para mudar a letra. Nascia
aí o clássico No rancho fundo, e uma promissora parceria. As músicas
de Ary Barroso passariam a ser interpretadas por grandes vozes como,
entre outros nomes, Carmem Miranda e Silvio Caldas.
Sua carreira em rádio
começou em 1934 com o programa “Hora H”, na rádio Cosmos, de São
Paulo. No ano seguinte, o mesmo programa passou a ser transmitido na rádio
Cruzeiro do Sul, no Rio de Janeiro. No mesmo ano começa a mostrar uma
outra faceta artística sua, pela qual também se tornaria bastante
conhecido: a carreira de locutor esportivo. Mas seu primeiro trabalho não
foi com o futebol, como se tornaria mais conhecido, mas auxiliando
Gagliano Neto na transmissão de corrida de automóveis, no circuito da
Gávea, no Rio também. Na locução esportiva, foi um dos primeiros do
gênero que não escondia a parcialidade com seu time do coração, o
Flamengo.
Em 1939 surge o grande
marco da sua carreira. Lançou o samba Aquarela do Brasil pela
voz de Araci Cortes, na revista musical “Entra na Faixa”, no teatro
Recreio. Meses depois a música foi gravada por Francisco Alves e, até
hoje, por centenas de intérpretes no Brasil e no exterior. A composição
figura entre as 20 mais tocadas no mundo. Ary Barroso começa a fazer
sucesso também fora do Brasil. Em 1944 fez duas viagens para os Estados
Unidos, depois do lançamento norte-americano das canções No
tabuleiro da baiana e Aquarela do Brasil. Tem até uma indicação
para o Oscar na sua carreira. A música indicada foi Rio de Janeiro,
feita para o filme “Brazil”, de 1944, da Republic Pictures. Foi
indicada como melhor música de trilha cinematográfica. Depois
contribuiu para a trilha sonora do filme “Você já foi à Bahia?”,
de Walt Disney.
Suas atividades eram múltiplas.
Em 1946 foi o segundo candidato mais votado da União Democrática
Nacional (UDN) nas eleições para a Câmara de Vereadores do Rio de
Janeiro. Defendeu com unhas e dentes a construção do Estádio do
Maracanã. Foi colhendo louros carreira afora, como quando foi
condecorado com a Ordem Nacional do Mérito junto com Villa-Lobos e na
presença do então presidente da República, Café Filho. Em 1962, o
Brasil já começava a ter sinais de que perderia o grande compositor.
Ary Barroso adoecia com cirrose hepática, mas recuperava-se
parcialmente logo em seguida. Faleceu em 1964 num domingo de Carnaval. A
escola de samba Império Serrano desfilava na avenida o enredo Aquarela
do Brasil, lembrando que a obra de Ary Barroso nunca deixará de
ser lembrada e enaltecida. “Esse Brasil lindo e trigueiro/é o meu
Brasil brasileiro/terra de samba e pandeiro/Brasil! Brasil!”
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