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Clara Nunes, a eterna guerreira
Por Sérgio Fogaça
Em abril próximo completam-se 20 anos que o
Brasil perdeu a cantora Clara Nunes. Em agosto passado ela teria
completado 60 anos de idade, mesma idade de outros expoentes da sua
geração, como Paulinho da Viola e Gilberto Gil. Infelizmente,
Clara não pode mais participar da produção da melhor música que
se faz no planeta, mas deixou um legado inestimável. Tanto no que
diz respeito à sua obra como pela personalidade marcante e
bem-humorada que tinha. Em Minas Gerais, seu estado de origem, uma
jornalista está produzindo a biografia de Clara Nunes. Já era
tempo, afinal, a cantora tem fãs por toda a parte e muitos ainda
que vão chegar depois de tomar contato com sua obra. É assim e
sempre será. Quem passa a conhecer seu canto se apaixona. Neide
Pessoa, uma reconhecida cronista dos jornais de Belo Horizonte, é
quem está escrevendo o livro. Foi com ela que conversamos para
saber um pouco mais sobre Clara Nunes e a produção dessa obra que
está em fase de captação de recursos através das leis federais
Clara Nunes nasceu em Caetanópolis, cidade
vizinha de Paraopeba, a menos de cem quilômetros de Belo Horizonte,
em 12 de agosto de 1942 – e não 1943, como indicam algumas fontes
de pesquisa. Filha de um cantador de Folia de Reis, era a caçula de
sete irmãos. Depois da morte de seu pai as coisas mudaram e a casa
não voltaria a ter a mesma alegria de antes. Logo depois morreu sua
mãe. Um caso típico de morte de amor, como lembrou a própria
Clara. Em 1958, a então adolescente muda-se com uma irmã para Belo
Horizonte, onde passa a trabalhar como tecelã numa fábrica no
bairro Renascença, na capital mineira. Em 1960, depois de vencer a
etapa mineira do concurso A voz de Ouro ABC, com a música Serenata
do Adeus, de Vinícius de Moraes, foi contratada pela Rádio
Inconfidência de Belo Horizonte. Muitos outros trabalhos e
reconhecimentos vieram na seqüência. Clara foi uma das primeiras
cantoras a ter um programa só seu, na TV Itacolomi. Em 1965 foi
para o Rio de Janeiro, ainda sem disco gravado. No ano seguinte,
lança seu primeiro LP, "A Voz Adorável de Clara Nunes".
Até 1983, o ano de sua morte, lançou 16 discos. A partir dos anos
70, firmou seu repertório cantando sambas. Em 1974, lançou o LP
"Alvorecer" e bateu recordes de venda, principalmente
através da canção Conto de areia, de Romildo Bastos e
Toninho. Com isso, venceu um tabu de que as cantoras não vendiam
bem e estimulou o mercado a investir mais em outras cantoras de
samba como Beth Carvalho e Alcione. Seu disco seguinte,
"Claridade", com músicas como O mar serenou, de
Candeia, vendou mais ainda, segundo a gravadora da artista. Ela
também compôs. Começou em 1977 com A flor da pele, dela,
Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, com quem foi casada.
Pesquisou a fundo a música brasileira e principalmente os ritmos e
folclore da África. Mesmo tendo feito sucesso em várias partes do
mundo, guardava profunda identificação com Angola. Também atuou
no teatro. No início dos anos 70, ao lado de Paulo Gracindo, cantou
a vida de Dolores Duran e Antonio Maria na peça "Brasileiro,
Profissão Esperança", dirigida por Bibi Ferreira e Paulo
Pontes. Com seus próprios recursos, levantou o Teatro Clara Nunes,
inaugurado em maio de 1977 no Shopping da Gávea, no Rio de Janeiro.
Uma carreira breve e cheia de belas histórias. No início de março
de 1983, a cantora se internou na clínica São Vicente, no Rio,
para realizar uma simples operação de varizes. Sofreu uma parada
cardíaca depois de uma anestesia geral, provocada por um choque
anafilático ou mesmo por erro médico, como supõem algumas
pessoas. O caso até hoje não foi bem esclarecido. Faleceu em 2 de
abril de 1983, depois de 28 dias em coma. Deixou um legado musical e
espiritual como poucas celebridades. Sua obra e personalidade são
sempre lembradas com grande carinho por quem a conheceu, como
veremos na entrevista que se segue com a jornalista Neide Pessoa.
Página da Música – Qual era sua ligação com
Clara Nunes? De família ou amizade?
Neide Pessoa – No bairro em que moro até hoje,
chamado Renascença, havia uma fábrica de tecidos, que já foi
fechada. A Clara veio de Caetanópolis para trabalhar nessa fábrica
e nos conhecemos. Eu era, e ainda sou, amiga das primas dela que a
receberam em Belo Horizonte.
PM – Caetanópolis é a cidade natal dela?
NP – Era, embora ela se dizia de Paraopeba,
porque Caetanópolis, que tinha o nome de Cedro Cachoeira, era um
distrito de Paraopeba. Isso causa um certo ciúme na cidade dela,
que transformou-se em Caetanópolis depois, quando foi emancipada.
Enfim, a Clara Nunes veio para Belo Horizonte juntamente com a irmã
dela, que se chama Vicentina, morar aqui no bairro.
PM – Ela era adolescente?
NP – Sim, tinha 16 anos de idade. Veio fazer um
teste para trabalhar na fábrica de tecidos Renascença. E eu sou
amiga até hoje das primas dela, Conceição e Maria Mendes, como
havia dito. Elas receberam a Clara e sua irmã, que ficaram morando
com elas até se situarem aqui. Fiquei conhecendo a Clara através
dessas primas, na porta da Igreja Santo Afonso, aqui no bairro. A
partir daí, tivemos uma certa convivência. Eu tenho hoje 66 anos e
ela teria 60 anos. E a turma dela de sair, ir a festas, era outra.
Convivi mais com uma irmã dela que já morreu, que se chamava
Branca. Depois, cada uma de nós foi tomando seu rumo, cada uma
abrindo o seu caminho, mas fui reencontrar com ela quando estava
fazendo o curso de Jornalismo e me convidaram para um estágio na
antiga TV Itacolomi, aqui em Belo Horizonte, e ela já estava nessa
TV.
PM – Enquanto você trilhava pelo jornalismo
ela estava na música?
NP – É. A gente trocava muitas idéias a
respeito. Ela falava sobre seus sonhos, o que ela pensava, o que ela
esperava da vida. Foi mesmo uma coincidência eu estar fazendo
estágio lá e ter visto, como amiga e como repórter, o início da
carreira dela.
PM – Foi um privilégio, não?
NP – Foi um privilégio, realmente.
PM – Antes dessa TV ela trabalhou na rádio
Inconfidência, não foi?
NP – É o seguinte: Essa prima dela
apresentou-a ao maestro Jadir Ambrósio. Mas o fato é que esse
maestro, quando a ouviu cantar, percebeu que a voz dela não era
para cantar assim só em festinha e nem só, apesar de ser algo bom,
no coro da igreja.
PM – Isso já no começo da juventude?
NP – Ih, nossa, isso foi logo quando ela veio.
Ela já chegou aqui cantando. Mesmo na terra dela já havia cantado
em festas. Com uma outra irmã que morava em Sete Lagoas, ela já
tinha ido cantar na rádio de lá. Na minha opinião acho que ela
já deve ter nascido cantando. Mas foi Jadir Ambrósio que percebeu
que era uma voz que poderia ser trabalhada, que deveria ser dada uma
oportunidade a ela, e ele a encaminhou para pessoas como o Wilson
Miranda, que hoje é o chefe de produção da TV Globo aqui em
Minas. Daí ela começou a participar de programas de auditório
como o do Aldair Pinto, que já faleceu. Tinha os "degraus da
fama" e ela foi participando. Aí sim, ela ficou um tempo na
rádio Inconfidência e nós tínhamos um amigo em comum, que não
sei se está aposentado, chamado Ricardo Parreiras. Teve duas coisas
bem importantes do início da carreira dela. Um concurso intitulado
"A voz de ouro". A Clara Nunes é a voz de ouro de Minas
Gerais. Também, durante os 25 anos da rádio Inconfidência, ela
foi escolhida como rainha da rádio. Nessa oportunidade, foi gravado
um LP comemorativo da rádio, que é uma preciosidade, e numa faixa
está lá a Clara Nunes. Foi uma composição do Jadir Ambrósio e
do Wilson Miranda.
PM – Por acaso você tem esse disco?
NP – Eu não tenho. Mas foi distribuído, na
época, para o pessoal da própria rádio, para os jornalistas da
época, para os anunciantes. Foi uma edição limitada, digamos
assim.
PM – Logo depois ela foi para o Rio de Janeiro?
NP – Não, não. Depois da Inconfidência ela
foi contratada pelos Diários Associados, aqui de Minas.
PM – Ficou ainda mais uns anos em Minas...
NP – Ficou na Inconfidência, quer dizer, foi a
fase de sucessos, começou a receber convites, cantou em boates. É
detentora de um título raro que é o Lua de Prata, troféu
concedido aos melhores cantores da noite em Belo Horizonte. Todo fim
de ano, os jornalistas de Minas faziam a lista dos melhores
cantores, cantoras, apresentadores etc. Clara ganhou vários
títulos, sempre como a melhor cantora do ano, de 1961 a 1964.
PM – Depois que ela foi para o Rio de Janeiro
vocês perderam o contato?
NP – Algumas vezes, quando vinha a Belo
Horizonte, eu tive oportunidade de me encontrar e conversar com ela.
PM – Falando mais especificamente sobre o
livro, quando surgiu a idéia de fazer uma biografia sobre a Clara
Nunes?
NP – Eu recebi um convite da família dela. Eu
sou jornalista e, quando a Clara morreu, escrevi uma crônica num
jornal aqui de Belo Horizonte, com o título de "Tristeza pé
no chão". E essa crônica, sobre ela, foi muito lida,
comentada, procurada e, ou por isso, ou por algum outro motivo, a
família dela achou por bem ter uma biografia dela. Também porque
muitas pessoas vão a Caetanópolis querendo saber mais, querendo
pesquisar sobre ela. Então, acharam que seria oportuno uma
biografia.
PM – Quando a família fez esse convite para
você?
NP – Foi mais ou menos em 1995. Eu incentivava
muito para que eles abrissem todos os arquivos, o acervo da Clara.
PM – A família dela ainda mora em
Caetanópolis?
NP – Existe um irmão e uma irmã em
Caetanópolis, uma irmã em Sete Lagoas, um irmão em Goiás, outro
irmão aqui em Belo Horizonte.
PM – A maior parte do acervo dela onde fica?
NP – Está justamente em Caetanópolis, com a
Mariquita, que a turma do Rio, do antigo fã-clube da Clara,
chama de Dindinha, porque a Clara chamava a irmã que a criou de
Dindinha. Enfim, o filho dela, que chama-se Suede, construiu ao
lado, anexo à creche Clara Nunes, em Caetanópolis, um cômodo e
tudo em vitrine. É pequeno, mas é muito bem guardado, muito mais
conservado que muito museu que tenha mais recurso.
PM – Tem uma creche com o nome da Clara Nunes
na cidade dela?
NP – Existe lá em Caetanópolis o Centro
Espírita Paulo de Tarso. A família toda é espírita. A Mariqueta,
irmã dela, que é minha amiga, faz parte desse Centro Espírita.
Era um desejo da Clara ter a oportunidade de fazer uma creche, uma
forma de ela poder ser útil às crianças. Porque ela foi uma
pessoa que teve muita vontade de ter filhos e não lhe foi
possível. Por isso tem essa creche que leva o nome da Clara e cuida
de crianças de zero a sete anos.
PM – Essa creche existe desde que ela era viva
ou foi feita depois?
NP – Não, mas é em homenagem a ela. Ela não
chegou a concretizar essa vontade. A família e os amigos que se
encontraram com ela, na última vez em que ela esteve em Belo
Horizonte, ouviram dela que existia essa vontade. Então, por causa
disso, a irmã dela tem esse trabalho ao qual ela se dedica.
PM – E o que tem no acervo da Clara Nunes, por
exemplo?
NP – Álbuns com recortes de toda a sua vida
como cantora, as tiaras, os troféus que ganhou, os discos, as
roupas de shows e inúmeras fotos, entre outros objetos. A Clara
tinha o costume de guardar tudo. Quando eu recebi o material, fiquei
comovida, porque tinha desde coisas simples, como recortes de
jornal, as primeiras notícias sobre ela, fotos com amigas, os
primeiros recortes de jornal que ela mesma colava num álbum. Ela
foi guardando tudo e, de vez em quando, ela falava: "Um dia
isso vai virar um museu". Brincando, porque ela era muito
bem-humorada. Uma das pessoas bem-humoradas que eu conheci na vida.
PM – E quem cuida desse acervo é o filho da
irmã dela?
NP – Não, é a própria irmã. Não é aberto
constantemente à visitação porque ainda não foi transformado em
museu com estrutura suficiente para isso.
PM – É ali que você encontra sua maior fonte
de pesquisa?
NP – Olha, eu recebi da família minha fonte de
pesquisa, até a correspondência pessoal dela para família. A
própria Clara tinha mandado refazer muitos álbuns com recortes de
toda a carreira dela. Então é desse material, além de fotos,
outras coisas e, lógico, a minha disposição para a pesquisa.
PM – Voltando um pouquinho a uma pergunta
anterior, você teve esse convite da família lá por 1995 e, desde
então, você começou a já pensar no projeto ou a já pesquisar?
Como foi o caminho de lá pra cá?
NP – Eu comecei desde então, mas, como eu não
estava fazendo com recursos de nenhum projeto, eu dôo a maior parte
do meu tempo para isso e já há uma grande parte, praticamente toda
a parte de pesquisa, feita. E uma grande parte do livro já está
escrito. Eu vou, aos poucos, procurando dar a ele um tratamento mais
literário. Agora já está quase no ponto de poder ser enviado a
Brasília. A lei que eu acho que será oportuna é a Rouanet.
Então, espero, depois de a gente fazer a revisão final do projeto,
daqui a no máximo dois meses, que eu esteja com a conta aberta para
poder divulgar o projeto através dessa lei federal.
PM – Para ver se alguma empresa se interessa?
NP – Empresas e, como é através de imposto de
renda, também podem ser profissionais liberais, por exemplo. Na
verdade já tenho uma receptividade muito grande de alguns segmentos
de profissionais liberais, preparados para a hora em que estiver
aprovado o projeto. Poderia citar médicos, arquitetos, advogados,
engenheiros, também jornalistas, militantes de direitos humanos
etc. Do total do recolhimento de imposto de renda da pessoa, ela
pode depositar nessa conta, com o projeto aprovado, 6% daquilo que
ela teria que recolher. Pode parecer pouco, mas eu espero uma
receptividade muito grande dos profissionais liberais, não só de
Minas, Clara não é exclusividade nossa, não é mesmo?
PM – Você chegou a conversar com alguma
editora, ou alguma delas te procurou?
NP – Eu cheguei a receber um telefonema, porque
quando saiu a notícia sobre eu estar escrevendo a biografia... eu
até achei que não tenha sido muito bom essa divulgação com muita
antecedência, porque todo mundo acha que o livro já está saindo.
Aqui em Minas os jornalistas foram muito atenciosos comigo e,
principalmente, com a minha biografada. Foi muito divulgado, fui
muito entrevistada. Isso foi acontecendo depois que um jornalista
descobriu e deu uma notinha. A partir daí outros jornais também
publicaram essa notícia.
PM - Então é bom mesmo a gente aproveitar para
esclarecer em que pé está o projeto.
NP – Isso mesmo. Todo o material de recortes da
carreira dela eu já manuseei e com uma certa dificuldade, porque
eles não haviam ainda passado por nenhum processo adequado de
conservação. Abri jornais da década de 60, por exemplo, tudo com
bastante cuidado e delicadeza. E manuseei, no mínimo, umas cinco
vezes. Agora eu não faço mais porque eu sei que estaria, assim,
atentando contra a preservação de um material precioso.
PM – Você inclui na biografia entrevistas
também?
NP – Eu já tenho, por exemplo, uma entrevista
muito rica da Bibi Ferreira, também do Sérgio Cabral e do Toquinho.
Eu já tenho pessoas que vão começar a me ajudar, ou a entrevistar
ou a localizar pessoas. Também vou fazer meu planejamento de ida ao
Rio de Janeiro para entrevistar pessoas lá.
PM – Isso só depois da aprovação da lei ou
você vai tocando o projeto independente disso?
NP – Olha, eu banquei e fui até onde eu podia
e até onde não podia, por acreditar no meu trabalho. Agora, daqui
para frente, requer ou estadia, ou mais uma pessoa, gravações,
coisas que dependem de terceiros. Eu vou esperar.
PM – Como vai ser a abordagem do livro, ou
seja, é um depoimento mais pessoal ou tem um tom mais biográfico
mesmo?
NP – Olha, o nome oficial é biografia mesmo.
Mas eu li uma crítica, certa vez, que não me lembro bem de quem
era, onde esse crítico dizia sobre um determinado livro, que seria
uma biografia, mas que, ele dizia num tom jocoso, ser mais um
tributo ou homenagem do que biografia. Então o meu livro é o
seguinte: a pessoa vai ver de acordo com a visão que tem da Clara.
De acordo com o que o seu coração mandar. Se quiser achar que é
biografia está bom, se quiser achar que é tributo, também está
bom, se achar que é homenagem, tudo bem. Eu ouvi o Sérgio Cabral
falando a respeito da biografia que ele fez sobre a Elizeth Cardoso
em vida. Que ao fazer a biografia dela, ela o deixou à vontade para
ele não se envolver e poder ser isento e objetivo. Agora, o meu
livro não tem isso. A parte de informação, de discografia, por
exemplo, estou procurando que saia da maneira mais correta
possível. Estou trabalhando muito de forma literária, o que pode
virar crônica, estou fazendo virar. Na verdade, esse é o gênero
em que eu mais trabalhei na vida, a crônica.
PM – Esse é um gênero literário que pode se
dar muito bem com uma biografia. A leitura, além de documental,
pode ficar mais agradável, não é?
NP – Eu estou sentindo que sim.
PM – O livro segue uma linha cronológica, ou
não necessariamente?
NP – Olha, já na primeira entrevista que me
fizeram perguntaram isso e eu respondi que iria percorrer os
caminhos da Clara. E realmente eu tento seguir uma ordem
cronológica, até para facilitar a leitura. Mas, ao mesmo tempo,
também faço cortes nessa cronologia.
PM – Você contextualiza as situações,
quando, por exemplo, cita um determinado disco, também fala da
época em que ele está sendo lançado?
NP – Eu entendo que jamais se faz uma biografia
sem estar dentro de seu contexto histórico e social. É um pano de
fundo, mas acho que jamais poderia deixar de ser abordado. Ainda
mais de uma tecelã, porque estou biografando uma tecelã por
profissão, brincando com as palavras. Mas ela é também tecelã,
por ter sido atribuído a ela, pelo Ferreira Gullar, o título de
operária da música popular brasileira.
PM – Você aborda aspectos exclusivamente
artísticos ou também pessoais da carreira dela?
NP – Bom, eu coloquei minha alma de repórter
para funcionar, então não é só uma coisa ou outra. Eu procurei
selecionar o que seria mais importante para o leitor saber.
Percebam: ela veio da terra dela, passou por aqui, por Belo
Horizonte, em 1958, depois começou a carreira em 1960; em 1965 ela
estava indo para o Rio de Janeiro. Foi uma passagem rápida e
algumas coisas foram pouco percebidas. O que é que eu quero além
da artista, além da importância da obra dela, apesar de ter
morrido nova, em comparação a outros artistas? Mostro, por
exemplo, o bom humor dela. Ela era uma pessoa muito bem-humorada,
estou resgatando coisas fabulosas. Tem também o que eu mesma vi
acontecer na vida dela. Já ouvi várias ex-operárias, hoje todas
aposentadas, aqui na fábrica de tecido, que citavam o bom humor
dela no trabalho, o bom humor dela por onde ela passou. O bom humor,
a determinação, a personalidade dela. É a obra, a vida pessoal, a
personalidade dela. Também abordo a consciência social. Porque,
às vezes, por ela se recusar a fazer declarações sobre política
partidária, as pessoas achavam que ela não tinha essa
consciência. São essas coisas assim que eu posso comprovadamente
colocar e fazer ser percebido. É o que eu pretendo.
PM – O livro já tem título?
NP – Eu tirei do título de uma música que ela
gravou: Quando vim de Minas. É do Xangô da Mangueira. Uma
pessoa vai especialmente ao Rio para trocar uma idéia a respeito
disso com ele, pegar uma autorização. Vamos ver se vai ser esse
mesmo o nome. Mas acho que ele também vai gostar, deverá mesmo ser
esse o título do livro.
PM – Então, você está nesse estágio de ir
captar recursos para o projeto?
NP – É. E eu espero que os empresários se
sintam motivados, que se manifestem, porque será divulgado quando
for aprovado. Aí, sim, espero que tenha uma divulgação que seja
bem feita.
PM – Depois dessa aprovação você ainda vai
dar andamento no projeto, fazer entrevistas etc. Mas você tem uma
meta, imagina quando poderá ser lançado esse livro?
NP – Isso primeiro vai depender dos recursos
que eu obtiver. Eu tenho o contato de uma editora do Rio de Janeiro
que está interessada. Depende de como for, daí os critérios de
lançamento será dessa editora. Mas não tenho contrato com essa
editora, é uma editora simpática.
PM – Gostaríamos que você falasse alguma
coisa sobre a Clara Nunes, seu ponto de vista pessoal mesmo.
NP – Não creio que tenha havido algum ser
humano, independente de sexo, religião ou classe social, que tenha
convivido com ela, que tenha passado pela vida dela, tanto na terra
dela, como no trabalho, no bairro aqui em que ela morou ou no meio
artístico, que não tenha sentido algo muito forte e que ficou. Eu
não sei se ela era uma pessoa iluminada, ou o que é que a fez
passar e deixar algo de muita luz e de muito positivo para as
pessoas. Não é exagero meu, já ouvi isso de várias pessoas.
Estou procurando, quando é uma opinião minha a respeito dela,
distinguir que é a minha opinião, o meu sentimento a respeito. E
quando não é, eu não estou misturando, mas vai estar no livro. Eu
me sinto privilegiada em estar escrevendo essa obra. Sou uma simples
jornalista aqui de Minas Gerais, com crônicas publicadas nos
jornais daqui. Não tenho nenhum outro livro escrito. E entende que
em termos de biografia, eu falo isso assim de coração mesmo...
talvez essa biografia estivesse melhor escrita pelos grandes
biógrafos de artistas, como o Ruy Castro, o Sérgio Cabral, enfim,
temos pessoas aí com essa capacidade e que já passaram por esse
caminho. Mas acho que, se é questão de emoção, que era o que ela
procurava transmitir às pessoas quando cantava, se não é o
formal, porque ela não era uma pessoa formal, então, nesse ponto,
tranqüilamente, sem vaidade nenhuma, eu me julgo a pessoa indicada
para fazer.
PM – Como você mesma disse, se o que ela
gostava de fazer era justamente passar emoção para as pessoas,
nada mais justo que alguém que esteja escrevendo uma biografia dela
também queira passar isso para os leitores, não?
NP – Alguma coisa formal, fria, por melhor que
fosse, mas que não tivesse a emoção, a vida, a alegria, a
esperança, não faria muito sentido nesse caso. Principalmente o
resgate da esperança que ela cantou e passou para as pessoas.
Lembrando um trecho de uma das músicas do Paulo César Pinheiro:
"O importante é que a nossa emoção sobreviva".
Contatos com a jornalista Neide Pessoa:
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